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27 de março de 2018, 21h57

A barbárie sem freio: atentado contra a caravana de Lula

Hoje, por muito pouco, uma nova tragédia não aconteceu. A Caravana de Lula foi emboscada e vítima de um atentado. O silêncio conivente da mídia, nesta quadra da história, ganha contornos de cumplicidade criminosa

Por Bernardo Cotrim, em seu Facebook

Marcio Borges, em “Os Sonhos Não Envelhecem – Histórias do Clube da Esquina”, ao falar do recrudescimento da Ditadura Civil-Militar, diz que “o poderoso arsenal de medidas excepcionais do AI-5 não podia ser medido apenas pela quantidade de políticos cassados, funcionários
públicos aposentados compulsoriamente (…), militares reformados ou expulsos de suas corporações, estudantes arrancados das universidades, jornais, revistas e televisões censurados. Era o estilo, do guarda de Rua ao servidor público, era a figura da ‘autoridade’, o vizinho delegado que passou a se sentir mais poderoso, o chefe de repartição subitamente tornado importante”.

Qualquer semelhança com a escalada autoritária e violenta em curso não é mera coincidência. O “efeito guarda da esquina” se espalha: do mequetrefe do Ministério Público que ousa processar professores de escolas públicas por “doutrinação ideológica”, passando pelo juizeco de primeira instância imbuído da missão de perseguir um ex-presidente da República, as cenas de horror se espalham pelo país na mesma velocidade em que personagens obscuros sentem-se autorizados a sair do submundo.

Nas últimas semanas, uma sucessão de cenas bárbaras passou a nos atingir quase que cotidianamente; a indignação e a dor se acumula, enquanto um efeito dominó sinistro toma a cena pública. A execução da vereadora Marielle Franco no Rio, as ameaças de morte e estupro contra a vereadora Nathalia Bonavides em Natal, os cinco jovens chacinados no condomínio do Minha Casa, Minha Vida em Maricá, os milicianos armados e pagos por ruralistas bandoleiros para perseguir a Caravana de Lula são sinais explícitos da explosão do fascismo.

Hoje, por muito pouco, uma nova tragédia não aconteceu. A Caravana de Lula foi emboscada e vítima de um atentado. Miguelitos espalhados na estrada furaram os pneus de um dos ônibus da Caravana; em seguida, dois tiros alvejaram a lataria do veículo. Os responsáveis pelo crime não sabiam em qual ônibus Lula se encontrava. Felizmente, nem o ex-presidente, nem membro algum da Caravana foi atingido pelos disparos.

Embora sem um centro unificado de comando, as ações se entrelaçam: tendo o ódio como força motriz e o golpe como pano de fundo, os fascistas perderam o receio de ocupar a cena pública.

O silêncio conivente da mídia, nesta quadra da história, ganha contornos de cumplicidade criminosa: ao noticiar o atentado contra a Caravana, O Globo estampou na manchete “PT DIZ (grifo meu) que ônibus da Caravana é alvo de dois tiros”; em outra manchete, o UOL noticiou que “ônibus da Caravana é ATACADO (novamente, grifo meu)”, como se uma emboscada com armas de fogo fosse semelhante às ovadas ocorridas em outros trechos.

O fato inquestionável é que a conjuntura ganha contornos sombrios e exige dos setores democráticos uma nova postura e novas tarefas à altura dos desafios postos. É urgente que partidos de esquerda, movimentos sociais, frentes organizadas, entidades como CNBB, OAB e personalidades comprometidas com a democracia iniciem um diálogo amplo para construir um dique capaz de barrar o avanço da barbárie. Não trato aqui de alianças eleitorais (embora estas, inclusive, não devam ser tratadas como algo distante do horizonte); falo de uma luta ampla, unitária e organizada contra uma ameaça violenta, autoritária e assassina. O ato de encerramento da Caravana, em Curitiba, deve ser um marco de uma luta nacional contra o fascismo. O que está em jogo é o nosso direito de existir, lutar e sonhar. E isto exige de nós a mais ampla solidariedade, diálogo e capacidade de mobilização.


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