O Brasil ainda não possui um mapeamento público sobre a quantidade e nem dos processos de instalação de datacenters, estruturas que armazenam, processam dados que sustentam a operação de plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial.
A informação foi obtida através de um pedido de Lei de Acesso à Informação (LAI) feito pela Fórum à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) em busca de um levantamento completo da presença dessas infraestruturas no país, por região, quantidade, condições de funcionamento e futuras instalações por empresas de tecnologia estrangeiras. O órgão informou que há um projeto de mapeamento nacional em curso, com previsão de conclusão até o fim do ano, mas que até o momento "não dispõe de uma base de dados oficial consolidada".
Enquanto isso, o país vive uma expansão acelerada dos datacenters, como revelou uma de nossas reportagens. As instalações são financiadas por isenções fiscais oferecidas por governos e inseridas em áreas de risco ambiental, sem transparência pública sobre seus impactos energéticos, sociais e políticos, reflexo do que big techs como Microsoft, Google, TikTok e Meta, têm feito ao transferir parte de seus datacenters, principalmente, para países do Sul Global, como o Brasil, ampliando dinâmicas de dependência tecnológica e extrativismo de dados.
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Atualmente, há algumas movimentações em curso, mas grande parte voltada à chamada "inovação". A Anatel opera desde 2023 um Comitê de Infraestrutura (C-INT) dedicado a estudar datacenters e reunir informações técnicas fornecidas por empresas como AWS, Google e Dataprev. O colegiado prepara um white paper que deve sistematizar o diagnóstico dessa infraestrutura. Os dados, no entanto, ainda não foram disponibilizados após três anos.
Este ano, a autarquia aprovou a Resolução 780, que estabelece critérios para homologação de data centers e determina que instalações consideradas "essenciais para as redes" tenham até 2026 para se regulamentar, o que, na verdade, acelera a vinda de empresas estrangeiras ao território nacional.
No Legislativo, o debate sobre a necessidade de regulação mais robusta avança, mas a passos lentos. Um deles, é o Projeto de Lei 3.018/2024, em análise no Senado, que define parâmetros para centros de dados utilizados em aplicações de inteligência artificial, com atenção a impactos ambientais, consumo energético e privacidade. Ele segue em tramitação.
O tema também motivou algumas audiências públicas, e paralelamente, o governo Lula editou a Medida Provisória 1.318/2025, criando o Redata, regime tributário especial que oferece incentivos a data centers que cumpram exigências ambientais, além das isenções fiscais, e que invistam em pesquisa nacional e utilizem componentes produzidos no país. A MP integra a recém-instituída Política Nacional de Datacenters, sob coordenação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Apesar de tudo isso, a transparência sobre os empreendimentos instalados no território brasileiro continua limitada e não atende às demandas por informação pública, ao mesmo tempo que se expandem para regiões que contam com bacias hidrográficas. O Plano de Dados Abertos 2025–2027 da Anatel, por exemplo, inclui diversas bases relacionadas às telecomunicações, mas ainda não contempla um banco público dedicado exclusivamente aos data centers, como confirmou, em detlahes, à reportagem.
A única fonte disponível é a base de dados públicos do site Data Center Map, que estima a existência de 195 data centers identificados no país, distribuídos por diferentes estados e operados por empresas privadas. O número, contudo, é apenas uma estimativa, “não corresponde a um levantamento oficial”, ressalta o órgão regulador. E, se seguirmos o mapa, a quantidade de instalações não para de subir: o Data Center Map apontou no úlitmo dado que o Brasil abrigava até então 170 datacenters, agora teriam sido homologadas outras 25 infraestruturas em apenas um mês.
'Datacenters agravam desigualdade social no Sul Global'
É comum imaginar a era digital como imaterial, feito de códigos e reservados em uma "nuvem", mas essa visão esconde uma realidade concreta: por trás da aparência inofensiva da tecnologia, há uma infraestrutura pesada, edifícios, cabos, servidores, energia, água, e, acima de tudo, pessoas trabalhando para mantê-la em funcionamento. "Territórios para onde as Big Tech também usam mão de obra para serviços mal pagos e realizados em péssimas condições de direitos, como a moderação de conteúdos", afirma Joana Varon, diretora da Coding Righs e entidade integrante da Coalizão Direitos na Rede.
