Confira a íntegra da série exclusiva “Evangélicos Contra Bolsonaro”

A antropóloga Carly Barbosa, os pastores Henrique Vieira e Zé Barbosa Jr e as pastoras Eliad Dias e Odja Barros discutiram o estigma que ronda os evangélicos no Brasil, vistos como aliados de primeira hora do presidente

Desde a chegada de Jair Bolsonaro ao poder, há quase dois anos e meio, grande parte dos críticos e opositores do presidente extremista vê os segmentos evangélicos pentecostais e neopentecostais como seus maiores aliados. Na verdade, esta percepção tem início ainda no processo eleitoral de 2018.

É inegável que os grupos autodenominados cristãos, não só no Brasil e também não só nos dias atuais, majoritariamente são (e foram) vinculados a pautas e visões de mundo mais conservadoras. No entanto, de algumas décadas para cá, a abordagem excessivamente moral de alguns líderes destes grupos, em contradição com a ganância extravagante e o charlatanismo de parte deles, passou a ser questionada por fiéis e sacerdotes que professam valores diferentes daqueles que essas lideranças mais midiáticas nutrem.

Estes seguidores, avessos ao conservadorismo bufo, passam então a se orientar, segundo eles próprios, por uma fé que se aproxima da verdadeira consciência cristã e dos verdadeiros valores do Evangelho e de Jesus Cristo. Para compreender essa dinâmica, a Revista Fórum ouvirá nos próximos dias quatro lideranças evangélicas progressistas que se opõem frontalmente ao discurso extremista de Bolsonaro: os pastores Henrique Vieira, da Igreja Batista do Caminho, do Rio de Janeiro, e Zé Barbosa Jr, da Aliança de Igrejas Batistas do Brasil, atualmente em Campina Grande, e as pastoras Eliad Dias, da Igreja Metodista da Luz, de São Paulo, e Odja Barros, da Igreja Batista do Pinheiro, de Maceió.

Num movimento contrário, e de reação, as hostes mais radicais do neopentecostalismo passaram a se apegar cada vez mais a discursos e figuras igualmente radicais. Foi justamente aí que um entulho político ultrarreacionário como Jair Bolsonaro ganhou preferência neste grupo religioso.

Mas a coisa nem sempre foi assim.

Como foi a trajetória política dos evangélicos

Há pouco mais de 10 anos o setor evangélico sustentava boa parte dos votos e da aprovação dos governos progressistas do PT, sob a condução de Lula. A esquerda tinha boa penetração nessas camadas sociais com recortes religiosos, algo visto como resultado de seu trabalho de base e da proximidade que o partido mantinha com o povo das periferias.

Nos últimos anos, as demandas e a agenda política dos evangélicos sofreram mudanças. Uma face muito mais conservadora e moralista submergiu, embora seja necessário frisar que isso não vem ocorrendo de forma generalizada no grupo, que é muito diverso.

Aliás, todos os entrevistados da série “Evangélicos Contra Bolsonaro”, sejam acadêmicos ou clérigos, foram unânimes em relação a esta constatação: o segmento evangélico é muito plural, acentuadamente diverso, diferentemente daquilo imaginado por quem não está familiarizado com o grupo.

Para a antropóloga Carly Barbosa Machado, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), que há 11 anos pesquisa o neopentecostalismo nas periferias urbanas, enxergar os evangélicos como um segmento social uniforme é um erro, já que esse grupo de brasileiros tem um perfil muito heterogêneo.

“O campo evangélico é um campo muito diverso. Ele não é muito diverso só porque têm progressistas e não progressistas. Ele é diverso em suas formas de organização, formas de institucionalidade. As denominações religiosas evangélicas são muito variadas, e não só pelos seus perfis teológicos, políticos, mas sobretudo por suas formas de organização. Há igrejas maiores, com expressão nacional, como a Igreja Universal do Reino de Deus, há igrejas locais, periféricas, fundadas por uma única pessoa e com uma membresia de 20 fiéis. Por isso é muito difícil falar de um campo tão diverso, como todo o campo religioso brasileiro”, explica.

Questionada sobre como se deu o rito de entrada dos evangélicos na vida política, ela contextualiza cada etapa do movimento nessa direção, mostrando que sua influência foi crescendo paulatinamente e por meio de estratégias em diversas frentes.

“O que aconteceu nas últimas décadas foi um movimento de formação de um campo evangélico na política. Não só nas candidaturas. A princípio, essa relação entre evangélicos e política era mais tensa, delicada, porque inicialmente os protestantes se distanciavam mais do campo político. Com o passar do tempo, o que vem ocorrendo é uma organização dos evangélicos e uma articulação com a política formal e isso se dá tanto no poder Legislativo, como no poder Executivo. No Legislativo isso passa a ocorrer por meio de partidos e candidaturas evangélicas. Já no Executivo, isso é possível por meio de uma articulação nas mais variadas esferas… Municipal, estadual e federal”, completa.

A professora Carly chama a atenção ainda para o fato de os evangélicos não serem a primeira denominação religiosa a promover uma relação aberta com o universo político, ainda que o tenham feito de uma maneira muito particular e ostensiva.

“É importante lembrar que a igreja católica já tem articulação com esses poderes políticos. Nós temos que tomar cuidado porque os evangélicos não entram na política sendo o primeiro grupo religioso. O que ocorre é que eles se organizam no campo político de uma forma diferente da igreja católica”, compara.

Sobre a adesão dos neopentecostais à política formal e tradicional, a pesquisadora lembra que esse fenômeno começa a tomar forma nos anos de governo Lula (2003-2010) e que a integração, a princípio, era em grande parte à esquerda.

“Não dá pra dissociar esse processo de organização política dos evangélicos dos anos do governo Lula, do PT. Falo do reconhecimento dos atores evangélicos como atores políticos. A tentativa de aproximação com o campo evangélico, a formação de um governo, com a própria presença do Marcelo Crivella, se dá no início dos anos 2000, nos governos Lula”, relembra Carly.

Já no segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff, quando o movimento para removê-la tomou força, parte significativa desse grupo religioso passou a engrossar as fileiras de oposição ao PT e é aí que sua agenda começa a se voltar mais para pautas morais e de costumes, na visão da pesquisadora.

“A percepção de que esse campo é um campo político relevante se dá no governo Lula e por meio de outras pautas, com outra agenda. A inclinação para o campo conservador, eu interpreto, se dá sobretudo na crise do governo Dilma, que leva ao impeachment, visivelmente com pautas de ordem moral. São nesses anos, em torno do período do impeachment, que há essa migração do campo evangélico do, eu não diria do petismo, mas do governo em si, para novas negociações que começam a surgir, com parte desse grupo indo para o centro e outro para a direita.”

Carly evidencia, então, que o caminho percorrido pelo atual presidente para ganhar apoio de grande parte dos evangélicos não foi abrupto e repentino.

“O movimento eleitoral de Jair Bolsonaro foi um movimento que conseguiu conquistar algumas dessas lideranças, gradativamente. Não foi um movimento rápido, maciço e nem fácil. Ainda assim, esse campo eleitoral foi sendo conquistado por esses atores.”

Engana-se quem imagina que os 64 milhões de evangélicos que existem no Brasil (31% da população, segundo dados do Datafolha, de 2020) passam o dia remoendo pautas morais, apartados da realidade complexa do país. A pesquisadora Carly Barbosa afirma que esse grupo de nossa sociedade mantém pautas comuns, sobre condições de vida cotidianas, como qualquer outro perfil de eleitor brasileiro, ainda que esses aspectos morais tenham peso em muitas de suas escolhas. Ela ressalta também que essa abordagem de assuntos diversos é feita a partir de uma realidade muito própria.

“O campo evangélico vem discutindo políticas econômicas, políticas sociais e morais há alguns anos, nos seus próprios formatos, assim como na dinâmica de todos os grupos religiosos. A finalidade é construir a sua consciência política a partir da sua própria realidade e de seus espaços de organização. Evangélicos pensam como qualquer pessoa, são atores sociais competentes como qualquer outro indivíduo no campo político. O que eu poderia dizer é que, para o ambiente eleitoral, a pauta moral é sim muito forte”, reforça.

Por fim, a acadêmica da UFRRJ opina sobre o caminho a ser trilhado pelos setores evangélicos a partir dos resultados do governo extremista e ultraconservador de Jair Bolsonaro, reforçando a importância das lideranças progressistas pentecostais e neopentecostais nessa empreitada que objetivará uma mudança de opção nos eleitores do grupo.

“O que me parece que vai ser feito eleitoralmente daqui pra frente é um forte trabalho de oposição ao bolsonarismo, tanto fora quanto dentro das igrejas evangélicas. Por isso eu friso que é importantíssimo o papel de atores evangélicos progressistas buscando diálogos com os membros de duas igrejas e partindo de princípios teológicos e bíblicos para que só assim essa negociação possa ser feita”, finaliza.

“Bolsonaro é um cristão deste cristianismo que mataria Jesus”

A série exclusiva da Revista Fórum “Evangélicos Contra Bolsonaro” começa com a entrevista do pastor Henrique Vieira, da Igreja Batista do Caminho, do Rio de Janeiro. Figura conhecida das redes sociais, Vieira é também ator, escritor e poeta.

Ao crítico contumaz da política de morte do presidente Jair Bolsonaro, começo questionando sobre quais são, em sua perspectiva, as contradições entre ser cristão evangélico e ser bolsonarista. O pastor progressista utiliza exemplos práticos para ilustrar a incoerência entre as duas definições.

“Jesus Cristo apostou no amor, o bolsonarismo aposta no ódio. Jesus Cristo apostou na paz, o bolsonarismo faz uma aposta permanente na violência. Jesus Cristo apostou no perdão, na possibilidade de recomeço para todas as pessoas, o bolsonarismo aposta na vingança. Jesus Cristo denunciou o acúmulo de riquezas e sempre esteve ao lado dos pobres, o bolsonarismo tem uma política econômica que aprofunda a desigualdade social e que explora cada vez mais o povo. Jesus Cristo nunca usou armas, o bolsonarismo aposta no armamento da população. Na verdade, o que a gente observa é que a ética do Evangelho é completamente incompatível com a proposta bolsonarista de sociedade”, explica.

Mesmo com o argumento de Vieira, é inevitável não mencionar que inúmeros líderes influentes, de denominações expressivas, mantêm-se fiéis ao extremismo bolsonarista. Para ele, o cristianismo hegemônico, institucional, aquele que foi “oficializado” ao longo do tempo, ainda na Igreja Católica, e por consequência também entre os evangélicos hoje, tem interesses que avançam sobre o modelo exploratório estrutural das sociedades, deixando a verdadeira verve cristã de lado.

“Há uma contradição entre o bolsonarismo e o Evangelho… Como é possível que determinadas lideranças sigam o Bolsonarismo? É porque já faz muito tempo que o cristianismo hegemônico, institucional, se afastou do Evangelho. Esse cristianismo hegemônico e institucional foi cúmplice e parte estrutural da colonização escravocrata, racista, patriarcal, genocida, violenta e sanguinária da América. Esse cristianismo tem uma formação doutrinária que não tem a ver com dignidade humana, que não tem a ver com a promoção da paz, com o respeito à diversidade. Esse tal cristianismo se alinha, infelizmente, a essa lógica de tortura, de execuções extrajudiciais e violações aos direitos humanos. Jesus foi morto pelo Império Romano. Três séculos depois, o cristianismo virou a religião oficial do Estado e é aí que começou a tragédia. Porque a mensagem que vinha dos oprimidos passou a ser interpretada pelos opressores e desde então temos essa contradição.”

Diante da resposta, pergunto como é, então, para um evangélico não alinhado ao extremismo bolsonarista sofrer com o estigma de ser visto pelo resto da sociedade como ultraconservador e radical só por conta de sua religião. Vieira diz que para se derrubar esse paradigma é necessário fazer com que as pessoas entendam que os evangélicos são um campo popular, uma face da sociedade como outra qualquer, formada por trabalhadores, com aparentes paradoxos e conflitos, como os demais grupos humanos.

“Realmente é muito difícil essa nossa tarefa de mostrar que o campo evangélico é muito plural e que ele não se resume a Silas Malafaia, Edir Macedo e Valdemiro Santiago. Mostrar, primeiro, que ele é popular, é negro, que é comandado também por mulheres, por trabalhadores explorados do campo e da cidade. Ser do campo evangélico não significa dialogar com Silas Malafaia, Edir Macedo, ou Valdemiro Santiago. Significa dialogar com a classe trabalhadora, com suas contradições e com seus conservadorismos”, desabafa.

Em relação a essa pluralidade enfatizada por tantas pessoas, a liderança carioca da Igreja Batista do Caminho concorda e reforça que é necessário que todos saibam que os evangélicos estão muito longe de serem um setor social homogêneo e que a padronização da figura do “crente” favorece Bolsonaro, que com isso cola sua imagem à dos fiéis, com interesses políticos.

“O campo evangélico é plural, é multiforme e não é um bloco monolítico. O que eu acredito é que o presidente Jair Bolsonaro busca de maneira fisiológica e oportunista se aproximar de determinados segmentos dentro do campo evangélico, pra sustentar seu projeto político.”

Outro aspecto que dificulta dissociar a imagem dos seguidores desta religião das hostes mais radicais do segmento é a bancada evangélica. O grupo parlamentar ligado às poderosas igrejas pentecostais mantém posições muito conservadoras no Congresso e tenta barrar com grande energia qualquer política progressista. Em vias gerais, são criticados também pelo corporativismo e pelas propostas que beneficiam seus interesses, sobretudo financeiros, assim como pelo seu alinhamento com outras bancadas reacionárias, como a bancada da bala e a bancada do agronegócio. Sobre isso, Henrique Vieira fez críticas contundentes.

“A bancada evangélica é em sua imensa maioria contrária aos interesses do povo, e por isso automaticamente contrária aos direitos do Cristo, do Evangelho de Jesus. Ela se alinha à bancada da bala, à bancada do agronegócio, faz uma política fisiológica, populista e voltada para os seus próprios interesses. Faz uma política corporativista, elitista, alinha à lógica da política liberal que massacra o povo e retira direitos, que aprofunda a desigualdade social, ou que maltrata os trabalhadores. A minha avaliação é de que, num quadro geral, trata-se de uma bancada ultraconservadora, antiética, antipovo e contrária aos princípios do Evangelho de Jesus”, considera.

Para encerrar, confronto o pastor com o fato de Bolsonaro viver declarando-se cristão e agir como se fosse um legítimo representante da doutrina e qual sua opinião no que diz respeito a essa autodeclaração. Vieira concordaria com isso?

