FERROVIA

Hoje esquecido, este gigante de ferro do século 19 subiu a Serra e redesenhou São Paulo

Construída num contexto de pressão pelo escoamento mais eficiente da produção cafeeira que partia do interior paulista, a linha romperia com o monopólio inglês no acesso ao Porto de Santos e transformaria o interior do estado

Estrada de Ferro Sorocabana, 1928.Créditos: Fotografia de arquivo público
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Por volta de 1870, quando o Brasil buscava formas de integrar territorialmente sua produção agrícola, no auge da economia cafeeira, nascia, no interior de São Paulo, um projeto de engenharia que transformaria o estado: a Estrada de Ferro Sorocabana (EFS), cujo trajeto inicial tinha cerca de 100 km, mas cresceu até alcançar mais de 1.600 km entre as cidades da Malha Oeste paulista.

Hoje, 150 anos após sua construção e parcial abandono, o gigante de ferro paulista foi esquecido, e imagens recentes capturadas por drones e compartilhadas nas redes sociais mostram partes do trajeto em que trilhos e vagões estão enferrujados, ao lado de antigas estações já totalmente cobertas por vegetação.

A história da EFS

Construída num contexto de pressão pelo escoamento mais eficiente da produção cafeeira que partia do interior paulista — onde se produzia cerca de 12,1% de todo o café brasileiro —, a EFS rompeu com o monopólio inglês da São Paulo Railway, que havia sido a primeira ferrovia do estado, com linhas que partiam de Jundiaí, no planalto paulista, e terminavam no acesso ao porto de Santos.

O primeiro trecho construído da Sorocabana ligava justamente essa cidade do interior a São Paulo, e foi inaugurado em 1875. Era o começo do protagonismo técnico e industrial de Sorocaba.

Estação de Maylasky, entre 1885/1889, retratada por Julio Wieczerski Durski. Acervo do Arquivo Nacional.
"Exatamente às 13 horas do dia 13 de junho de 1872, um grupo de homens munidos de pás e enxadas iniciava, no centro de Sorocaba, à margem do Córrego Supiriri, a construção da Estrada de Ferro Sorocabana (EFS)", conta uma reportagem do jornal Estado de S. Paulo, de 13 de junho de 2022. "A ferrovia, projetada e bancada por empresários, teve o trecho entre Sorocaba e São Paulo concluído em três anos, um feito até para os dias atuais."

A construção da linha foi impulsionada por empresários locais ligados à maçonaria, especialmente o empresário e engenheiro austro-húngaro Luís Matheus Maylasky, naturalizado brasileiro e morador de Sorocaba. Maylasky foi o primeiro dirigente da Estrada e, posteriormente, também seria um dos fundadores da Viação Férrea Sapucaí, no centro de Belo Horizonte, a capital de Minas Gerais.

A ferrovia transformou a "Manchester brasileira" — apelido dado a Sorocaba, então um polo de produção têxtil — em um dos principais centros operários nascentes do país, para onde iam oficinas de manutenção e fabricação de material ferroviário que empregavam milhares de trabalhadores.

Leia também: Como uma pacata cidade paulista se tornou a "Manchester brasileira" | Revista Fórum

A EFS foi pioneira na aquisição de equipamentos ferroviários de origem belga no Brasil, e estima-se que tenha adquirido mais de 5 mil vagões, com pelo menos 974 construídos pela empresa C.C. Construction (Haine-Saint-Pierre), informa o Belgian Club.

Segundo um relatório da EFS datado de 1924, a empresa colocou em operação 10 locomotivas de origem belga, adquiridas em 1923 da “Société Belge pour l'exportation”, sendo 5 delas do tipo Mikado, fabricadas pela Haine-Saint-Pierre.

Relatório - EFS.
Créditos: Wikipedia

O trajeto pela Serra

Em 1927, a ferrovia iniciou a construção de mais um ramal: a linha Mairinque-Santos, que transpunha a Serra do Mar num trecho antes construído pela São Paulo Railway, mas tornado obsoleto. Foram necessários túneis, pontes metálicas e viadutos que passavam pela vegetação de Mata Atlântica e desafiavam as serras, na antiga linha Santos-Juquiá, que tinha paradas em São Paulo e no interior do estado, integrando-os ao Porto de Santos e a todo o Vale do Ribeira. No Vale, produzia-se minério, chá e frutas, e criavam-se búfalos.

Na época,

"O porto de Santos [tinha] importância vital, desde há muitos anos, para o Brasil, assim como a necessidade de uma nova ligação ferroviária, já que o escoamento de quase dois terços da produção nacional exportável se efetuava pelo porto de Santos — visto que o Sul de Minas, Goiás, Mato Grosso, Norte do Paraná e todo o Estado de São Paulo estavam presos aos trilhos da Mojiana, Paulista, Noroeste, Sorocabana, São Paulo, Rio Grande e outras empresas e linhas secundárias que transportavam esta produção, que era finalmente transportada pela 'Inglesa'", conta Fernando Martins Lichti no seu livro *Poliantéia Santista* (1996).

A linha permitiu que circulassem produtos estratégicos, como algodão, madeira, minérios e até insumos industriais, do oeste paulista a rotas globais de exportação, sem depender da linha da empresa britânica.

Algumas fontes reportam, ainda, que a EFS teve papel silencioso, mas fundamental, no movimento abolicionista brasileiro: a ferrovia teria sido usada para transportar escravizados fugitivos rumo à liberdade, e depoimentos coletados por pesquisadores indicam a existência de uma rede de apoio organizada por nomes ligados à maçonaria e à causa republicana no uso da linha para esse fim.

Já em 1932, durante a Revolução Constitucionalista brasileira, a EFS teria transportado tropas, munições e instrumentos de guerra do governo paulista no "Trem Blindado", que cruzava os trilhos da ferrovia em direção ao Vale do Paraíba sob o comando de voluntários armados — o trem ficaria conhecido, depois, como "Fantasma da Morte".

O gigante de ferro paulista foi se tornando cada vez menos relevante conforme avançava, nas décadas posteriores, o plano rodoviário brasileiro, que envolvia investimentos norte-americanos no país e a construção de autoestradas para substituir o transporte ferroviário.

Entre 1950 e 1980, as ferrovias foram deixadas de lado por projetos de rodovias como a Via Dutra e a Rodovia Castelo Branco. Em 1971, com a criação da Fepasa (Ferrovia Paulista S.A.), que unia várias linhas de trem sob controle estadual, o declínio dos vagões que partiam do subúrbio paulista foi acentuado.

Em 1990, após ter sido alvo de privatização, a malha ferroviária da antiga Sorocabana teve trechos inteiros desativados, trilhos arrancados e estações abandonadas, e deixou de transportar passageiros em 1999, quando foi incorporada à Rumo Logística e à CPTM. O uso de trens urbanos no trecho entre São Paulo e Mairinque está hoje sob responsabilidade da CPTM (Linha 9-Esmeralda), mas apenas em parte da antiga linha tronco. E a antiga malha da Sorocabana é administrada pela Rumo Logística. 

Movimentos de preservação de entidades culturais como o Instituto de Preservação e Educação Ferroviária (IPEF) lutam para transformar partes da EFS em patrimônio de museu.

A estação central de Sorocaba já foi tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico de São Paulo (CONDEPHAAT), assim como seu entorno (incluindo oficinas e residências operárias, antigos armazéns e edificações estruturais da época) em fevereiro de 2018, por meio da Resolução SC-013, e abriga, agora,  o Museu Ferroviário de Sorocaba.

 

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