De acordo com o professor/pesquisador na ECA-USP, integrante do Creative Commons Brasil e também entidade integrante da Coalizão Direitos na Rede, Leonardo Foletto, no Brasil, o apagão de dados públicos sobre datacenters favorece outro tipo de cenário: "já enfrentamos crises hídricas recorrentes e desigualdade no acesso à energia e estamos vendo a instalação desses equipamentos em regiões como o interior de São Paulo, o Rio Grande do Sul e o Ceará, regiões que já sofreram com catástrofes climáticas ou com escassez de recursos hídricos, o que tende a agravar se houver instalações dessas estruturas nestes locais", destaca.
Há pelo menos dois sendo implementados em diferentes regiões: moradores e povos indígenas do município de Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza, se mobilizam contra a instalação de um data center do TikTok, empreendimento que deve consumir 30 mil litros de água por dia em uma das áreas mais atingidas pela seca no estado, segundo informações do jornal The Intercept Brasil, e em Pindamonhangaba, onde uma nova planta que está sendo implementada vai consumir redes elétricas e sustentar a infraestrutura de data centers, com um investimento de aproximadamente US$ 200 milhões.
Nos últimos quatro anos, o setor despontou como um dos principais destinos de investimentos no Estado de São Paulo, de acordo com a Fundação Seade. Pelo menos R$ 102 bilhões foram anunciados entre 2020 e 2024, sendo R$ 40 bilhões voltados à infraestrutura de centros de processamento de dados.
Sem contar a corrida por infraestruturas de inteligência artificial, que pode trazer um custo energético: os quatro primeiros complexos de data centers de IA projetados no país podem demandar o equivalente ao consumo de 16,4 milhões de casas, e estão com empreendimentos previstos para serem construídos no Rio de Janeiro, em Eldorado do Sul (RS), Maringá (RJ) e Uberlândia (MG).
Uma série de reportagens divulgadas recentemente pelo jornal Núcleo Jornalismo também mostraram a dimensão da dominação exercida pelas big techs tanto junto da oposição quanto em acordos com o governo federal para facilitar a entrada de seus dispositivos em território brasiliero, aproximando-se do Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGISP) com a promessa de “apoiar” o governo brasileiro na execução do Plano Nacional de Inteligência Artificial (PBIA), lançado em julho do ano passado para fomentar o avanço da tecnologia no país. Leia aqui.
Para Varon, esses processos estão diretamente ligados à rotina digital levada por bilhões de pessoas, que não são feitos para "dar conta", mas para aumentar a margem de lucro para às empresas de tecnologia, que também utilizam "minérios necessários para criar seus dispositivos". A pesquisadora explica:
“Quais são as plataformas digitais que você mais usa? Provavelmente, fora o TikTok, são serviços de empresas do Vale do Silício. Desde que você acorda, já dá aquela olhadinha no WhatsApp, muitas vezes antes de tomar o primeiro gole de café, ou cai no hipnotismo dos vídeos infinitos do Instagram… e logo mais, quando senta para trabalhar ou estudar, cada vez mais, muita gente está ali em diálogo constante com o ChatGPT ou outro agente de IA”, comenta. "Cada uma das nossas interações gera dados sobre nossos gostos, hábitos, curiosidades, medos, interesses, sobre nossa rede de amigos, familiares, sobre nosso trabalho, saúde. Esses dados são fonte de lucro dessas empresas, seja para aprimorar seus algoritmos de moderação de conteúdo de forma a nos manter adictas ou adictos a essas plataformas”.
Varon é responsável pelo mapa Cartografias da Internet, onde são ilustradas as dimensões físicas e geopolíticas da estrutura da internet, e reforça que é importante “materializar a narrativa de nuvem para visualizarmos seus impactos e inspirarmos alternativas”, acrescentando que a situação se repete em outros países da América Latina.