“Se ser cristão significa crer no Cristo, se ser cristão significa atualizar a vida de Jesus, dar testemunho da vida de Jesus, humilde e corajosamente eu digo que não. Jair Bolsonaro não reflete a lógica do Cristo. Não reflete a lógica do Evangelho, muito pelo contrário. Agora, do ponto de vista institucional e hegemônico, de um cristianismo colonial e colonialista, violento, desse cristianismo sem Cristo, sim, Bolsonaro é a representação desse cristianismo sem Cristo. Bolsonaro é um cristão deste cristianismo que mataria Jesus”, conclui.

“Não acredito nesse deus homem, branco e macho, que escolhe quem vai matar”

Eliad Dias, pastora da Igreja Metodista da Luz, em São Paulo, é uma mulher negra e progressista. Ela é a segunda entrevistada da série exclusiva “Evangélicos Contra Bolsonaro”, da Revista Fórum.

Durante a conversa, parto sempre do mesmo ponto: as contradições entre ser bolsonarista e declarar-se cristão. Eliad lista argumentos que inviabilizam a compatibilidade entre as duas definições.

“Cristã e cristão não fazem arminha, não vivem falando da morte como vingança. Cristã e cristão lutam por um mundo mais justo, creem no Evangelho e querem vida! Cristão procura seguir a vida e os ensinamentos de Jesus Cristo. Quer dignidade, justiça social, trabalho pra todo mundo, casa pra todo mundo. Para os cristãos bolsonaristas, Jesus é só para alimentar o ego e para fazer concessões para muitas coisas que eles querem. A teologia da prosperidade piorou esse quadro. Ali há um deus, um Jesus, que dá carro. Que acha que alguém é importante pelo quanto tem na conta bancária. Um deus que oprime, que seleciona as pessoas que ele vai abençoar. Enfim, não dá pra ser bolsonarista e ser cristão de verdade”, dispara.

A pastora completa o raciocínio afirmando que para esses setores reacionários, que se escondem atrás da figura de Cristo, foi necessário conceber um deus próprio, que contemple e admita suas distorções face aos ensinamentos de Jesus.

“Essa gente fez um novo deus. Desenhou um novo Cristo, só pra eles. Então por isso eles não se sentem nem um pouco intimidados de posar ao lado de mensagens de Jesus com arma na mão. Esse Cristo e esse deus foram feitos à imagem e semelhança deles. É uma tremenda distorção da realidade”, completa.

Para a líder evangélica, diferentemente do que se repete no senso comum, que as igrejas evangélicas teriam sido instrumentalizadas por Bolsonaro com interesses eleitorais, as coisas não são bem assim. Segundo ela, essas denominações que o apoiam têm papel ativo nessa união e também são responsáveis pelo que vem acontecendo com o grupo.

“Não acho que Jair Bolsonaro se aproveitou do segmento evangélico. Esse segmento evangélico podre que está aí o apoiou desde o início. Eles querem poder, querem dinheiro. É um segmento reacionário, fascista, que quer que o mundo gire de acordo com aquilo que eles acreditam. Querem fazer marcha pra família, a tal família tradicional, enfim. Repare que quase todos eles, com pouquíssimas exceções, são homens brancos e de igrejas ricas. Bolsonaro tem esse apoio porque, ao se juntar com essa gentalha, essas igrejas sabem que terão o poder que eles tanto sonham… Pra gente entender esse movimento é preciso ir até os Estados Unidos e ver o projeto da direita evangélica de lá. Até 2050 eles querem que todos os líderes das Américas sejam cristãos, evangélicos. E por aqui nós já temos um talibã evangélico próprio, que está no governo e que, se continuar por mais quatro anos, transformará o Brasil num inferno total”, critica Eliad.

A entrevistada ainda faz um último aparte sobre o suposto uso pelo presidente da República da denominação religiosa à qual ela pertence.

“É só você ver o como eles trabalham as questões das mulheres, dos indígenas, da comunidade negra, depois de tantos avanços, e que agora só vemos retrocessos por causa dessa gentalha. Eles não são cooptados. Esses evangélicos são parceiros, são comparsas. Essa gente é uma milícia evangélica e por poder eles fazem qualquer coisa.”

Em relação ao estigma que recai sobre o povo evangélico, visto com desconfiança pelo todo da sociedade por conta de um virtual alinhamento com uma gestão marcada pela morte e por políticas que desvalorizam os direitos humanos, Eliad diz que faz questão de reafirmar, aonde quer que vá, que é evangélica e que não faz parte dos pilares de sustentação de um governo repudiado no mundo todo, e que tampouco acredita num deus que nada tem a ver com o cristianismo.

“Eu faço questão de dizer, por onde passo, que sou metodista, que sou evangélica, mas que não tenho nada a ver com essa gente que está aí. Não sou de direita, não faço arminha com a mão, que respeito a vida humana, que sou a favor do estado laico. Cada um que viva a sua vida e a sua fé e se não quiser ter fé, tudo bem. Eu acredito na ciência. Não acredito nesse deus homem, branco e macho, que escolhe quem vai matar e quem ele vai deixar viver. Nesse deus do desamor, da guerra, que se importa se você está fazendo sexo com uma pessoa do mesmo sexo. Isso pra mim não tem nada a ver com o Evangelho. Esse pessoal fala em nome de um deus que eles mesmos criaram”, frisa.

O silêncio das igrejas evangélicas, e de Bolsonaro, quando o assunto é a violação aos direitos humanos também incomoda a pastora. Ela crê que o papel dos cristãos é repudiar a violência, mas diz que os líderes evangélicos alinhados ao bolsonarismo estão mais preocupados com seus ganhos.

“Bolsonaro defende as execuções, claro. Como por exemplo agora, há poucos dias, no Jacarezinho. E quais as igrejas que se pronunciaram sobre isso? Até agora nada, né? E as poucas que se pronunciaram, apoiaram o presidente, dizendo que ali eram todos bandidos. É preciso frisar que essas posições não são cristãs. Alguém precisa dizer pra essa gente que se diz evangélica, cristã, que na verdade eles não sabem nada de cristianismo. Esse deus que eles seguem, a quem juram fidelidade, é um deus que não pensa nos humanos. Ele pensa apenas nos direitos e privilégios de uma classe. O ego deles é muito exacerbado. Não é à toa que esses Malafaias, RR Soares, querem ter avião, coisas de ouro. Se sentem representantes de Deus no mundo.”

A bancada evangélica, grupo de pastores e líderes religiosos que tem forte atuação nos parlamentos brasileiros, também foi alvo de duras críticas da pastora metodista, que não poupou adjetivos. Ainda no campo da política, Eliad vê um problema nas tentativas de diálogo entre a esquerda e os evangélicos.

“A bancada evangélica é a bancada do mal (risos)… Na verdade ela não é evangélica. Tinha que ser a bancada do diabo… Essa bancada, que se aliou à direita, e há todo um histórico aí, de dinheiro, apoio às milícias, enfim, passa pelo rebanho que eles têm na igreja. É o pastor, ou o bispo, que dizem em quem os fiéis têm que votar. Para o fiel, tudo faz diferença. Naquele convívio, ele se sente parte da comunidade, até porque o pastor o cumprimenta, o reconhece, diferentemente do seu chefe na empresa, ou do racistinha do trabalho. Isso faz diferença. Aí eu pergunto: como a gente pode transformar isso? E nós temos um problema aí… Eu não creio muito nesse negócio de trabalho de formiguinha. Precisamos nos unir para mudar isso, mas aí aparece outro problema, já que a esquerda não consegue também se unir.”

Os problemas de relacionamento com os núcleos políticos mais progressistas, segundo ela, não vêm de hoje e deveriam ser melhor analisados pelas lideranças de esquerda. A falta de preparo dos dirigentes de movimentos populares, assim como a falta de conhecimento político de parte dos evangélicos dificultam essa aproximação.

“Se nós tivéssemos uma educação política, a esquerda poderia trabalhar politicamente com os evangélicos, pra mostrar o que Bolsonaro está fazendo. Tem um exemplo claro disso. Uma vez me convidaram para uma reunião, que era para chamar os evangélicos. Aí, um companheiro da esquerda ficou explicando por mais de meia hora coisas que eu já sabia, não me deu oportunidade de falar e só queria que eu falasse sim. É difícil, porque se você não escuta, não compartilha informações e já chega dizendo que a pessoa é inferior a mim, porque estudei Marx e conheço Lênin, fica muito difícil. Todo mundo já chega com vários discursos prontos, mas você tem que ouvir as pessoas. Ouvir mais e falar menos pra que a gente tenha confiança”, avalia.

Na última pergunta, retomo a cristianismo autodeclarado de Jair Bolsonaro. Quero saber da pastora Eliad Dias se ela classificaria o presidente como cristão.

“Considerar Jair Bolsonaro um cristão? Deus me livre… Pra mim, é muito claro que ele é a representação de todo tipo de mal que existe nesse mundo. Ele é cínico, um sujeito nojento, horroroso, que não tem nada de cristão. Eu não consigo ver absolutamente nada de cristão, de evangélico, de bom, ou de positivo naquela pessoa. Nem em sua família. A única coisa que consigo ter por essa gente é desprezo. Estamos perdendo pessoas que amamos, estamos deixando de fazer as coisas, de viver a vida. Não dormimos direito, não vivemos direito, com medo da Covid, porque não temos vacina e tudo por causa dessa gente má, sem coração, perversa”, finaliza.

“Bolsonaro pode ser tudo, menos cristão… É um anticristo, com certeza!”

Figura conhecida das redes sociais pelo seu ativismo em prol de um cristianismo que acolha as pessoas, Zé Barbosa Jr é membro da Aliança das Igrejas Batistas do Brasil e atualmente está em Campina Grande, na Paraíba. Ele é o terceiro entrevistado da série especial “Evangélicos Contra Bolsonaro”, produzida com exclusividade pela Revista Fórum.

