Diretor da Prevent Senior não conseguiu rebater denúncias, diz Alexandre Padilha

Segundo o deputado e ex-ministro da Saúde, caso ficará para a história como "um dos maiores escândalos éticos desde a 2ª Guerra Mundial"

Pedro Benedito Batista Júnior, diretor-executivo da Prevent Senior, não conseguiu rebater as denúncias apuradas pela CPI do Genocídio, durante seu depoimento à comissão nesta quarta-feira (22), que tratam sobre o “estudo” feito com medicamentos sem eficácia contra a Covid em pacientes associados à operadora de saúde.

A opinião é do deputado federal e ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha (PT-SP). Em entrevista à Fórum, o parlamentar classificou o caso como “o maior escândalo ético e médico da histórica da medicina brasileira”.

“Provavelmente ficará na história da bioética e da medicina como um dos maiores escândalos éticos depois da 2ª Guerra Mundial”, avalia.

Denúncias

Dossiê feito pela CPI do Genocídio com base em denúncias feitos por médicos que trabalhavam junto à operadora de Saúde dá conta de que a Prevent Senior teria ocultado mortes de pacientes com e sem o diagnóstico de Covid-19 que participaram de estudos sem base científica feitos para apontar uma suposta eficácia dos remédios do “kit covid”, como a hidroxicloroquina e a azitromicina.

O experimento, que tem sido comparado a práticas nazistas, foi realizado no início da pandemia do coronavírus, no ano passado, e não obteve autorização do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

As informações levantadas pelos senadores da CPI são aterradoras: a empresa teria ocultado 7 das 9 mortes de pacientes que foram submetidos ao experimento e há relatos de familiares de algumas dessas pessoas de que o plano de saúde não as informou sobre o procedimento que estava sendo adotado.

Além disso, um dos pacientes submetidos ao estudo que morreu, segundo a família, tinha problemas cardíacos e era hipertenso, fatores que impediriam a administração da cloroquina por conta de seus efeitos colaterais.

E não para por aí. Para comprovar a “eficácia” do protocolo com remédios inúteis para tratar a Covid, a Prevent Senior teria alterado prontuários médicos, como foi o caso da mãe do empresário Luciano Hang, que morreu de Covid após ter sido submetida a tratamento com o “kit Covid”. Além disso, médicos denunciam que eram obrigados por superiores a prescreverem esses medicamentos.

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“Estudo” não autorizado

Segundo Padilha, em abril de 2020 ele já havia denunciado que o Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) determinou a suspensão do “estudo” da Prevent Senior. “Exatamente porque estavam sendo divulgados resultados sem nunca o estudo ter sido aprovado”, conta.

“Em nenhum momento o diretor da Prevent Senior conseguiu mostrar que o chamado estudo e os resultados que ele divulgou tivesse passado pelos ritos éticos que qualquer pesquisa tem que passar no Brasil, sobretudo quando envolve seres humanos, intervenção com medicamentos e divulgação de dados”, pontua o deputado.

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O ex-ministro da Saúde afirma que o estudo ilegal deveria levar a três situações: descredenciamento do comitê de ética dos hospitais da Prevent Senior que realizaram o experimento; apuração, por parte do Conep, Conselho Regional de Medicina (CRM) e Conselho Federal de Medicina (CFM), de envolvimento de profissionais na condução deste estudo, no âmbito de um processo ético; e descredenciamento definitivo da empresa por parte da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

“Por ter se aproveitado do direito de ser uma operadora de saúde, ter hospitais, para fazer uma grave infração ética, um estudo experimental sem padrão ético e sem consentimento das pessoas”, explica o petista.

Aprofundar investigações

Padilha avalia que, diante do fato do diretor da Prevent Senior não ter conseguido rebater as denúncias apresentadas pelos senadores, a CPI agora tem ainda mais condições de aprofundar as investigações sobre o caso.

“A CPI, a partir da denúncia que recebeu de médicos e a partir do depoimento do diretor que não conseguiu rebater essa denúncia, tem todas as condições de aprofundar as investigações para reunir todas as provas: solicitar manuais, orientações feitas pelos diretores, por quem conduziu o estudo junto aos profissionais de saúde, solicitar quebra de sigilo telefônico troca de mensagens e revisão de prontuários”, aponta.

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Ivan Longo

Jornalista, editor de Política, desde 2014 na revista Fórum. Formado pela Faculdade Cásper Líbero (SP). Twitter @ivanlongo_