“Querétaro, no México, pela proximidade com os EUA, tem sido um território explorado com essa finalidade já há alguns anos e os resultados têm sido catastróficos. Com falta de água para a população em decorrência desses empreendimentos, a região tem sido também exemplo de resistência”
Discurso desenvolvimentista que acompanha megaprojetos invisibiliza dominação
Para Foletto, o cenário brasileiro com os datacenters, apesar de muito se falar em soberania digital, ainda é de profunda dependência tecnológica. “A questão dos datacenters no Brasil representa um risco concreto de aprofundamento da dependência tecnológica e de uma nova forma de colonialismo digital. Há estudos em diversas áreas que demonstram que a infraestrutura de dados não é neutra: quem controla os servidores controla fluxos informacionais, capacidade de processamento e, fundamentalmente, poder econômico e geopolítico”, afirma. Ele ressalta que países como China, Índia e membros da União Europeia avançam em legislações e sistemas que garantem armazenamento local e soberania sobre dados.
“No Brasil, vemos um movimento contraditório: há marcos legais, como a LGPD, que avançam na proteção de dados, mas a infraestrutura física permanece majoritariamente nas mãos de corporações estrangeiras, criando uma assimetria perigosa onde, mesmo tendo regras e legislações, não conseguimos aplicá-las plenamente. O discurso de 'desenvolvimento' que acompanha a chegada desses megaprojetos invisibiliza a dimensão ambiental”
Para os especialistas, o Brasil precisa ir além da regulação. “A construção efetiva de soberania digital no Brasil não pode se limitar a regular as big techs ou negociar ‘melhores condições’ de subordinação, precisamos construir alternativas concretas baseadas em autonomia tecnológica e controle comunitário”, defende Foletto. No estudo “Não é seca, é saque: Querétaro, o vale dos centros de dados”, muitas dessas estratégias de resistências são narradas. "É importante que haja uma troca na América Latina sobre os impactos e formas de resistir e apresentar alternativa", diz o pesquisador.
Entre as medidas sugeridas estão o fortalecimento de data centers públicos e cooperativos, o investimento em infraestrutura nacional de nuvem, e a criação de marcos regulatórios que exijam transferência de tecnologia das empresas estrangeiras, além de políticas de cuidado ambiental. “Precisamos de uma política industrial que incentive datacenters públicos e cooperativos, não apenas atrair Google, Amazon e Microsoft com isenções fiscais”.
"Universidades públicas poderiam liderar o desenvolvimento de ferramentas open source para gestão municipal, educação e saúde, reduzindo a dependência de Microsoft, Google e Amazon. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica poderiam condicionar financiamentos à adoção de tecnologias abertas. Falar de Soberania ou Autonomia Digital é mais do que ter servidores em território nacional: é ter capacidade para desenvolver, manter e evoluir nossas próprias soluções tecnológicas"
Varon, por sua vez, propõe uma reflexão mais profunda sobre o modelo de desenvolvimento. “Indo além, é preciso também pensar que o regime desenvolvimentista de seguir ampliando megaestruturas tem limites. Considerando principalmente que as tecnologias de IA aumentam a demanda por data centers, uma pergunta anterior: precisamos mesmo de uma IA para isso? Também seria pertinente”, diz.
Ela aponta caminhos alternativos, inspirados em pesquisas como as da cientista Timnit Gebru, demitida do Google após sofrer racismo e censura, que são voltadas a inteligências artificiais descentralizadas e orientadas por comunidades locais. “Outros desenvolvimentos de IA, que não são baseados na noção de Big Data, e sim em bases de dados menores, com curadorias informadas pelo conhecimento da comunidade a que os dados se referem, também são possíveis”, completa.
Para ambos, a soberania digital passa por democratização do poder tecnológico.
“Falar de soberania (ou autonomia) é, principalmente, falar em democratização do poder sobre a infraestrutura tecnológica, o que só se conquista com organização popular, investimento público e recusa da narrativa de que dependência das big techs é inevitável”, concluem.