Fórumcast #20
15 de abril de 2019, 15h37

Carol Proner denuncia atos de violência e fascismo no Rio de Janeiro

Garoto menor de idade assaltou uma mulher e foi agredido: “brutamontes corpulentos esticavam o ladrão imobilizado em posição de jiu jitsu”, relata a jurista

Foto: Reprodução/YouTube

A jurista Carol Proner postou em sua página no Facebook, neste domingo (14), um depoimento, relatando um ato de violência presenciada por ela e uma amiga.

Vejam a íntegra da mensagem:

Fascismo no Leblon

Faço esse relato porque entendo que a indignação deve se contrapor à naturalização da violência. Havia dito para a minha amiga Gisele Ricobom que, com as ideias mais claras, eu descreveria o barbarismo que vivemos ontem, ilustração do fascismo mais caricato.

Leblon, sábado de sol, Bar Veloso, acabávamos de chegar acompanhadas do pequeno Nico, de 3 anos, quando ouvimos os gritos desesperados de alguém que acabava de ser assaltado, uma mulher gritava “pega ladrão, pega o desgraçado que me assaltou”. O moleque vinha da praia, pedalando desenfreado e tentando se livrar dos homens que o perseguiam, até que foi derrubado ali em frente, provocando a disparada de pessoas para ver ou até participar do castigo.

Já estavam posicionados em torno do garoto negro que, depois da queda, tinha a cabeça presa sob o pé de alguém, um braço torcido e começava a ser chutado pela própria vítima em surto de ódio, justificando que havia trabalhado muito para ter aquele aparelho celular.

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Escrevendo agora, tenho apenas flashes de memória, mas lembro que corri imediatamente para lá, com a convicção dos distraídos, gritando em nome de uma suposta comissão de direitos humanos: “ninguém machuca o garoto! Chama a polícia, mas não bate no garoto”.

Nessa de meter o corpo, não me dei conta do absurdo e que, ali, a tresloucada era eu. Não reparei nos brutamontes corpulentos que esticavam o ladrão imobilizado em posição de jiu jitsu e acabei provocando a ira de todos. Vários dedos apontaram para mim, os gritos migraram, a mulher roubada esteve a ponto de me bater até que alguém perguntou a idade do moleque.

Aproveitei a resposta e emendei: “Tá vendo? 15 anos, menor de idade! Chama a polícia, mas não bate no garoto”. O homem que perguntou a idade, provavelmente o comparsa, prometeu conduzir o moleque até a guarda municipal e, magicamente, o ladrão saiu da cena. Dali em diante, o foco passou a ser outro.

Fazer triunfar o argumento fascista passou a ser mais importante que recuperar o celular roubado ou mesmo prosseguir o linchamento social. Em debate circular, apareceram falsos advogados, um suposto delegado, um tal agente da polícia federal, um velho que passava por ali e meteu o dedo na minha cara porque era velho e sabia de tudo, mas a maior agressividade vinha das mulheres que acompanhavam os pitbulls tatuados, um ódio que eu nunca tinha visto.

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Gisele veio ao meu socorro e nem mesmo uma mãe com um bebê no colo foi respeitada. Tentando me acalmar, ela lembrou do garoto estrangulado no supermercado Extra e disse que fizemos bem em interferir.

Tremendo, decidimos voltar ao restaurante e terminar o nosso almoço, mesmo diante da provocação do bando que, soubemos depois, havia atravessado a madrugada consumindo álcool, drogas e cultivando ódio. Nos surpreendemos com a solidariedade de algumas mesas e de dois garçons muito discretos, pois o gerente, certamente bolsonarista, não aprovaria manifestação explícita de humanidade.

Um casal solidário nos acompanhou até a saída e pudemos partir seguras, porém tristes, pensando nessa gente doente, no pobre garoto que arriscou a vida, na miséria da nossa sociedade.


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