O que o brasileiro pensa?
06 de fevereiro de 2020, 21h42

Doria troca ouvidor após relatório mostrar aumento da letalidade policial

É a primeira vez em 25 anos que o primeiro nome da lista tríplice não é o escolhido pelo governador

Reprodução

Por Nara Lacerda, no Brasil de Fato

O governador de São Paulo João Doria decidiu mudar o ouvidor das polícias do estado e não reconduziu o sociólogo Benedito Mariano ao cargo. Mariano foi o mais votado da listra tríplice apresentada pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe).

Ele deixa o cargo no mesmo dia em que foi feita a divulgação de um relatório que aponta aumento de 98% nas mortes causadas por policiais da Rota, força de elite da PM paulista. A letalidade da Polícia Militar subiu 11,5% entre 2018 e 2019. Segundo o documento, nesse mesmo período a PM foi responsável por 95% das mortes de civis.

Benedito Mariano ficou conhecido por sua atuação combativa e pelas críticas à violência policial. Por várias vezes ele afirmou que era preciso mudar os protocolos de atuação e fez alertas sobre o aumento dos casos de morte de civis em ações da PM.

Após a ação da Polícia Militar em um baile funk no bairro de Paraisópolis, que resultou na morte de nove jovens, a ouvidoria pediu afastamento dos policiais envolvidos. Na ocasião foram divulgados vídeos gravados pela comunidade que mostram policiais acuando e espancando jovens em becos e vielas.

O caso mobilizou organizações de direitos humanos nacionalmente e as reações da ouvidoria mexeram com os ânimos de políticos ligados às forças policiais. O líder do governo na Assembleia Legislativa do estado, Carlão Pignatari (PSDB-SP), chegou a chamar Mariano de “mau-caráter”.

O afastamento do ouvidor é visto como uma resposta de Doria à pressão de aliados e também como um recado. Segundo Ariel de Castro, advogado, conselheiro do Condepe e membro do Grupo Tortura Nunca Mais, o governador deixa claro que ouvidores atuantes não serão reconduzidos.

“Temos que lamentar a decisão do governador João Dória de não reconduzir o ouvidor de polícia Benedito Mariano. Ele foi o mais votado numa lista tríplice escolhida pelo Condepe. Certamente a atuação combativa do ouvidor diante da crescente violência policial, denunciando casos de abuso, de mortes, acabou influenciando a decisão do governador. Nesse caso o governador passa um recado para os ouvidores: quem for combativo, quem for atuante, quem estiver denunciando situações de violência policial não será conduzido. Na verdade é uma retaliação, até porque o ouvidor tem denunciado uma política de extermínio nas periferias”, afirma Castro.

Novo ouvidor 

João Doria escolheu para substituir Mariano no cargo de ouvidor, o advogado Elizeu Soares Lopes, ativista contra o racismo e ligado ao PC do B. Ele já foi funcionário do gabinete da deputadas estadual Leci Brandão, (PC do B) e secretário-adjunto da Secretaria Municipal de Promoção de Igualdade Racial da gestão de Fernando Haddad (PT).

Ele foi o terceiro colocado na lista tríplice, com  5 votos. Em segundo lugar na lista estava Cheila Olalla, militante pelos direitos humanos no sistema prisional. É a primeira vez em 25 anos que o primeiro nome da lista não é o escolhido pelo governador.

 

Notícias relacionadas


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum