INTERFERÊNCIA

Delegado é afastado do caso Porsche após causar incômodo à PM ao pedir câmeras

SSP dá explicação burocrática, mas insistência em querer saber por qual razão policiais liberaram condutor imprudente enfureceu governo e sua política de militarização

Governador Tarcísio de Freitas e o sec. de Segurança, o PM Guilherme Derrite.Créditos: Facebook/Reprodução
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Responsável pelo inquérito que investiga o episódio envolvendo um jovem ricaço que conduzia um luxuoso Porsche de maneira imprudente, e que acabou matando um motorista de aplicativo numa colisão na Zona Norte de São Paulo na noite de 31 de março, o delegado Nelson Alves foi retirado do caso e transferido de delegacia nesta sexta-feira (19), por determinação da direção da Polícia Civil.

Alves vinha pedindo insistentemente as imagens das câmeras corporais dos PMs que atenderam à ocorrência, já que esses agentes liberaram o condutor aparentemente embriagado do local, a pedido da mãe, sob o pretexto de levá-lo ao pronto-socorro, mas que na prática permitiu a sua evasão do flagrante. O delegado também tornou-se alvo de críticas da equipe de advogados de Fernando Sastre de Andrade Filho, o condutor do Porsche, pois detalhes do inquérito teriam chegado ao conhecimento da imprensa, levando os defensores a atribuírem tal vazamento ao policial.

O fato é que Alves despertou a fúria do governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) pelos pedidos reiterados de entrega dos registros feitos pelas câmeras dos PMs, sob quem recairiam suspeitas de terem facilitado, seja lá por qual razão, a saída do responsável pela tragédia do local da violenta batida. Tarcísio vem dando caráter excepcional de importância à Polícia Militar e quer torná-la uma “superinstituição” com poderes quase absolutos, que não poder criticada, questionada ou investigada por crimes e irregularidades, em consonância com o discurso autoritário militarista do bolsonarismo.

Oficialmente, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) explicou que a retirada de Alves do caso e do 30° DP, sendo transferido para o 81° DP, também na Zona Leste, seria por mera burocracia e “razões administrativas”. No lugar dele foi colocado o delegado Milton Burguese, que estava no 81°DP. Ou seja, eles foram trocados. Em entrevista ao jornalista José Luiz Datena no começo da noite desta sexta (19), o delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Artur Dian, disse que se tratou de uma “permuta”, uma troca direta entre os dois funcionários, o que foi negado por Alves, que ao ser questionado pela imprensa em relação à sua saída respondeu: “Ninguém sabe, só cumpro ordens”.

A recusa e as desculpas da PM em entregar logo o material registrado nas câmeras corporais causam estranheza a todos, uma vez que o caso sequer investiga diretamente seus integrantes. Ainda que fossem o alvo da investigação, como instituição pública e de Estado, a PM deveria imediatamente entregar essas imagens à Polícia Civil, que legalmente é quem realiza a função de polícia judiciária. A situação é tão esdrúxula que o delegado Marcos Casseb, titular do 30°DP e até então chefe direto de Alves, teve que fazer um pedido à Justiça para que o Comando da Polícia Militar repasse de uma vez as imagens filmadas, o que deixou a corporação fardada ainda mais irritada.