Um levantamento do Data Favela mostrou que 58% das pessoas envolvidas com o tráfico de drogas deixariam o crime se tivessem oportunidade de trabalho e emprego. O dado foi revelado na nova edição da pesquisa "Raio-X da Vida Real", feita com 3.954 pessoas que exercem atividades regulares para o funcionamento do ecossistema criminoso do tráfico de drogas. A amostra foi coletada em favelas de 23 estados do Brasil.
O estudo se aprofunda em questões relacionadas à família, trabalho, educação e outros tópicos das pessoas envolvidas com o crime. Em relação à disposição de sair dessa vida, a pesquisa destacou que a maioria sairia se tivesse oportunidade. Os maiores índices estão no estado de Rondônia (74%) e no Rio de Janeiro (70%).
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Entre os motivos para deixar a criminalidade, estão oportunidades de empreendedorismo (22%), emprego formal de carteira assinada (20%) e emprego com flexibilidade (17%).
Já em relação aos motivos que os impedem de sair do crime, estão o medo de não conseguir outra fonte de renda (33%), risco de vida (26%), não conseguir sustentar a família (17%) e o reconhecimento e respeito que tem dentro da favela (13%).
A pesquisa destacou que, apesar de muitas vezes o crime ser justificado como a única forma eficaz de garantir o sustento e a segurança da família, por outro laso há medo de perpetuar esse ciclo de violência no ambiente familiar: 84% afirmaram que não deixariam seu /sua filho(a) entrar para o crime.
O levantamento também trouxe relatos de pessoas envolvidas no crime para evidenciar a vontade delas de saírem desse ciclo. "Emprego e sempre ter pessoas que incentivam você a seguir no caminho certo, longe do crime", disse uma mulher entre 32 e 36 anos. "Montar meu próprio negócio e viver tranquilo sem que a polícia me fizesse nenhum mal", declarou um homem entre 22 e 26 anos.
Maioria não se orgulha do que faz
O levantamento também investigou se os criminosos sentem orgulho do que fazem. A maioria (68%) respondeu negativamente, enquanto 32% afirmaram que "sim" à pergunta. Se comparada à questão sobre deixar o filho entrar para o crime, o Data Favela destacou que é possível inferir que os respondentes têm consciência de que exercem uma atividade não somente ilegal, mas igualmente reprovável do ponto de vista moral.
Conclusões
O Data Favela concluiu que o resultado mais importante é que o principal motivo para o ingresso nas redes criminosas do tráfico é a falta de dinheiro/necessidade econômica. A organização afirmou que neste dado se esconde uma armadilha, uma vez que a renda vinda do crime é insuficiente para uma independência financeira, já que 63% dos entrevistados ganham até dois salários mínimos mensais, o que se torna indispensável para seu sustento e da família.
A organização também ressaltou que a pesquisa apontou para um novo caminho de combate ao crime, baseado no estímulo ao quadrinômio trabalho-empregabilidade-empreendedorismo e renda "como um caminho seguro e de retorno rápido, com potencial de trazer resultados mais profundos e reais". "Uma possível estratégia para isso seria a criação de um maciço programa público de emprego, trabalho e geração de renda, envolvendo a sociedade civil e as próprias empresas privadas, que poderia se tornar uma ferramenta eficaz para, ao mesmo tempo, quebrar o ciclo de vulnerabilidade e apontar caminhos sustentáveis de combate à violência", afirmou o Data Favela.
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