Ação da Cáritas ameniza flagelo da fome no sertão do Maranhão e Piauí

Mais de 3,7 mil famílias inscritas em programas do governo receberam cestas básicas.

Por Zema Ribeiro*
Especial para a Fórum

Pesquisa sobre efeitos de um projeto emergencial desenvolvido pela Cáritas Brasileira, coordenada pelos secretariados regionais dos estados do Maranhão e Piauí, com apoio da Cafod, agência inglesa de cooperação internacional, ouviu 710 pessoas e distribuiu cestas básicas a 3.703 famílias em 15 municípios maranhenses e três piauienses, para amenizar o flagelo da fome, agravado pela pandemia de covid-19.

Notícias relacionadas

“O ruim não é quando falta; o ruim é quando elas pedem”, afirma Maria Eucete da Silva, de Chapadinha/MA, mãe de duas crianças, lamentando as filhas conhecerem a experiência da fome. “A gente não pode dar um pouquinho, só um pouquinho, do bom e do melhor; só o suficiente”, continua.

“Às vezes, tem dia que a gente não tem para fazer o almoço; muitas vezes a gente pega uma merenda boca da noite pra dormir, por que não teve para dar o almoço; a gente merenda alguma coisa de noite e vai dormir; por que aí nem tem e nem tem o dinheiro para comprar, é o jeito a gente ir se contentando com o pouquinho mesmo que vai arrumando”, conforma-se Maria Deusanira Viana, outra beneficiada peça ação emergencial.

As cestas básicas distribuídas contêm oito quilos de arroz, quatro quilos de feijão, três pacotes de café (com 250g cada), três quilos de açúcar, seis latas de sardinha, dois pacotes de leite em pó (400g cada), 2,5kg de flocão de milho, dois pacotes de biscoito de água e sal, uma lata de óleo (900ml), dois quilos de farinha de mandioca e um quilo de macarrão.

Dos respondentes, 516 consideraram que a cesta básica distribuída continha o “suficiente” e 184 “mais que o necessário”, com 60% das famílias voltando a fazer três refeições diárias – antes da ação coletiva e solidária da Cáritas com a distribuição das cestas, este índice era de apenas 19,15%.

Entre os principais impactos apontados pela avaliação estão a economia. O dinheiro poupado com a alimentação permitiu a garantia de pagamento de outras despesas, como afirmaram 57,8% dos entrevistados.

O melhor rendimento escolar de crianças e adolescentes foi destacado por 37,7%. Felicidade, alegria, auto-estima, ânimo e segurança foram os sentimentos listados por membros das famílias beneficiadas pelo projeto.

Publicidade

Outros dados revelados pelo questionário ajudam a entender melhor a relação entre educação, saúde, pobreza e insegurança alimentar no contexto da pandemia.

Das 3.703 famílias diretamente beneficiadas pela ação, 76,91% são beneficiárias do Bolsa Família e 6,27% do auxílio emergencial do governo federal. Outros 40,55% ainda não receberam nenhuma dose da vacina contra a covid-19 e 95,6% das 8.143 crianças e adolescentes estavam regularmente matriculadas na escola, apesar de afastados do ambiente escolar por conta da crise sanitária global. Entre as famílias beneficiadas foram priorizadas aquelas que tinham crianças e adolescentes nessa situação e são chefiadas por mulheres.

Publicidade

“Além da assistência imediata para amenizar a fome dessas famílias, um projeto como este foi uma oportunidade de mergulhar na realidade, vendo e ouvindo de perto as situações de fome, desemprego e descaso político que essas populações estão enfrentando. Foi também uma oportunidade de animar um gesto concreto de solidariedade envolvendo pessoas que voluntariamente se colocaram à disposição para, junto com cada articulador local, organizar e implementar a ação solidária em cada município. No estado do Maranhão foram 151 pessoas voluntárias diretamente envolvidas, a maioria mulheres, com uma contribuição significativa dos jovens. A participação da juventude foi fundamental considerando que o projeto previa o uso da tecnologia para o registro fotográfico das ações, cadastramento das famílias e a avaliação, por amostragem, dos impactos do recebimento da cesta via plataforma kobo”, destaca Lena Machado, da equipe de coordenação colegiada da Cáritas Brasileira Regional Maranhão.

O projeto “BRA 622 – Alimentação emergencial no combate aos efeitos da pandemia da covid-19”ajudou a garantir dignidade e esperança a famílias nos municípios de Bacabal, Balsas, Benedito Leite, Cantanhede, Caxias, Chapadinha, Codó, Conceição do Lago Açu, Imperatriz, Itapecuru-Mirim, Loreto, São Benedito do Rio Preto, São Raimundo das Mangabeiras, São Luís e Vargem Grande, no Maranhão, e Oeiras, Simplício Mendes e São Francisco, no Piauí.

*Zema Ribeiro é jornalista. Escreve no Farofafá e é coordenador de produção da Rádio Timbira AM, onde apresenta aos sábados, com Gisa Franco, o Balaio Cultural

Avatar de Plinio Teodoro

Plinio Teodoro

Jornalista, editor de Política da Fórum, especialista em comunicação e relações humanas.

Você pode estar junto nesta luta

Fórum é um dos meios de comunicação mais importantes da história da mídia alternativa brasileira e latino-americana. Fazemos jornalismo há 20 anos com compromisso social. Nascemos no Fórum Social Mundial de 2001. Somos parte da resistência contra o neoliberalismo. Você pode fazer parte desta história apoiando nosso jornalismo.

APOIAR