A atividade era simples: ouvir a leitura de “Ciranda de Aruanda”, livro infantil premiado que apresenta, de forma lúdica, elementos da mitologia afro-brasileira. Depois, cada criança da Emei (Escola Municipal de Educação Infantil) Antônio Bento, no Caxingui, zona oeste de São Paulo, faria um desenho inspirado na história. A proposta integra o currículo antirracista obrigatório da rede municipal e celebrava o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro.
O que deveria ser uma atividade pedagógica rotineira tornou-se um episódio de tensão, intimidação e debate nacional sobre intolerância religiosa, racismo, laicidade do Estado e abuso de autoridade policial.
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Na tarde de terça-feira (11), o pai de uma aluna de 4 anos — evangélico e, segundo moradores, sargento da Polícia Militar — buscou a filha e, ao ver o desenho que ela produziu sobre Iansã, uma das personagens do livro, retornou sozinho para a escola. Segundo o boletim de ocorrência registrado pela diretora, Aline Aparecida Floriano Nogueira, ele se dirigiu à professora com o dedo no rosto e afirmou: “Tem coisas que eu não gosto, vocês estão incluindo umbanda na vida da minha filha. Eu não aceito.”
Diante de crianças e funcionários, o homem rasgou o mural com a atividade, destruindo o desenho da própria filha. A diretora interveio, explicou que não se tratava de ensino religioso, mas de conteúdo previsto em lei — a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena (Lei 10.639/03).
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Ela pediu ao pai que formalizasse uma reclamação por escrito e o convidou para uma reunião do conselho escolar no dia seguinte. Ele não compareceu — mas outros policiais sim.
Na quarta-feira (12), quatro policiais militares chegaram à Emei Antônio Bento, um deles com arma de grosso calibre (metralhadora). Segundo relatos de professores, funcionários e pais, os agentes entraram na unidade com armas em punho, afirmando que receberam denúncia de que a escola estaria forçando uma criança a ter “aula de religião africana”.
A diretora relatou ter sido coagida pela equipe por cerca de 20 minutos. Em outra mensagem enviada a um grupo de representantes da comunidade, ela descreve que os policiais permaneceram no local por mais de uma hora, repetindo acusações e pressionando os educadores, mesmo após os esclarecimentos.
Para tentar conter a escalada, a escola acionou a Delegacia de Ensino, que orientou também chamar a GCM (Guarda Civil Metropolitana). Só após a chegada de apoio administrativo e da guarda municipal os policiais deixaram o prédio — e, ao sair, conversaram com o pai que estava do lado de fora.
O Sinpeem (Sindicato dos Profissionais em Educação do Ensino Municipal) divulgou nota de repúdio. Segundo a entidade, a diretora chegou a passar mal durante o episódio e precisou ser amparada por funcionários e pais. O sindicato afirmou ainda que houve “constrangimento, intimidação e profundo abalo emocional”, e classificou a ação como ataque à autonomia pedagógica da escola e à segurança física e emocional de trabalhadores e crianças.
Reações da comunidade
A invasão da escola armada por policiais causou revolta entre famílias e moradores da região. Um abaixo-assinado aberto no domingo (17) já somava cerca de 800 assinaturas até a manhã de segunda. O documento pede que a Corregedoria da Polícia Militar investigue o caso por possível abuso de autoridade, além da responsabilização do pai pela destruição do mural e pelo clima de ameaça criado contra professores.
Moradores também reivindicam ações de conscientização sobre diversidade cultural, direitos humanos e combate ao racismo e à intolerância religiosa. O livro “Ciranda de Aruanda”, de Liu Oliveira, tem selo “Altamente Recomendável” da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e faz parte do acervo oficial da rede municipal.
A Secretaria de Segurança Pública informou que a Polícia Militar abriu investigação para apurar a conduta dos agentes, analisando inclusive imagens das câmeras corporais. A professora responsável pela turma registrou boletim de ocorrência por ameaça contra o pai da aluna.
Os deputados Luciene Cavalcanti (federal) e Carlos Giannazi (estadual), ambos do PSOL, além do vereador Celso Giannazi, acionaram o Ministério da Igualdade Racial e pedem que o Ministério Público de São Paulo investigue o episódio pela gravidade da intimidação e pelo indício de preconceito religioso.