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24 de janeiro de 2020, 22h03

Coronelismo, o pai do cangaço

No terceiro capítulo da reportagem especial sobre os 80 anos do fim do cangaço, o professor e colaborador da Fórum, Henrique Rodrigues, conversa com pessoas, entre elas o prefeito de Serra Talhada, que contam mais sobre a história da cidade de Lampião

Museu do Cangaço, mantido pela Fundação Cabras de Lampião, Serra Talhada (PE) - Foto: Henrique Rodrigues

Por Henrique Rodrigues*

Numa manhã tórrida assisto a uma apresentação de Xaxado no pátio do Museu do Cangaço de Serra Talhada, o principal equipamento de preservação da história do movimento e que é vinculado à Fundação Cabras de Lampião.

Esta é a terceira parte de uma reportagem especial que será publicada em quatro capítulos. Confira a primeira aqui e a segunda parte aqui

O Xaxado é uma dança criada no cangaço, inicialmente apenas masculina, que era feita pelos bandos para comemorar vitórias sobre os inimigos. A cidade carrega oficialmente o título de “Capital do Xaxado”.

O responsável pelo acervo e pela visitação ao local é o historiador Karl Marx Santos Souza. Logo de início, peço para que ele dê uma definição sucinta do que foi o cangaço, já que tanta gente tenta explicar o fenômeno e acaba se embaralhando.

“O cangaço foi um movimento social, mas não se enquadra num movimento político. Não tinha essa intenção. Ele foi um resultado direto de tudo de ruim que existia no sertão naquele momento histórico, como a ausência do Estado, a desigualdade brutal e a miséria. Dessa equação, surge o cangaço. Eu sempre digo que o coronelismo é o pai, ou a mãe, do cangaço.”

Karl também ressalta que o cangaço não começou com Lampião:

“O cangaço já existia desde o século XIX, ele não surge com Lampião. Porém, sem dúvida foi Lampião quem tornou esse movimento muito mais organizado e hierarquizado, dando um caráter mais abrangente ao fenômeno social.”

Grupo de Xaxado da Fundação Cabras de Lampião – Foto: Henrique Rodrigues

De acordo com o historiador, como o cangaço teve uma forte repercussão nacional, as autoridades acabaram por dar certa atenção à região do semiárido. A guerra travada entre os bandos acabou resultando numa melhora da infraestrutura local da época.

“Curiosamente, se é que podemos dizer assim, foi o cangaço que acabou por trazer aos sertões alguns traços de desenvolvimento, como o telégrafo, a iluminação pública e as estradas, porque os bandos de cangaceiros pintavam e bordavam com as forças policiais e então era necessário trazer uma infraestrutura para região, com o intuito de facilitar a ação de combate por parte do Estado”, explica.

Justamente sobre esse combate, peço para que Karl explique o papel do regime ditatorial de Getúlio Vargas na extinção dos conflitos gerados pelos cangaceiros.

“O Estado Novo, conduzido por Getúlio Vargas, foi decisivo para aniquilar o cangaço. Ele determinou que todos os focos de conflito no território brasileiro deveriam ser sufocados, para garantir um ambiente de paz, quando na realidade o que Getúlio desejava era o controle absoluto de tudo”, conta.

Ainda no âmbito da violência no sertão, falo sobre a onda da imprensa do Sudeste de classificar como ‘Novo Cangaço’ as ações do crime organizado, ao explodirem agências bancárias e tomarem cidades inteiras com reféns em vários Estados. Karl discorda da nomenclatura e cita nominalmente as diferenças entre as duas coisas.

“Não dá pra traçar uma analogia entre o cangaço e essas ações empreendidas hoje por bandos fortemente armados ligados ao crime organizado, que vêm aterrorizando cidades do sertão. Exceto por uma coincidência geográfica, parece-me que uma coisa não tem nada a ver com a outra, diferentemente do que a imprensa vem tentando emplacar ao afirmar isso. Claro que razões sociais estavam por trás do cangaço, assim como também estão por trás do crime organizado moderno, mas as situações históricas, lá atrás e agora, são completamente diferentes.”

Como é chefiar a cidade de Lampião? 

