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25 de janeiro de 2020, 17h00

Cabras, bodes, o sertanejo e a terra

No quarto e último capítulo da reportagem especial sobre os 80 anos do fim do cangaço, o professor e colaborador da Fórum, Henrique Rodrigues, fala sobre a relação do sertanejo com a terra e traça os paralelos com a época dos cangaceiros

Chibarrada descansa à sombra de uma árvore frondosa, no caminho para o sítio onde nasceu Lampião, zona rural de Serra Talhada (PE) - Foto: Henrique Rodrigues

Por Henrique Rodrigues*

Os municípios ao redor de Serra Talhada, no Sertão do Pajeú, abrigam atualmente mais de 20 assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e de outras organizações. O mais emblemático deles é, sem dúvida, o Assentamento Virgulino Ferreira, localizado quilômetros a dentro das margens da rodovia PE-390. Carregar o nome do Rei do Cangaço é um fardo a mais na jornada tão sofrida desses campesinos que lutam pelo acesso democrático à terra.

Esta é a quarta e última parte de uma reportagem especial. Confira as anteriores:

As primeiras ocupações da área onde está o Virgulino Ferreira aconteceram em 1998, mas a regularização fundiária e a emissão da titularidade dos lotes só foram efetivadas em 2004.

Sem fugir da proposta da reportagem, questiono Sandra Maria Nogueira de Barros Santos, coordenadora do Assentamento Virgulino Ferreira, se, de tudo aquilo que um sertanejo escuta ao longo da vida sobre o cangaço, em especial aqueles que mantêm contato com a terra, ainda seria possível estabelecer uma relação de semelhança entre o sertão de hoje e aquele de oitenta anos atrás. Sandra é enfática.

“Mudou muita coisa. Dá pra dizer que, talvez, tenha mudado tudo, ou quase. Mas a questão agrária e a violência no campo, principalmente contra aqueles que não têm nada, se mantêm”, conta.

A produção desses assentamentos, atualmente bem desenvolvida e contando com irrigação e mecanização, é vendida em várias feiras agrícolas do interior pernambucano, muitas vezes no atacado.
No entanto, há poucos meses o MST realiza uma feira com meia dúzia de barracas, com produtos in natura e também os já processados, numa praça do bairro mais nobre de Serra Talhada, o AABB, circundada de grandes casarões e bonitos carros importados.

Sandra destaca que o que está em jogo nessa nova iniciativa não é só vender alguns poucos produtos na área urbana e nobre da cidade.

“Isso que está acontecendo aqui não é só uma feira para vender os nossos produtos. Não se trata de vender um quilo de feijão, ou vinte quilos de feijão, não estamos discutindo isso… Nós estamos querendo discutir novas relações, falar do agrotóxico, do papel fundamental do jovem e da mulher, e, principalmente, queremos discutir aqui o acesso à terra para produzir. Queremos falar da nossa bandeira, a questão fundiária, ou seja, a reforma agrária.”

Há décadas setores conservadores da sociedade e dos meios de comunicação colaram a pecha de “arruaceiros e invasores” nos sem-terra, ignorando absolutamente o princípio constitucional da reforma agrária e da aniquilação dos deletérios latifúndios, que há séculos espalham-se pelo Brasil, sem produzir nada.

Sandra fala sobre esse carimbo moral imposto injustamente ao campesinato.

“Há uma predisposição das pessoas a não gostar da gente. É um medo, sabe? Medo por não conhecer. E tem gente que vem intimidar também, o que fez com que a gente adotasse algumas precauções com a segurança”, relata.

Sobre os novos rumos políticos do país, com recrudescimento dos discursos de ódio contra movimentos sociais, Sandra indica que essa violência interfere diretamente na forma de viver dos assentados e também diz que houve um aumento dos casos direcionados aos sem-terra da região.

“Claro que a gente sente essa violência… Com certeza. Ocorreram ações violentas ultimamente, principalmente quando a gente faz protestos nas pistas. Um tempo atrás, agora, um cara puxou uma arma para o pessoal… E tem os que jogam o carro, ou o caminhão, em cima da gente, pra atropelar mesmo”, revela.

Barraca do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), numa feira realizada no bairro AABB, em Serra Talhada – Foto: Henrique Rodrigues

Quem também é assentada na região do Sertão do Pajeú é a dirigente nacional do MST Maria Aparecida Pereira da Silva, que atua conjuntamente no Setor de Gênero do movimento em Pernambuco.

Ela acompanha toda a entrevista e é consultada sobre o papel da mulher no campo nos dias atuais, se comparado ao período de Lampião, tão ativo naquela região à época. Cida, como gosta de ser chamada, explica que as funções da mulher são praticamente as mesmas, mas deixa claro que a mudança mesmo foi na forma como a sociedade enxerga esse papel.

“Houve um avanço no papel da mulher no campo, um protagonismo maior, mas a gente continua fazendo as mesmas coisas, que vão bem além do fogão (risos)… Apenas passamos a ser mais reconhecidas.”

Os caminhos 

Um elemento central existente na travessia do sertão é a criação de caprinos. Esses animais estão presentes na identidade e na cultura nordestina há tanto tempo, que a Fazenda Carnaúba, em Taperoá, na Paraíba, pertencente à família do escritor Ariano Suassuna, resolveu sofisticar sua produção de queijo de cabra e hoje a iguaria é reconhecida em todo mundo. Sob o rótulo “Grupiara”, o queijo traz em sua embalagem uma citação escrita de próprio punho pelo autor do “Auto da Compadecida”, falecido em 2015, onde se lê “A cabra pode ser um caminho para a revitalização política, literária e econômica do Sertão do Nordeste”.

Nesse sentido, duas imagens que guardo na memória desta reportagem que percorreu as rotas do antigo cangaço estabelecem relação com bodes e cabras, animais protagonistas nos pratos fartos da culinária sertaneja.

BR-232, uma das principais rodovias que cortam o Sertão do Pajeú – Foto: Henrique Rodrigues

Uma delas foi a de um sertanejo vestido com uma velha indumentária de couro surrado, torrado pelo sol, cruzando a BR-232, na altura de Grossos, um distrito do município de Verdejante, em Pernambuco. O homem atravessava a pista com um rebanho caprino, enquanto o trânsito escasso esperava a sua passagem.

A outra, artística por natureza, foi a de uma chibarrada que descansava à sobra de uma frondosa árvore, em frente a uma humilde habitação rural, na estrada de terra que leva ao nascedouro de Lampião. Desconfiado, o dono surge na janela com cara pouco amigável, enquanto fotografo os bichos.

Essas cenas, por mais poéticas que pareçam, revelam o conflito entre dois Brasis. A exemplo do passado quase mítico do cangaço, e mais amplamente do sertão, dissecado por Euclides da Cunha na campanha de Canudos, o que choca, mas também encanta, é a tentativa dos rincões longínquos do país de se desenvolverem, enquanto sua tradição os mantém presos à sua essência.

 

 

*Henrique Rodrigues é professor de Literatura Brasileira e jornalista 

Esta é a quarta e última parte de uma reportagem especial. Confira as anteriores:


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