Para falar do controverso alinhamento entre grupos ditos cristãos e a corrente política extremista do atual presidente da República, começo questionando Barbosa sobre o estigma que recaiu sobre todos os evangélicos por conta dessa união de alguns.

“Isso é desgastante. E a esquerda deveria abandonar de vez essa assimilação. O mundo evangélico é amplo e diverso, como a sociedade brasileira. Esse estigma só impede o avanço das forças progressistas entre evangélicos que, se fossem coerentes, abraçariam as causas urgentes e necessárias que defendemos. Há pouca coisa mais progressista que o Evangelho e é sempre bom frisar que Malafaia, Macedo, Santiago e outros há muito tempo abandonaram a fé. São empresários religiosos, bandidos que se apropriaram do discurso religioso com vistas apenas aos seus projetos pessoais de poder”, diz.

Barbosa diz que, pessoalmente, sente-se incomodado por sempre ter que se justificar ao se apresentar como cristão e pastor, já que associar a imagem dos evangélicos a Bolsonaro e pastores suspeitos de enriquecer com o dinheiro dos fiéis é algo quase automático para a maioria das pessoas.

“Causa incômodo e, como disse anteriormente, é desgastante. Porque antes de falar qualquer proposição, primeiramente tenho que perder tempo explicando por que não sou reacionário e ultraconservador, que Malafaias e Macedos não representam a totalidade dos evangélicos, que Bolsonaro é uma espécie de anticristo, entre outras coisas… Mas entendo quem pensa assim, por incrível que pareça. Se tivesse acesso aos evangélicos apenas pelo que se vê na mídia, provavelmente pensaria o mesmo”, reclama.

Já que para o pastor há uma incoerência óbvia entre o cristianismo e as posições defendidas pelo atual presidente, peço então para que Zé explique mais claramente quais seriam essas contradições.

“Eu poderia enumerar várias contradições, mas vou falar de apenas uma que considero a principal. Bolsonaro (e o bolsonarismo) é movido pelo ódio, pelo sentimento de destruição e morte, enquanto a fé cristã tem como sua base principal o amor, que resulta em vida e luta por justiça social.”

Menciono a opinião de alguns políticos, lideranças cristãs e acadêmicos que afirmam que Bolsonaro se aproveita do segmento evangélico, por meio de pastores e bispos, para cooptar o grupo. Zé Barbosa diz que concorda com essa visão e fala um pouco sobre a relação entre os dois lados.

“Com certeza concordo! Bolsonaro é um aproveitador barato. Se faz de evangélico para os evangélicos, de católico para os católicos e brinca com a fé cristã. E assim como há dolo por parte do presidente, há também por parte dos líderes que “se deixam” cooptar por ele. Ninguém é inocente nessa história. Tanto um como os outros querem o poder pelo poder e têm como motivação de vida a ganância e a ‘destruição do inimigo’, digamos assim”, explica.

Jair Bolsonaro é conhecido há mais de 30 anos por suas posições abertamente favoráveis à violação dos direitos humanos e mesmo depois de chegar à chefia do Estado permaneceu com um comportamento inapropriado para um político que lidera uma nação. Seu discurso quase sempre descamba para opiniões favoráveis a assassinatos, torturas e à violência. Zé Barbosa se indigna com as lideranças evangélicas que endossam essas insanidades.

“Na verdade, as lideranças ditas evangélicas que apoiam e servem de suporte e palanque para Bolsonaro e suas ideias não têm nenhum compromisso com o Evangelho de Cristo. São pastores de si mesmos, usando uma figura bíblica do apóstolo São Paulo: ‘Porquanto, como já vos adverti repetidas vezes, e agora repito com lágrimas nos olhos, que há muitos que vivem como inimigos da cruz de Cristo. O fim dessas pessoas é a perdição; o deus deles é o estômago; e o orgulho que eles ostentam fundamenta-se no que é vergonhoso; eles se preocupam apenas com o que é terreno’…”, compara o pastor.

Suas críticas também são direcionadas à bancada evangélica, um forte grupo parlamentar que majoritariamente dá suporte políticos e serve de base para Bolsonaro no Congresso.

“Essa bancada é uma representação de parte dos evangélicos, mas não do Evangelho. Ninguém que tenha lido uma página apenas das palavras atribuídas a Jesus seria capaz de defender o que essa bancada defende. Esses homens zombam da fé cristã, são usurpadores do nome de Cristo, inimigos da Palavra de Deus, escarnecedores, são os verdadeiros ímpios (aqueles que negam a piedade que dizem ter). É uma representação vergonhosa e pusilânime, covarde, mentirosa. Representam aquele que a bíblia chama de ‘Pai da Mentira’: o diabo”, se exalta.

Zé Barbosa Jr acredita que só há um caminho para reverter essa tendência de apoio à política de morte de Bolsonaro por parte da maioria dos evangélicos e isso passa pela vertente progressista do grupo. Ele também acha que se a esquerda parasse de atacar quem professa essa fé, já ajudaria bastante, e até cita a melhora neste cenário segundo a última pesquisa Datafolha.