Luciano Duque (PT) inicia o último ano de seu segundo mandato frente à prefeitura de Serra Talhada. Ele também já foi vice-prefeito por oito anos e vereador. O chefe do Executivo municipal fala sem constrangimentos a respeito de comandar a cidade que carrega o peso de ser a terra natal de Lampião, ressalta que para muita gente esse passado ainda é visto como um estigma, mas se queixa do fato desse tratamento não ser dado a todas as cidades que têm relação com o cangaço:

“Há um preconceito muito grande ainda. São fatos que dividem a sociedade e não se pode negar que Lampião é a figura mais conhecida de Serra Talhada. No entanto, se você vai a Xingó (Piranhas), a Fortaleza, a Aracajú, ou Natal, percebe que isso não ocorre por lá. A figura de Lampião é uma fonte de renda, é uma narrativa, e tudo bem”, pontua.

É perceptível que a cidade de Serra Talhada explora a figura do lendário cangaceiro, mas o fato gera controvérsias no meio político. Investir em Lampião às vezes provoca desavenças, explica o prefeito.

“Quando investimos nesse setor somos acusados de incitar a violência… Veja você, somos acusados justamente por essa direita violenta que emergiu no país. Falam que cultuamos Lampião. Sem contar o fato de que ainda muita gente nos critica por terem muito vivo na memória esses episódios do cangaço, por terem internalizado aquilo que ouvem de suas famílias. Não ocorre como em Juazeiro do Norte, com Padre Cícero, que na História também é uma figura muito polêmica, visto que foi parte de uma aliança entre cangaceiros, elites e a religião”, afirma.

O prefeito afirma também que se sente isolado nas outras esferas de poder quando o assunto é preservar a história do cangaço e de Lampião. O governo do Estado, que tem papel central na Cultura, não auxilia em nada, segundo ele.

“O governo do Estado de Pernambuco até investe em ações culturais que eventualmente possam mencionar o cangaço e Lampião, mas especificamente sobre o assunto ele sempre deu as costas. E isso não é uma coisa nova, não! Só mesmo no governo Jarbas Vasconcelos (1999-2006) é que houve uma iniciativa, com o Roteiro do Cangaço, mas para empreender nesse setor é necessário uma parceria com o Sebrae e acabou que ficou tudo no campo das ideias.”

Sobre a economia da cidade, Luciano Duque também esclarece que o município não pode ficar refém da figura de Lampião e que há outras fontes de renda que vêm sendo desenvolvidas.

“O que nós temos é uma vocação econômica comercial, de serviços. Somos um polo de saúde e de educação em toda a região. Nosso PIB dobrou de 2013 para cá e já somos o 2° maior PIB do seminário de Pernambuco, atrás apenas de Petrolina, que é uma cidade quatro vezes maior e que conta com a proximidade com o Rio São Francisco”, declara.

O secretário de Desenvolvimento e Turismo, Marcos Oliveira, que participa da entrevista, endossa as palavras do prefeito, confirma que Serra Talhada explora a figura do Rei do Cangaço, mas frisa que outros caminhos têm sido trilhados para a economia turística local.

“Sim, explora. E eu acho que deveria até explorar mais. Lampião é a figura mais conhecida de nossa cidade e isso deve ser explorado, o que não significa que não tenhamos que buscar uma diversificação econômica, criando novas fontes de renda, como o turismo ecológico e de negócios. Aliás, essa é nossa prioridade agora.”

Pergunto, sem rodeios, se a figura de Lampião é rentável. O secretário responde sem titubear.

“Dá pra dizer que a figura dele é rentável, é óbvio. Você pega um espetáculo como o ‘Massacre do Angico’, encenado pelo pessoal da Fundação (Cabras de Lampião)… Aquilo junta cinco mil pessoas por noite de apresentação, gente de todo o Brasil.”

Finalizo a entrevista com o prefeito Luciano Duque pedindo para que ele diga se há alguma semelhança entre aquela Serra Talhada dos tempos em que bandos de cangaceiros vagavam pela região e a Serra Talhada de sua gestão.

“Não. É totalmente diferente. O que eu posso dizer é que até uns 40 anos atrás parte das pessoas ainda reproduzia a violência vista no cangaço. Mas agora temos novas gerações, foram décadas de educação. Conseguimos produzir massa cinzenta, por meio da educação. Nos últimos anos, nos governos Lula e Dilma, por exemplo, recebemos as instituições federais de ensino. As coisas mudaram completamente.”

*Henrique Rodrigues é professor de Literatura Brasileira e jornalista 

Esta é a terceira parte de uma reportagem especial que será publicada em quatro capítulos. Confira a primeira aqui e a segunda parte aqui


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