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13 de fevereiro de 2019, 22h43

“Eles já sabiam do risco”, diz agricultora de Brumadinho que recebeu visita de técnicos da Vale em novembro

Hoje, Soraia, que teve sua horta destruída, luta para que a família dela e outros produtores da região recebam compensação da Vale para as perdas.

(Foto: Najara Araujo/Câmara dos Deputados)

A agricultora Soraia Aparecida Campos Nunes, 40 anos, moradora do Parque das Cachoeiras, um bairro rural na cidade de Brumadinho, Minas Gerais, estava na cozinha de casa quando recebeu uma ligação do filho de 15 anos. “Mãe, liga para o tio. Liga para o Maguim.”

O menino descia para a horta da família, situada em um terreno mais baixo do que a casa, para render o pai no trabalho a fim de que ele pudesse almoçar, quando viu a lama se aproximando. Por sorte, ninguém se feriu. Mas a horta foi destruída e a família perdeu a fonte da qual tirava o sustento há 20 anos.

Hoje, Soraia, membro do conselho fiscal do Sindicato Rural de Brumadinho e representante da Associação de Moradores do Parque das Cachoeiras, luta para que a família dela e outros agricultores da região recebam compensação da Vale para as perdas.

Durante uma visita à Câmara dos Deputados em que cobrou dos parlamentares justiça para os atingidos, ela conversou com a Fórum e relatou seu drama e o de outros moradores.

Onde você estava quando aconteceu o rompimento da barragem?

Eu estava em casa, mexendo com almoço. Meu filho estava descendo para o meu marido almoçar. Eu moro no alto e minha horta fica embaixo. Aí meu filho viu [a lama vindo] e me ligou desesperado. Meu filho de 15 anos. Ele gritava para avisar as outras hortas. “Mãe, liga para o tio. Liga para o Maguim”, que é primo.

Alguém da família, ou algum conhecido, está entre os mortos e feridos?

Dos agricultores mesmo, foi só um que a lama levou e depois foi resgatado com vida. Foi o filho de um agricultor. A maioria dos mortos foram trabalhadores da Vale.

Depois de Mariana, alguém tinha medo ou falava da possibilidade de a barragem romper?

Em novembro, eles visitaram nossa propriedade. Os técnicos da Vale. Eles visitaram nossa propriedade perguntando se teríamos uma rota de fuga caso a barragem rompesse. Perguntamos se existia esse risco. Disseram que não, que era uma medida preventiva. Mas com certeza eles já sabiam.

Você disse que a Vale que não está atendendo às reivindicações dos moradores …

Nós, produtores rurais, pegamos dinheiro do banco para podermos trabalhar. A vale quer doar R$ 15 mil para cada produtor. Eu, a minha dívida é de R$ 32 mil. Tem produtores que é R$ 150 mil, que se endividaram para comprar trator, caminhão. Eu digo para a Vale que R$ 15 mil não resolve nosso problema. A gente quer que essas dívidas sejam quitadas.

O que a empresa diz, quando vocês apresentam essas reivindicações?

Que está em análise. Só análise, análise.

Onde você e a família estão morando? Como estão se sustentando?

Eu moro no Parque das Cachoeiras. Eu não fui afetada, porque minha casa é alta. Mas tem gente morando em hotéis, pousadas. Nós queremos [que a Vale pague] aluguel [para os afetados], porque como faz, com a volta às aulas, tendo as crianças em um hotel? A gente não tem sustento. Somos dependentes de doação. Doação de água, comida, tanto de ONGs quanto da prefeitura.


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