“Há essa possibilidade, sim, e é o que vários movimentos cristãos têm lutado para conseguir. Há muitos evangélicos progressistas e muitas organizações e movimentos na luta por essa disputa de narrativa. Parte da esquerda (os mais radicais) ajudaria muito se não atrapalhasse com alguns discursos pré-moldados e, na verdade, preconceituosos. A fé simples do povo não pode ser confundida com a manipulação deslavada e criminosa de lideranças podres como Valadões, Valandros e Malafaias. Há muita possibilidade de mudança e isso fica nítido na última pesquisa Datafolha que mostra Lula já está empatado com Bolsonaro entre evangélicos”, considera.

A consideração final de Barbosa, quando perguntado sobre Bolsonaro ser, ou não, evangélico, é bem direta e não deixa margem para interpretações.

“Bolsonaro pode ser tudo, menos cristão… É um anticristo, com certeza!”, encerra.

“Bolsonaro é anticristão. Cristão segue Jesus Cristo de Nazaré, o oposto dele”

A pastora Odja Barros é a quarta e última entrevistada da série especial “Evangélicos Contra Bolsonaro”, produzida com exclusividade pela Revista Fórum. Liderança feminista da Igreja Batista do Pinheiro, de Maceió, capital alagoana, Odja falou sobre a antítese existente entre a doutrina cristã e o chamado bolsonarismo, a corrente política ultrarreacionária do atual ocupante do Palácio do Planalto.

Sobre essa contradição nos valores pregados nas duas linhas de pensamento, ela começa apontando as incoerências existentes entre os fiéis que se proclamam cristãos e que dizem cerrar fileiras à disposição do projeto autoritário de poder de Jair Bolsonaro.

“Há uma oposição total de ideias entre o projeto desse governo e o que a gente chama de projeto de Jesus, ou projeto de Reino de Deus. E isso se traduz em alguns pontos especialmente… O projeto de Jesus é um projeto que promete vida, e vida em abundância, sobretudo para os grupos mais vulneráveis e excluídos da sociedade, que não têm direito à saúde, à vida e à própria existência. E veja, Jesus disse: ‘eu vim para que todos tenham vida’… Então, a contradição é que o projeto deste governo é um projeto de morte. O governo Bolsonaro não veio pra trazer vida, veio pra trazer a morte mesmo”, explica.

A pastora feminista diz que a controversa união entre grupos que se definem cristãos e a onda conservadora que alavancou a vitória de Bolsonaro na eleição de 2018 foi, na verdade, uma articulação que resultou numa instrumentalização dos adeptos da religião e que no fundo isso não reflete um alinhamento total do grupo com as ideias do presidente extremista.

“Eu acredito que houve sim uma articulação, uma cooptação. Não que tenha sido feita por ele próprio, mas sim por um grupo de lideranças religiosas, que de uma maneira coordenada cooptou esse apoio evangélico… E várias estratégias foram usadas para isso. Há muitos pastores e figuras que são peças-chave e que abraçaram esse discurso e colocaram os púlpitos de suas igrejas à disposição da onda pró-Bolsonaro. Gente que usou o seu poder de influência, com a liderança que têm… Que exercem um poder simbólico e que, primeiro, foram construindo todo um discurso para suas congregações e gerando essa adesão”, opina.

Ela acredita que o processo não se deu por acaso, tampouco espontaneamente, mas sim que teria sido algo moldado e desenvolvido por quem conhecem bem a realidade e a linguagem do público evangélico, para criar uma aceitação e uma assimilação por parte destes.

“A própria construção da imagem do presidente Bolsonaro para esse público foi toda bem elaborada por alguém que conhece muito bem o imaginário do mundo evangélico. A partir daí são construídas relações baseadas em teologia, bíblia, entre outras coisas, para montar esse discurso e gerar adesão nessas comunidades que hoje estão de acordo com esse apoio, e que são comunidades que caminham muito de acordo com as vozes pastorais, desses homens e mulheres se aproveitam de uma autoridade eclesial para angariar a confiança dos fiéis”, completa.

Pergunto se é um incômodo a generalização criada a partir do apoio que grandes nomes e igrejas deram a Bolsonaro, o que fez com que os não evangélicos vissem o grupo como sectário, ultraconservador e financiador das insanidades formuladas pelo presidente. Odja diz que sim, mas lembra que nos últimos tempos já há uma percepção de que o setor não é tão fiel assim a Jair Bolsonaro e que sinais de ruptura são perceptíveis para todos.

“É muito injusto quando somos apontados como um grupo que o apoia, ou que é ignorante ao ponto de apoiar essa política, ou até mesmo ser visto como alguém que foi cooptado por este projeto, porque nós temos uma tradição de lideranças evangélicas que há muito tempo têm construído um caminho de oposição a este projeto. É muito injusto, é incômodo, mas eu quero pensar também que tem sido cada vez menos possível sustentar essa ideia de coligação entre pessoas evangélicas e o bolsonarismo. Penso que esse mito tem caído, pois cada vez mais são vistas lideranças evangélicas contra o projeto de Bolsonaro. Nós não podemos falar de evangélicos a partir dessas figuras midiáticas do segmento.”

