ZONA LESTE DE SÃO PAULO

Postos do Corinthians aparecem ligados a lavagem de dinheiro do PCC

Locais pertencem a empresas citadas na Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto deste ano

Posto Corinthians na Zona Leste de São Paulo.Créditos: GoogleStreetView
Escrito en BRASIL el

Três postos de combustíveis que exibem o nome e o escudo do Corinthians operam em endereços associados a empresários investigados por lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Os locais constam em registros oficiais da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e pertencem a empresas citadas na Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto deste ano.

A operação é considerada a maior já realizada contra o braço financeiro da facção criminosa e investiga um esquema que teria movimentado mais de R$ 8 bilhões em fraudes fiscais e lavagem de capitais por meio de redes de postos de combustíveis e negócios de fachada.

Os três postos licenciados com a marca “Posto Corinthians” funcionam na Zona Leste de São Paulo, todos classificados como bandeira branca. A ANP lista as unidades com as seguintes razões sociais: Auto Posto Mega Líder Ltda, Auto Posto Mega Líder 2 Sociedade Unipessoal Ltda e Auto Posto Rivelino Ltda.

O clube, em nota, declarou não ter envolvimento direto com a operação dos estabelecimentos, explicando que a marca foi licenciada a uma empresa intermediária responsável por negociar com os proprietários. “O Corinthians acompanha as apurações e poderá adotar medidas jurídicas caso sejam constatadas irregularidades”, afirmou a instituição.

Empresas e nomes sob investigação

De acordo com documentos consultados pela reportagem, os três endereços estão ligados a empresários citados na investigação sobre o grupo comandado por Mohamad Hussein Mourad, apontado pela Justiça de São Paulo como um dos principais articuladores do esquema de lavagem de dinheiro do PCC.

Entre os nomes que aparecem nos registros estão Pedro Furtado Gouveia Neto, ligado à empresa GGX Global, e Himad Abdallah Mourad, primo de Mohamad, ambos investigados por montar estruturas empresariais para ocultar patrimônio e movimentar recursos ilícitos.

Outros dois postos que levam o nome do Corinthians, os Mega Líder 1 e 2, têm vínculos com Luiz Ernesto Franco Monegatto, também alvo da operação e citado por envolvimento em negócios de combustíveis e transações imobiliárias supostamente usados pelo grupo para disfarçar ganhos do crime.

Divergências e medidas da ANP

A ANP informou que há inconsistências cadastrais entre os registros de algumas dessas empresas nas bases da Receita Federal e da própria agência. Em um dos casos, o Auto Posto Mega Líder aparece também como Auto Posto Timão Ltda. — referência direta ao apelido do clube. Segundo a ANP, divergências desse tipo configuram irregularidade administrativa e podem levar à suspensão da autorização de funcionamento se não forem corrigidas.

Contratos e responsabilidade do clube

Os contratos de licenciamento que permitem o uso da marca “Posto Corinthians” foram firmados em 2021, durante a gestão do então presidente Duilio Monteiro Alves. Ele afirma que o acordo foi elaborado antes de sua posse e passou por todos os órgãos internos de controle do clube.

“Os aditivos assinados em minha gestão autorizaram o início da operação das primeiras unidades. Não havia à época nenhuma denúncia ou irregularidade conhecida”, disse Duilio, acrescentando que o contrato prevê cláusulas de ressarcimento em caso de danos à imagem do Corinthians.

Outras investigações envolvendo o clube

O Ministério Público de São Paulo também apura possíveis relações comerciais indiretas entre antigos dirigentes do Corinthians e pessoas ligadas à facção, conforme revelado em etapas anteriores da investigação. Fontes ligadas ao caso afirmam que o clube teria alugado imóveis pertencentes a suspeitos de ligação com o PCC, usados para hospedar jogadores, embora sem envolvimento direto do elenco ou da atual diretoria.

Além disso, a Justiça identificou notas fiscais de abastecimento de veículos do clube emitidas em postos que figuram na lista de empresas sob suspeita de ligação com o grupo criminoso — entre eles o Auto Posto Gold Star, localizado nas proximidades do Parque São Jorge.

O que dizem os citados

Corinthians:

“O Sport Club Corinthians Paulista esclarece que não administra os postos citados. A marca foi licenciada a terceiros, conforme contrato regular. O clube acompanha as investigações e poderá adotar as medidas jurídicas necessárias.”

Duilio Monteiro Alves:

“Os contratos de licenciamento existiam antes da minha posse e foram firmados com empresas autorizadas por órgãos competentes. Durante minha gestão, não houve qualquer denúncia relacionada a essas parcerias.”

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