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19 de dezembro de 2017, 08h48

Animale: Luxo, sofisticação e trabalho escravo

Imigrantes bolivianos recebiam, em média, R$ 5 para costurar peças de roupa vendidas por até R$ 698 em lojas da Animale

Imigrantes bolivianos recebiam, em média, R$ 5 para costurar peças de roupa vendidas por até R$ 868 em lojas da Animale

Da Redação*

Mais um caso de flagrante de trabalho escravo em São Paulo, desta vez envolvendo as grifes de luxo Animale e a A.Brand, marcas do grupo Soma. Imigrantes bolivianos recebiam, em média, R$ 5 para costurar peças de roupa vendidas por até R$ 868 em lojas da Animale.

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A marca Animale, que define “luxo e sofisticação” como suas “palavras de ordem”, tem mais de 80 estabelecimentos pelo país, muitos em shoppings de alto padrão.

Os costureiros subcontratados trabalhavam mais de 12 horas por dia no mesmo local onde dormiam, dividindo o espaço com baratas e instalações elétricas que ofereciam risco de incêndio.

Os casos foram flagrados em três oficinas na região metropolitana de São Paulo e levaram os auditores fiscais do trabalho a responsabilizar o grupo Soma por produzir roupas com trabalho análogo ao escravo.

Com as duas grifes, o Brasil contabiliza 37 marcas de roupa responsabilizadas por exploração de mão de obra análoga à de escravo nos últimos oito anos.

Os casos fazem parte da base de dados do aplicativo Moda Livre, ferramenta desenvolvida pela Repórter Brasil que mostra como 119 empresas de roupa combatem (ou não) esse tipo de exploração na produção da roupa que oferecem aos consumidores.

A fiscalização das oficinas que forneciam para a Animale ocorreu em setembro deste ano e foi composta pela equipe da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo, com o auxílio de auditores da Receita Federal.

Os auditores constataram trabalho análogo ao escravo devido às jornadas exaustivas e às condições degradantes –elementos que caracterizam o crime, segundo o Código Penal. Em todas as oficinas os costureiros faziam jornadas acima dos limites legais. Em uma delas, os imigrantes costuravam das 7h às 21h, com apenas uma hora de descanso.

Os costureiros não ganhavam salário mensal, mas eram remunerados por peça costurada. Um deles relatou à Repórter Brasil que recebia R$ 6 para costurar uma calça que demorava uma manhã inteira para ficar pronta.

As longas jornadas eram resultado do sistema de remuneração por produção somado a padrões de costura extremamente detalhados para cada lote de peças, todos estabelecidos pela empresa.

As máquinas de costura ficavam a poucos metros das camas dos trabalhadores, o que estimulava ainda mais as longas jornadas, que, por sua vez, aumentavam o risco dos trabalhadores ficarem doentes ou sofrerem acidentes.

Grupo alega “desconhecimento”

Em nota enviada à reportagem, o grupo Soma negou que tivesse conhecimento das situações em que se encontravam os trabalhadores e das jornadas de trabalho a que eles eram submetidos.

O grupo disse ainda que “lamenta que suas marcas tenham sido associadas aos lamentáveis fatos, informando, por fim, que está colaborando com as autoridades públicas nas investigações e que vem tornando ainda mais rigorosa a fiscalização de sua cadeia produtiva” (ao final da reportagem, leia a íntegra da resposta do grupo Soma).

Para o auditor fiscal Luís Alexandre de Faria, não seria possível nem aceitável que a empresa não soubesse da situação naqueles locais, já que eles determinavam os detalhes da produção e os prazos de entrega das peças que eram costuradas nas oficinas.

“Eles não podem não saber a condição em que o principal produto da sua atividade econômica é produzido”, diz o auditor. “Do mesmo jeito que eles têm preocupação com a qualidade, com o valor da marca, eles têm que estar preocupados com o valor do ser humano que produz o produto que vai levar sua marca.”

Terceirizadas

As oficinas de costura eram subcontratadas de duas empresas terceirizadas que prestavam serviços para uma empresa do grupo Soma. As intermediárias recebiam os modelos da Animale e da A.Brand em detalhes e faziam a modelagem das peças, transformando em moldes o desenho feito pelos estilistas da marca.

A Animale estabelecia os preços, os números de peças a serem produzidos e os modelos que deveriam ser costurados. Por meio de mensagem de WhatsApp, as donas das oficinas recebiam ordens expressas das intermediárias, onde elas determinavam as quantidades de roupas a serem entregues e os prazos.

Devido a essas determinações da Animale, os auditores entenderam que a empresa “mantém sob suas rédeas o controle completo de sua cadeia produtiva”. Além disso, as três oficinas costuravam exclusivamente para as marcas do grupo Soma.

Uma das intermediárias é a CM Confecções, também registrada como Moura Duarte Confecções. Em seu site, a empresa diz fazer “tudo com muita criatividade e dedicação” e se preocupar “com o bem-estar de toda a cadeia de confecção de roupas”. Entre seus clientes, a empresa elenca a Animale, a Daslu e a Maria Filó.

Em nota, a empresa afirmou “que não foi notificada e acrescenta que respeita as obrigações contratuais com seus clientes, mantendo relação estreita e fornecendo todas as informações que lhe são solicitadas”. A CM também disse fazer “vistorias frequentes” às empresas que contrata (leia a íntegra da resposta ao final do texto).

A outra empresa intermediária, a Leketty Alfaiataria, não respondeu aos pedidos de posicionamento da reportagem feitos por telefone e e-mail.

*Leia a reportagem completa no UOL

Foto: Reprodução Site Animale


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