Imprensa livre e independente
27 de agosto de 2017, 12h59

Bolsonaro quer militarizar escolas brasileiras

De acordo com o deputado, as escolas militares "passariam a ser exemplares", pois nelas há "educação moral e cívica, cultua-se o respeito às autoridades, no intervalo não tem maconha, o pessoal corta o cabelo, cobra-se o dever de casa...".

De acordo com o deputado, as escolas militares “passariam a ser exemplares”, pois nelas há “educação moral e cívica, cultua-se o respeito às autoridades, no intervalo não tem maconha, o pessoal corta o cabelo, cobra-se o dever de casa…”. Da Redação* As normas de uma escola dirigida pela Polícia Militar goiana seguem o rígido padrão disciplinar de instituições de ensino militarizadas: Não dobrar short ou camiseta da educação física “para diminuir seu tamanho” nem usar óculos com “lentes ou armações de cores esdrúxulas”. Meninos: nada de “barba ou bigode por fazer e costeleta fora do padrão”. Meninas: esqueçam o penteado “com...

De acordo com o deputado, as escolas militares “passariam a ser exemplares”, pois nelas há “educação moral e cívica, cultua-se o respeito às autoridades, no intervalo não tem maconha, o pessoal corta o cabelo, cobra-se o dever de casa…”.

Da Redação*

As normas de uma escola dirigida pela Polícia Militar goiana seguem o rígido padrão disciplinar de instituições de ensino militarizadas:

Não dobrar short ou camiseta da educação física “para diminuir seu tamanho” nem usar óculos com “lentes ou armações de cores esdrúxulas”.

Meninos: nada de “barba ou bigode por fazer e costeleta fora do padrão”. Meninas: esqueçam o penteado “com mechas caídas”. Tingir o cabelo de “forma extravagante” é proibido para todos.

“Contato físico que denote envolvimento de cunho amoroso (namoro, beijos etc.)” é infração até fora da escola, se o aluno estiver de uniforme.

E, se depender do pré-candidato à Presidência Jair Bolsonaro, podem virar padrão no sistema escolar nacional.

Das 147 mil unidades públicas de ensino básico, cerca de 0,1% estão sob batuta militar. São 13 comandadas pelo Exército (há um projeto para implantar uma em São Paulo) e dezenas nas mãos de PMs estaduais –não há um órgão que centralize esse total, e alguns Estados não possuem o dado consolidado, mas sabe-se que Goiás lidera o ranking, com 36 colégios sob guarda da polícia e mais 18 previstos para 2018.

Veja também:  Com amigo de infância na Secretaria-Geral, Carlos e Eduardo Bolsonaro chegam à cúpula do governo

Bolsonaro diz que, se eleito presidente, multiplicará o modelo, fechando parcerias com as redes municipal e estadual. Reconhece ser impossível cobrir 100% da malha escolar, mesmo porque “faltariam recursos”.

Mas as escolas militares “passariam a ser exemplares”, pois nelas há “educação moral e cívica, cultua-se o respeito às autoridades, no intervalo não tem maconha, o pessoal corta o cabelo, cobra-se o dever de casa…”.

À frente do MEC (Ministério da Educação), em eventual gestão sua, colocaria um general –alguém “que represente autoridade, amor à pátria e respeito à família”, ao contrário de titulares recentes da pasta, diz.

Cita dois petistas: “[Fernando] Haddad? Pai do ‘kit gay’ [projeto para discutir homofobia e sexualidades nas salas de aula]. Aloizio Mercadante manteve a mesma política”.

No começo de agosto, o deputado do PSC-RJ (que deve trocar de legenda para disputar o Palácio do Planalto) distribuiu em suas redes sociais vídeo de “um exemplo de ensino que deveria ser adotado em todas as escolas públicas do Brasil”.

Veja também:  O que foi revelado até agora pela Lava Jato não é nada perto do que está por vir, diz Noblat

Nove filas de adolescentes de um colégio em Manaus o exaltam em coro: “Convidamos Bolsonaro, salvação desta nação”.

A visita, diz o parlamentar, foi um desagravo aos estudantes, alvos do programa “CQC”, que naquele 2015 fez reportagem crítica sobre a escola onde “no corredor não tem bedel, tem policial, alguns com arma na cintura”.

Antes de passar para o controle da PM, num acordo estabelecido em 2012 com a Secretária de Educação amazonense, a unidade tinha alunos receosos de deixar a mochila na sala para ir ao recreio –colegas poderiam roubá-la. Coibir a violência no ambiente escolar não é a única vantagem que Bolsonaro vê na militarização da educação.

Os índices de aprovação tendem a disparar nesses colégios, que costumam ficar entre os primeiros lugares do Enem.

Tudo isso é verdade, diz Renato Janine Ribeiro, que chefiou o MEC por seis meses na administração Dilma Rousseff. De fato, “existe uma preocupação muito grande” com “uma parcela da juventude muito sem limites”, sobretudo após o caso da professora de Santa Catarina espancada por um aluno. E as escolas militares têm, sim, desempenho melhor no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica).

Veja também:  Trump promete a cura do câncer e da Aids ao lançar campanha para sua reeleição

Elas já ganharam simpatia até do senador Cristovam Buarque (PPS-DF). Ao defender a federalização do ensino básico, o também ex-ministro da Educação, no governo Lula, elogiou os colégios militares.

O problema é comparar maçãs e laranjas, afirma Ribeiro. Essas instituições “têm mais recursos”, então é natural que se saiam melhor.

Para o filósofo, “é um erro, numa sociedade democrática, tentar colocar a formação militar, hierárquica e obediente, como ideal para todos os jovens”, inquietos por natureza.

São eles, afinal, o futuro de um “país que sempre cultivou uma certa autoimagem de uma coisa mais alegre, mais solta nos costumes”.

O pelotão de crianças e jovens fardados, diz, “deveria ser exceção, não regra”.

*Com informações da Folha

Foto: Renato Araújo/ABr

 

Você pode fazer o jornalismo da Fórum ser cada vez melhor

A Fórum nunca foi tão lida como atualmente. Ao mesmo tempo nunca publicou tanto conteúdo original e trabalhou com tantos colaboradores e colunistas. Ou seja, nossos recordes mensais de audiência são frutos de um enorme esforço para fazer um jornalismo posicionado a favor dos direitos, da democracia e dos movimentos sociais, mas que não seja panfletário e de baixa qualidade. Prezamos nossa credibilidade. Mesmo com todo esse sucesso não estamos satisfeitos.

Queremos melhorar nossa qualidade editorial e alcançar cada vez mais gente. Para isso precisamos de um número maior de sócios, que é a forma que encontramos para bancar parte do nosso projeto. Sócios já recebem uma newsletter exclusiva todas as manhãs e em julho terão uma área exclusiva.

Fique sócio e faça parte desta caminhada para que ela se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie a Fórum