terça-feira, 22 set 2020
Publicidade

Ela só cuidava do cachorros, diz ex-executiva da Avon acusada de trabalho escravo em SP

Demitida sumariamente da Avon após ser acusada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) de manter uma senhora de 61 anos em condições análogas à escravidão em sua casa no Alto de Pinheiro, bairro nobre da zona oeste de São Paulo, Mariah Corazza Üstündag, de 29 anos, disse que acredita que a situação foi “forjada”, que conhecia a mulher desde criança e que ela apenas cuidava de seus cachorros, serviço pelo qual ela pagava R$ 400 mensais, em duas parcelas.

Relembre o caso: Idosa é resgatada de trabalho escravo em casa no Alto dos Pinheiros em SP

“Depois que deixou de ser diarista da minha mãe, a Neide nunca mais foi diarista na minha casa. O único serviço que prestou para mim foi cuidar dos cachorros. Eu pagava R$ 400, em duas vezes. Até onde eu sei, esse valor está dentro do razoável”, disse em entrevista à Mônica Bergamo, na edição deste domingo (26) da Folha de S.Paulo.

Na entrevista, Mariah, que é filha de Sonia Corazza, engenheira química muito conhecida entre empresas de cosméticos, conta que conhecia Neide desde os 7 anos, quando ela passou a trabalhar como diarista para a mãe e para a avó, Nilde.

Segundo a executiva, a mulher foi abrigada pela avó – que não cobrava um centavo de aluguel – depois que a moradia que ela alugava com várias amigas foi interditada pela Defesa Civil.

“A ideia é que fosse uma coisa temporária. Mas a Neide ficou morando lá por cinco anos, de 2012 a 2017. A minha avó nunca cobrou um centavo de aluguel, nada. Porque gostava muito dela e realmente queria ajudá-la”, diz.

Em 2016, a avó teria vendido a casa e Neide ficou novamente sem ter lugar para morar. “Acabei ficando com dó. E me solidarizei com a Neide. Conversei com ela e disse ‘tem o quartinho’. Ofereci para ela colocar as coisas lá, pelo menos temporariamente. Ela aceitou prontamente”.

Mariah afirma no entanto, que imaginava que Neide só usava o quartinho para deixar as coisas dela e “que dormia, fazia as coisas pessoais” em uma habitação coletiva que havia próximo dali.

Ela diz que nessa época já morava com o marido na casa e que Neide não trabalhava como diarista para ela, apenas cuidava dos cachorros, serviço pela qual era remunerada.

“Eventualmente eu via que ela lavou uma louça, chegou até a passar uma camisa do meu marido para ajudá-lo. Sabe aquela coisa? Ela tá passando [na cozinha], viu que tinha uma louça, acabou lavando. Mas foi voluntário. Nunca foi pedido nada para ela. Eu achava que era assim: poxa, já que eu estava ajudando ela, deixando ela morar lá, ela fez para me agradecer. Eu nunca pedi que fizesse. A única coisa que eu pedi foi para ela passear, cuidar dos cachorros, [serviço] pelo qual eu pagava”.

Sobre a versão da mulher, que diz que não podia nem mesmo usar o banheiro, ela acredita que a história foi forjada.

“Na minha casa tinha um banheiro na lavanderia. Nunca vi ela usando. Mas ela tinha a chave. Poderia ter usado. Não tinha por que fazer as necessidades em um balde. Então me parece que essa é uma história um pouco forjada, um pouco manipulada”.

Demissão
Mariah conta que a primeira preocupação que teve quando foi presa pelo Ministério Público do Trabalho – e solta, em seguida, após pagar fiança de R$ 2.100 – foi tirar sua conta do Linkedin, rede social profissional, do ar.

“Meu primeiro pensamento foi tirar o Linkedin para não ligarem meu nome à empresa [Avon, onde trabalhava há três anos]. Tentei proteger a empresa, mas ela não se preocupou comigo. Publicaram no Instagram que fui demitida, e isso deu margem para mais ataques. Não deixaram eu contar o meu lado”, diz ela, indagando em seguida: “Assim, na boa, quem vai me empregar hoje?”.

Redação
Redação
Direto da Redação da Revista Fórum.