CEFET

"Tragédia anunciada": servidora diz ter avisado direção do Cefet sobre risco de ataque

Funcionária também alerta que outros servidores da instituição têm comportamentos como o de João Antônio Miranda Tello Gonçalves

Fachada do Cefet Maracanã.Créditos: Fernando Frazão/Agência Brasil
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Uma servidora efetiva do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet-RJ) afirmou, após o crime brutal acontecido na última sexta-feira (28), que chegou a avisar a  direção da instituição sobre o comportamento ameaçador de João Antônio Miranda Tello Gonçalves autor do ataque que deixou duas funcionárias mortas.

A funcionária, que pediu anonimato por receio de colocar sua vida em risco, esteve no Instituto Médico-Legal (IML) neste sábado (29) e classificou o atentado como “uma tragédia anunciada” em entrevista a jornalistas.

"Eu encaminhei algumas denúncias para os gestores, direção-geral e para o Ministério da Justiça avisando sobre situações de possíveis atiradores na escola. O Ministério da Justiça chegou a me ligar, mas não houve continuidade para consolidar estratégias de prevenção, tanto no Cefet quanto em outras escolas", relata a funcionária. 

Ela ainda acrescenta que há outros servidores do Cefet que apresentam comportamentos semelhantes ao de Gonçalves e que também representariam risco. 

Funcionária do Cefet há mais de 17 anos, a servidora a relatou que vinha mudando sua rotina há semanas por receio de um ataque. "Eu evitava ficar no meu computador. Ele já tinha esse plano e podia entrar ali a qualquer momento", conta ela. No dia do crime, era para a servidora ter ficado na instituição até às 17h, mas conseguiu sair mais cedo. A funcionária afirma que ela e outra colega também eram alvos de Gonçalves. 

Segundo a funcionária, o primeiro alerta ocorreu há cerca de quatro anos, quando Gonçalves relatou que pretendia tirar a própria vida, episódio que a deixou em estado de choque. "Eu estava sozinha na sala e ele entrou contando que o irmão dele se matou com um tiro na cabeça e que ele iria fazer o mesmo. Nesse dia, eu gelei. E o meu temor era esse", relatou.

"Temos pessoas com o mesmo perfil se encaminhando para fazer a mesma coisa. A escola deveria ter levado a sério as denúncias que foram feitas e passado a agir", acrescentou a servidora. 

Atirador tinha problemas com servidoras

Como apontado em investigações, Gonçalves tinha problemas com as servidoras da instituição pois não aceitava ser chefiado por mulheres. Em seu relato, a funcionária conta que tanto ela quanto Allane de Souza Pedrotti Mattos e Layse Costa Pinheiro, as duas vítimas fatais do ataque, denunciaram o comportamento do servidor. "Ele dizia que o que fazíamos não era suficiente, que não era para ser daquele jeito, que iria abrir processo, o que ele fez em outros setores da administração", afirma.

Mudou perdeu "pessoas maravilhosas"

A funcionária também falou sobre Allane e Layse e afirmou que as duas eram "pessoas maravilhosas". "Elas eram flexíveis, humanas, pessoas com quem todos podiam contar, tanto estudantes quanto servidores. A Layse tinha essa postura de acreditar que, se você for bom e gentil com todo mundo, o mundo vai te devolver só gentileza. Mas a realidade não é assim, e a vida dela foi tirada", lamenta.

"Eu trabalhava diretamente com elas e o que posso dizer é que o mundo perdeu duas pessoas maravilhosas."

Quem era as funcionárias

Allane de Souza Pedrotti era a formada em Pedagogia na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e doutora em Letras pela PUC-Rio. Ela atuava como chefe da equipe pedagógica e acadêmica da Direção de Ensino do Cefet-RJ na Divisão de Acompanhamento e Desenvolvimento de Ensino. Ela atuava com assessoria pedagógica e acadêmica ao Ensino Superior e Educação Profissional Técnica de Nível Médio dos 8 campi do Estado do RJ.

Fora do ambiente acadêmico, Allane também era cantora, pandeirista e compositora. Ela se apresentava no grupo de samba Quilombo Urbano, que fez uma homenagem durante um show nesta sexta-feira (28). "Allane era maravilhosa, doce, amiga e minha parceira. Apesar de ser funcionária do Cefet, o seu sonho era viver da música. A música era sua paixão", escreveu o grupo.

Já Layse Costa Pinheiro era psicóloga e atuava no Cefet desde 2017 na área de psicologia escolar. Ela era formada pela UERJ e tinha pós-graduação em Gestão de Pessoas. Além de atuar na instituição, Layse também tinha um consultório e realizava palestras.

Ela começou a carreira como servidora pública em 2014, tendo passado em primeiro lugar no concurso para psicóloga. Também era apaixonada por música e, em suas redes sociais, se afirmava psicóloga feminista, antirracista e comprometida com a defesa de minorias.

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O que se sabe sobre atirador

Segundo a Polícia Militar, o servidor tinha problemas psiquiátricos e estava afastado do trabalho há 60 dias, mas não aceitava a condição e queria retornar à instituição, principalmente ao cargo de chefe da equipe pedagógica e acadêmica da Direção de Ensino do Cefet-RJ, ocupado por uma de suas vítimas, a servidora Allane de Souza Pedrotti. 

O afastamento de Gonçalves de suas atribuições era algo recorrente. Ele acumulava uma série de licenças médicas, um dos principais motivos de atrito com a coordenadora pedagógica e também com a psicóloga Layse Costa Pinheiro, sua outra vítima. De acordo com as investigações, Gonçalves não aceitava ser chefiado por uma mulher e chegou a mover um processo no Ministério Público contra sua transferência para outra unidade do Cefet devido ao seu comportamento diante de Allane. 

Além disso, ele também teria arrumado problemas na nova unidade, novamente por não aceitar a chefia de mulheres. Diante disso, ele sofreu outro afastamento cautelar. No entanto, o servidor conseguiu um laudo psiquiátrico que afirmava que ele estava apto a voltar às suas atividades na unidade Maracanã. Ao retornar nesta sexta-feira, Gonçalves atirou nas vítimas. 

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