Dieese: patamar dos preços de alimentos mudou e não deve voltar aos do início de 2020

Cesta básica pesquisada pelo órgão subiu até 33% no ano passado e consome maior fatia do salário mínimo em 12 anos

Sabe aquele pacote de 5 kg de arroz a menos de R$ 20 ou garrafa de óleo de soja a menos de R$ 4 que você pagava no início de 2020? Pode esquecer desses valores. O aumento de preços desses produtos básicos registrado ao longo do ano passado não foi sazonal. Ele veio para ficar.

A avaliação é da economista Patrícia Lino Costa, supervisora de Pesquisas do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese). “Houve uma mudança de patamar de preços, não tem volta”, afirmou à Fórum. No máximo, segundo a economista, os valores podem se reduzir um pouco, mas sempre em percentuais menores do que os de aumentos já registrados. E não é só no arroz e no óleo de soja: carne bovina, leite e derivados passam pelo mesmo processo.

Patrícia faz a análise embasada no que a pesquisa dos preços da cesta básica do departamento mostrou. Ao longo de 2020, os valores do conjunto de alimentos necessário para as refeições de uma pessoa adulta ao longo de um mês subiram em todas as 17 capitais pesquisadas. A variação foi de 17,76% em Curitiba – menor taxa – a 32,89% em Salvador – maior índice encontrado.

Em São Paulo, onde a coleta de preços se manteve presencial, a cesta teve o maior valor do país: R$ 631,46 em dezembro, alta de 24,67% no ano.

Essa quantia representou, ainda, 53,45% do valor do salário mínimo, maior fatia desde 2008, quando o trabalhador usou 57,68% do piso nacional para adquirir a cesta.

Maiores aumentos

Os maiores aumentos do ano foram constatados pelo Dieese no óleo de soja – cujo valor mais que dobrou em 14 das 17 cidades pesquisadas -, no arroz, que subiu até 90%, e a carne bovina, especialmente a de primeira.

“A alta tem a ver com a oferta desses produtos. Existe um problema de oferta que penaliza os trabalhadores”, afirmou a economista. “O Brasil vem exportando muito, uma grande parte da nossa produção, a taxa de câmbio é favorável à exportação”, afirmou. Além disso, Patrícia citou fatores climáticos. “Períodos grandes de seca, depois muita chuva, depois muito calor. Para o produtor do campo, não é bom.”

A carne bovina foi mencionada pela economista com um produto cujo preço vem subindo há alguns anos, mas que teve um salto de quase 25% em 2020, em São Paulo. “Vimos batendo recordes de exportação de carne, o preço vem subindo, fica inacessível ao consumidor, que vem buscando alternativas.”

No caso do arroz, destaque da pandemia, Patrícia explicou que triplicou o volume exportado a partir de maio, sem um estoque regulador interno para manter o preço ao consumidor.

Outro segmento que a economista destacou foi de laticínios, a começar do próprio leite UHT, cujo preço também subiu em 2020 em todas as capitais que fazem parte da pesquisa do Dieese, disparando 31% em São Paulo. “Há um problema na cadeia do leite, cujo preço vem aumentando além do período de entressafra. As indústrias de laticínios disputam o leite com o mercado. Mas elas sabem que tem limite o aumento de preço, um limite no que o consumidor vai pagar, por isso seguram um pouco”, finalizou.

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Fabíola Salani

Graduada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalhou por mais de 20 anos na Folha de S. Paulo e no Metro Jornal, cobrindo cidades, economia, mobilidade, meio ambiente e política.

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Renato Rovai
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