Seja #sóciofórum. Clique aqui e saiba como
19 de março de 2018, 16h42

“Amigos a gente reconhece”

Otávio Antunes escreve sobre Alfredinho, dono do Bip-Bip, bar de Copacabana, que foi preso por um policial rodoviário por fazer homenagem à Marielle

Por Otavio Antunes

A primeira vez que vi Alfredinho, sentado em uma singela cadeira de madeira do lado de fora do próprio bar, não imaginaria que aquele senhor de 74 anos, voz rouca e jeito rude (pelo menos a primeira vista), seria parada e papo constante de minhas visitas ao Rio.

“Não tá vendo que tô no telefone FDP.” Foi a primeira frase a mim dirigida. Segurando um velho telefone sobre a mesa, enquanto eu tentava pagar a conta. “Tenho esses projetos aqui, esse menino precisa de ajuda na universidade, essa senhora precisa de móveis porque deixou a casa onde era espancada pelo marido”. E lá deixei algum dinheiro.

– “Ouçam o samba porra! Se quiserem falar alto tem um monte de bar por aí!” Suas broncas fazem parte do folclore do Bar. E suas histórias….que maravilha ouvi-las.

Sempre que posso vou pelo menos dar um abraço. E agora sei porque aquele telefone toca tanto. Gente como eu que, vez ou outra, liga pra falar sobre nada.

– não vai trazer sua filha porra?
– Logo logo Alfredinho.
– Estamos indo pra Rússia. Centenário porra, vamos?
– Não dá amigo
– Bunda mole

Enfim, tudo isso pra dizer que um policial federal rodoviário debochou de uma homenagem a Marielle feita em seu bar. Hostilizado, foi embora e voltou armado. Pouco depois uma viatura da própria polícia federal rodoviária apareceu (vindo de alguma estrada certo?) e levaram Alfredinho para o distrito alegando que alguém teria empurrado o colega da corporação.

Alfredinho, que se orgulha de ter uma pequena ilha de pensamento crítico, cerveja gelada e música boa na zona sul, como uma embaixada, se viu violado e aviltado. Tudo isso porque o colapso do Estado de Direito, fruto de um golpe de Estado, deu poder a várias bestas fera como esse policial. Ou a desembargadora que zomba e espalha mentira sobre Marielle. Ou o delegado que faz o mesmo.

São pequenas frações do Estado que aproveitam a desordem institucional pra também brincarem de “autoridade”, ao arrepio da lei e da Constituição. Copiam Moro e o moço do “powepoint”. Tornaram-se mais que agentes do Estado, são donos dele. E se comportam assim.

Nos resta, com toda a força que nos mantém em pé no mais duro dos dias, lutar para que um dia nossos filhos e os filhos dos outros voltem a respirar tranquilamente. Sem essa maldita sensação de apneia. Venceremos.

Te ligo depois pra dar um abraço amigo. Fique firme e bem.

 


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum