“Decisão de gabinete”: Professores criticam plano de volta às aulas presenciais no Rio

A Fórum recebeu relatos de profissionais de educação e da vereadora Thais Ferreira, que compõe a comissão da Câmara Municipal que acompanha o plano de retomada do ensino presencial na capital carioca

Desde que assumiu a Prefeitura do Rio de Janeiro, no início de janeiro, o prefeito Eduardo Paes (DEM) tem expressado seu desejo de acelerar a volta às aulas presenciais na capital carioca. No entanto, esse anseio esbarra na própria estrutura de algumas unidades de ensino municipais, que precisariam de adaptação para um momento pandêmico para garantir a segurança sanitária dos profissionais de educação, dos estudantes e dos responsáveis desses alunos.

No plano do secretário de Educação, Renan Ferreirinha (PSB), a expectativa é pelo retorno da pré-escola e do 1º e 2º ano do ensino fundamental já no fim de fevereiro. Entre março e abril voltariam os demais níveis do fundamental e creches.

A Secretaria de Educação prevê neste tempo realizar “manutenção e reparos nas Unidades Escolares”, “adaptação dos espaços físicos das Unidades Escolares de acordo com o Protocolo Sanitário” e “aquisição de insumos e materiais de proteção como máscaras, álcool em gel e termômetros”. Mesmo assim, o plano tem sido criticado.

Críticas de professores

A Fórum conversou com duas profissionais de educação que atuam em unidades de pontos distintos da cidade: Botafogo, na Zona Sul, e Realengo, na Zona Oeste. As duas apontaram inconsistências no plano da Prefeitura.

Para Fátima*, que atua em uma unidade de Botafogo, é preciso “colocar na mesa os problemas”. “É necessário que a escola volte a funcionar. Sou a favor da volta mas não deste jeito. Decisão de gabinete”, disse à Fórum.

“São vários problemas que temos. Nossa escola tem porta sabonete colocado e porta toalha mas nunca teve sabonete e nem toalha. Algumas salas estão com as janelas lacradas. Não tem ventilação cruzada”, detalhou.

A professora então dá um exemplo: “Já fazíamos um trabalho de consciência ambiental para trazerem sua garrafinha de casa. Era uma luta. Várias vezes vimos eles colocando a boca na torneira do filtro. Tem que ter gente o tempo todo atrás para estes hábitos”.

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Fátima ainda aponta que “quase todos os profissionais moram com pessoas em casa por volta de sessenta e setenta anos”, além de “professores diabéticos, obesos, com asma e assim vai”. “Sem a vacinação geral acho muito difícil a volta”, declarou.

Ela também entende que um modelo de rodízio vai ser insuficiente: “Rodízio não funcionará. As mães vão ficar na esquina e mandar a criança pra entrar e sair correndo. Nós vamos receber a criança, mesmo ligando para elas. Não atenderão ao telefone. Será um depósito. Várias vezes ficamos com crianças com febre. Improvisando cama e ficando com ela até o horário da saída”.

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“Lucas, a escola tem vários defeitos. Professores chatos, mal humorados e um monte de coisas. Mas é a melhor opção. Acho que as autoridades não conhecem ou esqueceram como é uma escola e o papel do professor. Professor é afeto, abraço, carinho. Eu não consigo deixar uma criança sem um carinho, sem passar a mão na cabecinha. Professor não é só conteúdo. É muito amor envolvido. Mas com VACINA para todos”, finalizou.

A professora da escola de Realengo*, que preferiu não se identificar, apontou à Fórum que o plano não contempla a unidade em que ela trabalha e cita os problemas com banheiros, com o refeitório, além das janelas.

“O plano de retorno não contempla minha escola. As torneiras e descargas no banheiro das crianças não funcionam direito. Só há dois banheiro (feminino e masculino) para todos os alunos. A unidade possui mais banheiros de uso dos alunos porém ou estão desativados ou foram vandalizados (por pessoa de fora, invasores) e por isso interditados. Para os adultos só há um banheiro”, declarou.

“Nosso refeitório não tem torneiras para os alunos lavar as mãos. Aliás só há uma torneira (fica no pátio e é num local que não tem condições de higienização) em que os alunos podem lavar as mãos. As turmas de educação infantil não tem uma sala com torneira para que possam levar as mãos após almoço, lanche e até mesmo as atividades”, prosseguiu.

