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21 de agosto de 2019, 11h38

Depressivo, rapaz que sequestrou ônibus disse aos pais que iria acabar com a própria vida

Em um churrasco de família, Willian teria desabafado sobre estar se sentindo deprimido e que ouvia "vozes dentro da cabeça"; Depois desse dia, fechou-se no celular e passou a beber muito

Foto: Reprodução/TV Globo

“Eu só quero entrar para a história”,  disse Willian Augusto da Silva, enquanto acalmava os 39 reféns do ônibus que sequestrou na manhã desta terça-feira (20). O jovem, de apenas 20 anos, deixou que cada passageiro usasse o celular para avisar a família que estava tudo bem, dizendo que aquilo não era um assalto. Chegou a negociar água com a polícia para tranquilizar as pessoas que lá estavam. Apesar da barbárie e do espetáculo de quem celebra a morte, por trás do “sequestrador” havia um jovem solitário, de poucos amigos, e que enfrentava problemas depressivos sem acompanhamento médico.

Uma das passageiras, a recepcionista Rafaela Gama, disse que uma das primeiras perguntas de Willian ao entrar no coletivo, por volta das 5 horas da manhã, foi se alguém conhecia o “ônibus 174”, pois desejava fazer algo parecido. Em junho de 2000, Sandro Barbosa do Nascimento fez reféns durante quase cinco horas dentro de um ônibus na linha 174, no Rio – ele também foi assassinado. O caso rendeu um documentário, “Ônibus 174”, de 2002, e um filme ficcional, “Última Parada 174”, de 2008. O episódio ficou conhecido também pela grande cobertura midiática que recebeu, principalmente dos momentos de negociação entre a polícia e Sandro.

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Assim como no episódio do 174, Willian estava atento à repercussão do sequestro, acompanhando pela televisão do coletivo o movimento que se fazia do lado de fora. No rádio, ele perguntava aos policiais “em que altura estava o engarrafamento” e pedia para que não machucassem os reféns. Levava consigo uma mochila, onde carregava o material que usaria durante o sequestro: a réplica de uma pistola, uma arma de choque, garrafas PET com gasolina, barbante, um isqueiro e um livro, “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio”, de Charles Bukowski.

A solidão e a mudança de comportamento de Willian, meses antes do episódio do ônibus, chamou a atenção dos familiares. Apesar de estar matriculado na escola, o jovem não frequentava as aulas e tampouco tinha amigos conhecidos pela família. Até que, durante um churrasco entre parentes, Willian teria desabafado sobre estar se sentindo deprimido e que ouvia “vozes dentro da cabeça”. Depois desse dia, fechou-se no celular e passou a beber muito.

Willian Augusto da Silva – Foto: Reprodução

Mensagem

A mãe, cuidadora de idosos, e o pai, padeiro – a quem Willian ajudava no serviço – disseram que o garoto nunca chegou a tratar a depressão. Na noite anterior à sua morte, ele mandou uma mensagem aos pais dizendo que acabaria com a própria vida, como alguém que já sabia e esperava o pior dos desdobramentos.

“Meu primo era um ótimo filho”, disse Alexandre, primo de Willian, totalmente surpreso com o ocorrido. “Minha família é estruturada. Mas infelizmente meu coração é um, o dele é outro. Minha mente é uma, a dele é outra. A minha família é de laços familiares bons. Meu primo não teve proximidade com nada ruim. Ele era bandido? Talvez só tenha se tornado um agora”, lamentou. “Pedir desculpas é o que minha família pode fazer agora”, completa.

O comandante do Bope, tenente-coronel Maurílio Nunes, disse que a decisão de atirar foi tomada depois que Willian parou de se comunicar com os policiais. “Ele não queria praticar um assalto, isso ficou claro desde o começo. Tinha a intenção de fazer algo grande, de ferir pessoas ou cometer suicídio”, afirmou o oficial. De fato, a intenção de Willian, como ele mesmo anunciou, era de entrar para a história.


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