Ao continuar, a líder batista diz que, particularmente, não se sente ultrajada com essa analogia, já que pertence a uma comunidade evangélica que historicamente demarcou posições progressistas e que tem um passado de luta por causas que não têm nada a ver com o conservadorismo de alguns ramos do cristianismo.

“Quanto a esse recorte único que existe, de se ver todo cristão evangélico como conservador, fundamentalista, reacionário, posso dizer pessoalmente que já não convivo mais com esse estigma. Eu sou pastora e há muitos anos me assumo como feminista, então as pessoas me localizam e sabem que eu não estou nesses grupos conservadores. Estou junto de setores mais moderados. Por ser de uma comunidade, que é a Igreja Batista do Pinheiro, em Maceió, que historicamente vem rompendo com o legado conservador dos evangélicos, que aprovou o batismo das pessoas homossexuais, desconstruindo a visão de homossexualidade e pecado… De alguma maneira me sentiria assim, porque muito antes do projeto Bolsonarista já faço parte de um projeto de igreja progressistas, de pessoas e instituições que se organizaram como batistas progressistas. Isso permite mostrar de que lado estamos, que tipo de evangélicos somos”, contextualiza.

Odja ainda frisa que, para quem não sabe, há ramos do cristianismo evangélicos de cariz progressista desde sempre e que nem todos são conservadores, como a maioria do público imagina.

“No nosso grupo histórico de batistas há uma herança e uma tradição de evangélicos com uma diversidade de leituras, não há uma prevalência do conservadorismo. Temos uma história de cristãos que lutaram pelo ecumenismo, pelo Estado Laico, pela separação entre Igreja e Estado. Isso fortalece a todos, pois nossas posições vêm de longe. Isso permite contestar interpretações conservadoras, porque podemos mostrar isso com embasamento e com uma memória histórica”, esclarece.

Para a entrevistada, a bancada evangélica contribui para o estigma em torno dos cristãos, pois suas demandas são desvirtuadas, descoladas dos cânones do Evangelho e da doutrina de Jesus Cristo.

“O que dá pra dizer da bancada evangélica, de forma bem sintetizada, é que esse pessoal não nos representa, não me representa. É uma bancada que mostrou, por meio dos projetos que apoia (e dos que não apoia) quais são seus compromissos. Aliás, acho que os compromissos deles nem são com suas comunidades, ou com suas igrejas… Estão mais para os compromissos com as bancadas do boi e da bala. Essa bancada dita evangélica representa é um grupo que se diz evangélico e que tem fome de poder. Eles buscam aquilo que Jesus de Nazaré sempre negou: o trono, o poder… É uma deturpação e isso não é um privilégio dos evangélicos só, os projetos deles denunciam seus espúrios interesses”, fala, em tom de forte crítica.

Na visão da pastora, se uma boa estratégia de comunicação for desenvolvida para abrir os olhos das camadas mais populares que frequentam as igrejas evangélicas, será possível reverter o forte apoio que ainda resta ao presidente neste segmento religioso. Ela lembra que nem todos que endossam seu governo são iludidos e diz que há muita gente que realmente se espelha em Bolsonaro por afinidade. Com esses, não há trabalho de esclarecimento possível.

“O caminho para orientar as pessoas mais simples das comunidades, iludidas pelo projeto de Bolsonaro é o de, primeiro, separar quem são essas pessoas. Há aqueles que são conscientes, que o seguem e nada vai demovê-los disso… É uma projeção, uma parte deles projeta em Bolsonaro suas ambições, seus preconceitos, suas intolerâncias, esperando a reconstrução de uma igreja e sociedade mais patriarcal, silenciando grupos que ganharam voz, como mulheres, negros LGBTI+, indígenas, enfim… Com esse grupo não há caminhos, não há saída. Agora, para os demais, que se iludiram, que aderiram à onda bolsonarista por falta de um outro olhar, parece que precisamos encontrar diálogo e linguagens, sem tratar essas pessoas igualmente ao primeiro grupo. As pessoas que defendem Bolsonaro não são todas iguais, há gente que está aprendendo a ouvir e a perceber, por meio de uma linguagem muito própria, que foram enganados pelo presidente, que estão vendo por meio de uma leitura popular do Evangelho de Jesus que este é um Evangelho do amor, e as pessoas notam que ele é incompatível com o discurso de ódio e de violência dele.”

Quando chega a hora de responder à pergunta feita a todos os entrevistados da série, Odja é breve e clara. O questionamento é: Jair Bolsonaro pode ser considerado cristão?

“Bolsonaro é anticristão. Cristão segue Jesus Cristo de Nazaré, o oposto dele”, pontua, sem rodeios.

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Henrique Rodrigues

Jornalista e professor de Literatura Brasileira.

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