Fila para comprar ossos e restos de carne em Petrópolis (RJ) viraliza nas redes

Imagem de moradores da cidade imperial, em situação econômica difícil, organizados ao lado de um caminhão para garantir as sobras dos cortes bovinos é mais um capítulo da miséria crescente do Brasil de Bolsonaro

Sonia Cupido, uma auxiliar de contabilidade que mora em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, flagrou da janela de seu apartamento uma fila formada ao lado de um caminhão frigorífico, próximo de um supermercado, na qual pessoas aguardavam para comprar ossos e restos de carne bovina. A cena foi registrada na véspera do feriadão prolongado de Nossa Senhora Aparecida (7), mas viralizou nas redes após seu registro tornar-se objeto de matérias jornalísticas de veículos da cidade.

“Sem palavras… Só tristeza! Onde estão os governantes?”, postou Sonia em seu perfil no Instagram. Não demorou para que outros usuários chegassem à publicação para comentar o fato deprimente, inclusive alertando a autora da foto de que aquela situação vinha ocorrendo havia algum tempo, ao que a auxiliar de contabilidade respondeu: “Sim, já vinha acompanhando só que a cada dia a fila aumenta mais. As pessoas nunca prestaram atenção devida ao fato. Então fui tocada a fotografar e postar, talvez os políticos da nossa cidade vendo está cena façam um trabalho social para melhorar a qualidade de vida dessas pessoas”.

A imagem é apenas mais uma a compor o mosaico tenebroso de miséria e empobrecimento formado a partir decadência social e econômica instaurada pelo governo de Jair Bolsonaro. Dados recentes mostram que 116 milhões de brasileiros não têm acesso pleno e permanente a comida, sendo 43 milhões sem alimentos diários suficientes e 19 milhões passando fome. E os números do abismo não param por aí.

A inflação registrada em setembro, de 1,20%, é a mais alta para o período dos últimos 27 anos e o acumulado do INPC nos últimos 12 meses chegou a 10,78%, outro recorde vergonhoso. O desemprego mantém-se em 14,8%, outro índice histórico e assustador, o que representa aproximadamente 15 milhões de brasileiros sem trabalho.

Dieta da miséria

Quem entrava em açougues ou supermercados, desde a década de 80, via um cartaz que dizia “temos osso e pelanca para cachorro”. Por mais que a venda desse tipo de “resíduo” de carne bovina sempre estivesse ali, para ser dado ou vendido a preços irrisórios, uma nova prática, bem atual, vem assustando os cidadãos nos últimos tempos: a venda de produtos que seriam praticamente destinados ao lixo, vistos como resto, para a alimentação humana.

O buraco econômico e social cavado por Jair Bolsonaro para enterrar o povo brasileiro fez proliferar por todo território nacional os anúncios que oferecem ossos, carcaças de frango, pés de galinha e pelanca para “reforçar” a dieta de seres humanos que viram seus empregos, renda e dignidade serem implodidos.

Até o macarrão instantâneo, popularmente chamado de “miojo”, teve um salto nas vendas, segundo a indústria que o produz. O que antes era visto como uma extravagância ou imprudência alimentar de adolescentes, hoje figura como gênero base para manter de pé famílias inteiras que driblam a fome para seguirem vivas.

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Até a mídia hegemônica, sócia na calamidade imposta por um destrambelhado sem escrúpulos que foi alçado à chefia do estado brasileiro para pôr fim aos “ladrões do PT”, veicula agora em seus programas diários as mais variadas receitas para preparar iguarias como ossos, carcaças, pés de galinha, pelanca e miojo. É a gourmetização do desespero e a glamourização da indigência, como pílula dourada para o horror daqueles que não têm mais ao que recorrer para dar de comer aos filhos e a si.

No Rio de Janeiro e em Cuiabá, filas imensas se formam para receber como esmola os vergonhosos ossos. Mesma sorte não tiveram os catarinenses, que precisam pagar R$ 4 no quilo do “produto”. Em Niterói, “sambiquira”, ou “dorso”, eufemismos para a carcaça que sobra dos frangos, vêm sendo vendidos por R$ 8,69.

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Numa rodovia que corta o estado do Mato Grosso, próximo ao município de Várzea Grande, o que chama a atenção é a placa ofertando pelanca a R$ 0,99. A imagem embrulha o estômago porque nos leva a pensar em como alguém consumiria tal coisa.

O Estadão, o diário conservador paulista, traz numa de suas manchetes que o pé de galinha é a “carne possível”. Lembra na matéria que as partes nobres dessa ave sofreram aumento de 43% no último ano, mas não diz uma palavra sobre seu editorial de 8 de outubro de 2018, quando para esconder sua predileção por um sujeito de contornos psicopáticos resolveu se esconder atrás de “uma escolha muito difícil” para conduzir ao Planalto o tal desajustado.

Enquanto isso, na Folha, a explosão no faturamento das indústrias que produzem miojo foi destaque numa editoria voltada à economia. A linha fina justifica que o aumento nos negócios de R$ 2,6 bilhões para R$ 3,1 bilhões de um ano para outro “tem relação com o preço acessível do produto à população”.

Assim, aos poucos, normalizamos e institucionalizamos a miséria, com explicações macroeconômicas e análises de mercado, sempre mencionando o famigerado dólar, que saiu de R$ 3,65 no dia seguinte à posse de Jair Bolsonaro para os R$ 5,48 atuais.

Fiquemos tranquilos, já que Paulo Guedes, que mantém US$ 9.550.000 numa offshore nas Ilhas Virgens Britânicas e que lucra R$ 16 mil por dia com a disparada da moeda estrangeira, assim como seu presidente do Banco Central, que possui investimento idêntico, darão jeito nesse nó econômico e farão o melhor para que os brasileiros deixem de comer restos, sobras e subprodutos em sua dieta diária.

Até restos de peixe

Um supermercado de Belém, no Pará, está vendendo restos de peixe (vísceras, espinhas e cabeças) a R$ 3,90 o quilo. O “produto” é apenas mais um no rol de sobras e resíduos de baixíssima qualidade que vêm dominando as prateleiras do comércio de alimentos em todo país por conta do empobrecimento em marcha acelerada da população imposto pelo governo Bolsonaro.

Na imagem que circula nas redes sociais, um invólucro de isopor envolto em plástico filme mostra uma mescla de pele, cabeça, sangue e espinhas devidamente etiquetado, ao preço de R$ 2,01, por pouco mais de 500 gramas. Os comentários dos internautas que se deparam com a foto absurda são de indignação e protesto.

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Henrique Rodrigues

Jornalista e professor de Literatura Brasileira.

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