DINOSSAUROS

Nem osso, nem pegada: como um vômito revelou um novo dinossauro que viveu no Brasil

As condições de preservação permitiram reconstruir parte do comportamento do predador responsável pelo regurgito

Créditos: Freepik
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Uma descoberta inusitada na Chapada do Araripe, no Nordeste, levou pesquisadores brasileiros a identificar um pterossauro até então desconhecido. O ponto de partida não foi um esqueleto ou um ninho fossilizado, mas um regurgito — o conteúdo expelido por um grande predador há cerca de 110 milhões de anos, preservado de forma excepcional dentro de uma concreção calcária.

Dentro desse “bolo alimentar” fossilizado, estavam misturados restos de peixes e fragmentos de dois pequenos répteis voadores. A análise minuciosa desses elementos permitiu reconhecer uma espécie inédita, agora chamada Bakiribu waridza. O nome, que homenageia os povos Kariri, faz referência à mandíbula estreita do animal, equipada com longas fileiras de dentes finos que funcionavam como uma espécie de pente para filtrar alimento na água.

A investigação reuniu cientistas da UFRN, da Urca e do Museu de Zoologia da USP. Eles deram início ao estudo quando perceberam que um dos fragmentos, antes catalogado como peixe, apresentava características incompatíveis. Exames macro e microscópicos confirmaram que se tratava de um pterossauro especializado em filtração — o primeiro do tipo já descrito no Brasil e o primeiro no mundo identificado a partir de um regurgito fossilizado.

 Foto: Aline Ghilardi / cedida pela pesquisadora

As condições de preservação permitiram reconstruir parte do comportamento do predador responsável pelo regurgito. A sequência em que os restos aparecem sugere que o animal ingeriu os pterossauros antes dos peixes e, em algum momento, expeliu parte do conteúdo por desconforto digestivo. Casos como esse são raríssimos no registro geológico, pois exigem circunstâncias muito específicas para fossilização.

A dentição singular de Bakiribu waridza indica um estágio intermediário na evolução dos pterossauros filtradores do grupo Ctenochasmatinae. A combinação de características encontradas no espécime amplia o entendimento sobre como esse tipo de alimentação se espalhou entre espécies europeias e sul-americanas durante o Cretáceo.

O fóssil, que estava armazenado no Museu Câmara Cascudo, será transferido para o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, na Urca, garantindo que permaneça no território de origem. Para os pesquisadores envolvidos, essa decisão reforça um compromisso ético com a região e combate práticas de colonialismo científico que historicamente removeram fósseis brasileiros para coleções no exterior.

*Com informações da UFRN

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