NATUREZA

O morro deslumbrante que permanece oculto no coração de uma das cidades mais belas do planeta

Um território com passado militar, natural e arquitetônico sobrevive quase apagado da paisagem

Imagem Ilustrativa.Créditos: Reprodução/USP
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O Morro da Viúva, escondido entre Flamengo e Botafogo, quase desaparece no cenário urbano da Zona Sul do Rio de Janeiro. Poucos lembram que a colina, hoje engolida pelos prédios, já teve importância estratégica na história da cidade.

Antes de receber o nome atual, era chamado de Morro do Léry, referência ao missionário francês Jean de Léry, que viveu na área no século XVI. O batismo como Morro da Viúva só veio em 1753, quando o terreno passou para D. Joaquina Figueiredo Pereira Barros, então herdeira viúva.

Ao longo dos séculos, o morro acumulou funções variadas. Funcionou como pedreira, fornecendo material para obras coloniais; abrigou uma bateria militar em 1863, voltada para a defesa da Baía de Guanabara; e passou a integrar o sistema de abastecimento de água com a construção de um reservatório em 1891.

Décadas depois, em 1946, o poder público aprovou um Projeto de Urbanização que definia limites de altura e áreas proibidas para construção, na tentativa de controlar a ocupação das encostas.

Hoje, porém, quase ninguém percebe que o morro existe. De quem passa pela Avenida Rui Barbosa ou pela Oswaldo Cruz, a colina some atrás da verticalização agressiva da região. Reportagens já resumiram o fenômeno com ironia: “Ninguém sabe, ninguém vê”. A massa de prédios de alto padrão criou uma espécie de cortina arquitetônica que reduz o morro a fragmentos visíveis apenas por brechas na malha urbana

Contrução indevida 

A transformação mais polêmica é a presença de um grande edifício com áreas de lazer privativas — quadras, piscina, espaços de clube — construído no alto ou nas encostas, justamente numa zona que, originalmente, constava como não edificável. A falta de fiscalização ao longo dos anos abriu caminho para que iniciativas privadas ocupassem áreas que deveriam permanecer preservadas.

Apesar disso, o morro ainda guarda sinais de sua história. Trechos de Mata Atlântica sobrevivem no topo; o reservatório antigo permanece como testemunho de outra época; e pequenos acessos, como a escadaria da Av. Oswaldo Cruz, revelam vistas esquecidas do Rio. Pesquisadores e associações de moradores defendem que a área seja requalificada: transformada em parque, com acesso público, recuperação ambiental e integração ao bairro.

Enquanto essa discussão não avança, o Morro da Viúva segue quase apagado — um pedaço de natureza e memória soterrado pela verticalização carioca, sobrevivendo discretamente à espera de ser redescoberto.

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