CRISE CLIMÁTICA

“Sufocante, desesperadora”: Moradores de Manaus relatam o dia a dia cobertos pela fumaça

Capital do Amazonas sofre há meses com ar tóxico devido a queimadas e já chegou a ser considerada a segunda pior cidade do mundo para respirar

Manaus encoberta por fumaça.Créditos: Reprodução/Redes Sociais
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A rotina dos moradores de Manaus está sendo afetada por ondas de fumaça densa que encobrem a capital do Amazonas há meses e deixa o ar tóxico. A cidade chegou a ter cinco dias consecutivos de qualidade do ar muito ruim ou péssima, segundo dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva) ligado à Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

No dia 11 de outubro, Manaus chegou a ser considerada a segunda pior cidade do mundo para respirar, segundo o World Air Quality Index, que monitora a qualidade do ar em nível global. Alguns moradores chegaram a usar máscaras da pandemia de Covid-19. 

Essa realidade sufocante assusta e prejudica o cotidiano dos manauaras. Uma moradora, que não quis ter seu nome exposto, conta que um dia acordou em pânico devido ao cheiro forte, que deixou seus olhos e a garganta ardendo. “Mesmo com janelas e portas fechadas, a fumaça entrou em casa e eu achei que ia morrer asfixiada”, relata. Todo dia, ela monitora a qualidade do ar antes de sair de casa.

“É terrível puxar o ar e sentir fumaça. Sem falar nos riscos para a saúde. Acredito que nossa população irá apresentar, futuramente, graves problemas de saúde decorrentes destes períodos”, conta outro morador, Renato de Souza, líder religioso.

Victor Matheus, artista manauara, diz que sua situação é ainda mais complicada, já que é cantor e trabalha com a voz. Ele conta que teve problemas na garganta e que no último dia do espetáculo em que se apresentava teve rouquidão. “Eu estava me expondo a isso [fumaça] toda hora porque tínhamos que ensaiar. Eu saía 6 horas de moto e já estava uma fumaça, um ar sujo”, diz. Ele também relata que até para tomar água era ruim. “Ela queimava. Eu não podia nem hidratar”.

Com tudo isso, ele perdeu a voz por três semanas seguidas. Quando foi ao médico, o diagnóstico: reação alérgica ao ar. “Várias pessoas estavam assim também. Eu tive febre, secreções, meu nariz ressecou e chegou a sair sangue. Tomei muita coisa e ainda não me recuperei 100%”. Sua professora chegou a dormir no hospital com crises de sinusite.  

O músico também comenta que a recomendação é não abrir a casa, mas isso se torna inviável devido ao calor. Também é aconselhável colocar uma panela com água no quarto para evitar as consequências do ar ruim. Além disso, os médicos pedem que os moradores usem máscaras para sair de casa. Victor afirma que segue o aviso.

Outro perigo da fumaça é a falta de visibilidade que ela provoca. “Muita gente sofreu por não conseguir ver a pista, principalmente motoqueiros”, conta. 

O horizonte cinza também assusta. “Não ver o azul do céu e se dar conta de que estamos encobertos por fumaça é outra sensação ruim e desesperadora. Dá uma impressão daqueles filmes de fim do mundo, de que há algo de errado no nosso planeta. E há, de fato”, descreve Renato.

Cristine Pinagé diz que a fumaça veio junto de um calor intenso, que chega a provocar mal-estar. “Nos dias intensos é agoniante estar na rua. A fumaça é quase palpável, sufocante, desesperadora”, conta.

Queimadas e seca histórica

As ondas de fumaça em Manaus são consequências de uma série recorde de queimadas no Amazonas, epicentro de uma grave crise ambiental. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), outubro teve o maior registro de queimadas desde o início das medições, em 1998. 

Apenas nos últimos três meses, 15 mil ocorrências de fogo foram registradas pelo Inpe. O estado chegou a decretar emergência ambiental.

O Amazonas também passa por uma estiagem histórica, a pior em 121 anos, que atingiu 62 municípios, secou rios e deixou mais de 100 botos mortos devido à temperatura da água que atingiu 40°C. O baixo nível dos rios prejudica não só os animais marinhos, mas toda a população de Manaus que depende de barcos para ter acesso a mantimentos. "Na região somos muito dependentes dos rios porque somos ilhados de estradas e meios de locomoção por terra. Então, dependemos totalmente do transporte fluvial, ou seja, os barcos transportam água, alimento, entre outros, para os nossos interiores ou municípios”, relata Cristine.

O descaso com as nossas vidas é o mais chocante. É alarmante e totalmente revoltante. Estamos sendo sufocados, silenciados e isso com certeza é o que gera mais revolta”, desabafa. 

Cristine também afirma que o ocorrido tem consequências emocionais para os moradores da região. “Temos uma conexão com a natureza muito forte”, explica, e classifica a situação como uma injustiça. “Nós, os que mais preservamos, somos os primeiros impactados a sofrer as consequências. Vejo que somos guardiões dessa terra e precisamos nos mobilizar e fazer com que o mundo veja o quanto alarmante é a causa. O futuro é agora”, alerta.

Renato também lamenta a situação das queimadas. “A falta de educação doméstica e ambiental, o desejo desmedido pelo aumento do lucro nos investimentos que envolvem o cultivo da terra, o descaso e a morosidade das autoridades públicas em responder efetivamente e preventivamente a estes problemas podem ser apontados como a causa de tudo isso”, diz.

O alívio da chuva

Nesta terça-feira (7), Manaus foi atingida por fortes chuvas, o que foi comemorado por alguns moradores após o longo período de ondas de calor e seca. “Cheguei a me emocionar vendo a chuva, pois todos aqui sabíamos que amenizaria a fumaça, além de nos dar melhor sensação térmica”, declara Cristine. “A chuva é a nossa maior aliada pois ela limpa o ar”, complementa Vitor.

A previsão é de mais chuvas até 13 de novembro, próxima segunda-feira, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).