O calor do bairro também foi destacado pela profissional de educação: “Nosso bairro é muito quente e as janelas são do tipo basculante. Se liga o ventilador, o professor não consegue falar num tom razoável. Se não liga, o calor fica insuportável. Não há funcionários suficientes pra supervisionar o trânsito de alunos pela escola. Organizar a entrada, idas ao banheiro e a saída. Quem irá servir o lanche/almoço nas salas de aula?”, disse ainda.

Apesar das críticas ao plano, a professora elogia os esforços da diretoria da unidade para tentar melhorar a escola. “Creio que ela faz a parte dela, consegue com a verba que recebe resolver algumas coisas, mas não tudo. Até porque a escola é antiga, tem muita coisa pra fazer. Principalmente pelo fato de que sofremos constantemente com dois problemas (para além dos estruturais): enchentes (toda vez que chove muito forte a escola inunda em alguma proporção) e vandalismo (a escola sofre invasão quase sempre nas férias ou feriados prolongados)”, finaliza.

Comissão de fiscalização

Para fiscalizar o planejamento da volta às aulas, a Câmara Municipal do Rio formou uma comissão de representação com 14 vereadores para debater a proposta da Prefeitura e vistoriar escolas. Foram mais de 20 unidades de ensino visitadas pelo grupo de parlamentares e muitos problemas constatados.

Para a vereadora Thais Ferreira (PSOL), que participou de mais da metade destas vistorias, o plano “não garante a segurança dos profissionais da educação e da comunidade de pais e alunos”.

“A prefeitura fala em redução da lotação, salas com distanciamento; mas nas unidades que visitamos enquanto membros da Comissão de Volta às Aulas, da Câmara de Vereadores, por exemplo, nós encontramos até escolas com janelas vedadas para climatização. Ou seja, não existe sequer a circulação do ar, que seria a medida mais simples para diminuir o risco de contágio pelo coronavírus”, disse à Fórum.

A vereadora aponta que a prioridade tem que ser a “vacinação ampla e irrestrita” por se tratar da única medida eficaz contra a pandemia e defende que os professores sejam imunizados logo para um retorno mais seguro.

“Sabemos que as escolas fechadas pesam muito para a educação dos alunos e os responsáveis, especialmente para as mulheres mães. Então, estamos defendendo a inclusão dos profissionais da educação nas faixas de prioridade da vacinação, com o objetivo de acelerar esse retorno, que nós compreendemos como muito necessário”, disse Ferreira.

Segundo a parlamentar, medidas específicas para os alunos com deficiência ou para as profissionais que estejam gestantes e/ou lactantes não estão previstas no plano, o que fez com que ela enviasse um questionamento à Secretaria.

Além de Thais, compõem a comissão Márcio Santos (PTB), Vitor Hugo (MDB), Waldir Brazão (Avante), Tarcísio Motta (PSOL), Dr. Jairinho (SD), Reimont (PT), Pedro Duarte (Novo), Welington Dias (PDT), Chico Alencar (PSOL), Marcos Braz (PL), Átila A. Nunes (DEM), Tânia Bastos (Republicanos) e Marcelo Arar (PTB).

Thais Ferreira (esquerda) durante visita a uma unidade escolar do Rio de Janeiro | Foto: Divulgação

Outro lado

A Fórum entrou em contato com a Secretaria Municipal de Educação (SME), que negou as informações. “Todas as escolas estão contempladas e todos os representantes da comunidade escolar foram ouvidos para as definições sobre a retomada das aulas”, disse.

“O atual secretário Renan Ferreirinha já debateu o tema com os coordenadores das 11 Coordenadorias Regionais de Educação (CRE) e está vistando todas as sedes de CRE e escolas próximas delas. Além disso, todos diretores de escolas receberam questionários para informar como estão as condições de suas escolas. E mais: o plano foi apresentado presencialmente aos 11 coordenadores de CRE e, por meio de reunião virtual, aos diretores e professores. Umas das marcas desta gestão são a escuta ativa e o diálogo com a rede”, afirmou a SME.

* A professora Fátima autorizou o uso de seu nome na reportagem, mas optamos por manter a unidade em que ela trabalha e seu sobrenome em sigilo para evitar represálias; com a professora da escola de Realengo também evitamos mencionar a unidade pelo mesmo motivo

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Lucas Rocha

Lucas Rocha é formado em jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ e cursa mestrado em Políticas Públicas na FLACSO Brasil. Carioca, apaixonado por carnaval e pela América Latina, é repórter da sucursal do Rio de Janeiro da Revista Fórum e apresentador do programa Fórum Global

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