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27 de dezembro de 2018, 15h29

“Desbolsonário de Bolso”: um dicionário para entender o Brasil atual

As filósofas Luisa Buarque e Marcia Sá Cavalcante Schuback explicam os principais termos que surgiram recentemente com Bolsonaro, como as expressões "cidadão de bem", "vai para Cuba" e "sem partido"

Acaba de ser lançado nas redes pela Edições Clandestina o dicionário “Desbolsonário de bolso”, das filósofas Luisa Buarque e Marcia Sá Cavalcante Schuback, com projeto gráfico de Brigita Gelžinytė. São quase 50 páginas de verbetes que surgiram recentemente no país, como Olavismo, e expressões como “cidadão de bem”, “vai para Cuba” e “sem partido”.

“Certo dia, em plena campanha presidencial de 2018, fomos tomadas de surpresa pela constatação de que já não compreendíamos parte do português do Brasil. A linguagem parecia ter entrado em pane”, explicam as autoras. “Era preciso, com urgência, encontrar um instrumento que nos auxiliasse no trabalho de comunicação com nossos conterrâneos. E também no trabalho de tradução de um glossário bem específico para aqueles que, como nós, sentiam-se perdidos diante de termos e significados forjados tão repentinamente em bocas, cabeças, mídias, redes e meios de comunicação contemporâneos.”

“Oxalá ele possa contribuir para desfazer a confusão dos sentidos, e assim dar lugar em nossas vidas para mais clareza sobre o que está acontecendo. E quem sabe, finalmente, abrir espaço para caber também ‘um pequeno sol no bolso’, como diz o poeta Paulo Britto”, afirmam Luisa e Marcia.

Confira alguns verbetes abaixo e baixe o seu dicionário aqui

CIDADÃO DE BEM. 1. Todo brasileiro macho que ganhe acima de dez salários mínimos, desde que não seja homossexual – ao menos não abertamente -, nem muito negro, nem tenha sido pego pela operação ‘lava-jato’ (cf. verbete ‘Lava-jato’ ). A expressão, como está claro, pressupõe que qualquer pessoa que saia do padrão descrito acima seja um ‘cidadão do mal’. Moradores de favelas estão, por definição, excluídos do grupo dos assim denominados. 2. Morador de bairros caros de todas as cidades grandes do Brasil, pagador dos IPTU’s mais altos e, consequentemente, pessoa que se acha no direito de fazer qualquer coisa no e com o espaço coletivo, pois se vê como dona dele, e sempre capaz de expulsar qualquer um da sua área, bem como de exigir o que quiser do poder público. 3. Pessoa que confunde o público com o privado; pessoa que toma posse do ‘nosso’, porque o ‘nosso’ é seu, uma vez que foi devidamente comprado – e bem caro. 4. Segundo a linguista Helena Martins, acrescenta-se a esse sentido uma nuança, que se refere ao homem de ‘não é bem assim’. Ao discutir com simpatizantes do bolsonarismo sobre o risco de eleger um candidato que defende torturas hediondas, a violência violadora de todos os direitos e, sobretudo, do direito de ser humano, muitos reagiram dizendo: “mas não é bem assim”, “isso é só retórica para ganhar as eleições”, “você vai ver que não é bem isso que ele quis dizer”. Assim, surgiu um novo tipo do cidadão: o “cidadão de não é bem assim”, que diz igualmente um “não é bem assim ser cidadão”. E que, paradoxalmente, torce para que o seu candidato não faça o que prometeu.

IDEOLOGIA DE GÊNERO. 1. Expressão inexistente no léxico das Ciências Sociais e dos estudos de gênero. Locução genérica que designa qualquer coisa que aborde minimamente problemas ligados à discriminação de gênero ou questões ligadas à comunidade LGBT. 2. Fórmula criada por bolsonaristas que mostra o gênero de ideologia do bolsonarismo (cf. verbete ‘Sem partido’).

LEI ROUANET. 1. Nome de lei para incentivo à cultura usado por bolsonaristas para taxar o artista de “inimigo do povo”, fazendo uso do título de uma peça do dramaturg norueguês Henrik Ibsen, ainda inteiramente desconhecido do público bolsonarista. 2. Falta de entendimento do que seja uma lei. Lei não dá dinheiro; lei de incentivo à cultura isenta empresas de certos impostos para que estas repassem a verba para atividades culturais de qualidade, que estas, as empresas, escolhem como adequadas às suas estratégias comerciais. Como empresas aproveitam-se da lei para benefícios próprios, acabam preferindo a carta segura dos consagrados ao risco do desconhecido. Mas não é essa a crítica dos bolsonaristas à referida lei. Pois, como os bolsonaristas consideram que empresas e seus fins lucrativos são a única lei a ser incentivada no país, decidiram acusar de fraude a lei que defende a cultura e não o lucro imediato. 3. Experimento usado na campanha eleitoral de virar a lei contra a lei, com vistas a aplicar essa “viração” legal ao maior número de leis possíveis durante os próximos anos.

MARXISMO CULTURAL. 1. Expressão para designar uma nova mistura de alhos com bugalhos. 2. Confusão mental pela qual se considera que a crítica às injustiças sociais e econômicas exacerbadas pela globalização é por definição marxista. Como o bolsonarismo se vê como grande crítico da globalização e inimigo do marxismo, o uso da expressão “marxismo cultural” mostra a ignorância da lei básica da lógica, que é a lei da não-contradição. É que, para ser coerente, o bolsonarismo deveria considerar a si mesmo um marxismo, por ser crítico à globalização, o que ademais talvez justifique o uso de barba à la Karl Marx pelo ministro bolsonarista das relações exteriores. 3. Xingamento usado por bolsonaristas para atacar toda crítica ao establishment que não seja feita para expandir as leis do establishment. 4. Expressão utilizada para rechaçar toda sorte de liberalismo, com exceção do liberalismo econômico, que é a única liberdade que os bolsonaristas aceitam. Trocando novamente em miúdos: bolsonaristas querem ser livres apenas para comprar tênis novos, para frequentar qualquer shopping que desejem, para explorar empregados o quanto quiserem (afinal, os empregados são “seus”). E quem não for livre – leia-se, rico – o suficiente, é porque não teve mérito ou talento, portanto, que se dane. Qualquer outra concepção de liberdade é, evidentemente, marxismo cultural.


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