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27 de novembro de 2019, 06h58

Flip homenageia autora que chamou golpe de 64 de “revolução rápida e bonita”

Em cartas, a escritora americana criticava os "comunistas" do país e chegou a defender que a suspensão de direitos e a cassação de boa parte Congresso "tinha de ser feita"

Divulgação

A escolha da escritora americana Elizabeth Bishop (1911-1979) como homenageada da próxima Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na edição de 2020, tem causado indignação entre escritores e leitores. Além de ser a primeira vez na história da Flip que uma escritora estrangeira é escolhida, autores lembram o apoio de Bishop ao golpe militar de 1964, críticas aos “jovens comunistas” da época e comentários preconceituosos sobre o país.

A americana morou no Brasil por quase duas décadas a partir de 1951. Ela passou por temporadas no Rio de Janeiro, em Petrópolis, e também em Ouro Preto, em Minas Gerais. A intenção da escritora, no entanto, era ficar apenas duas semanas no país. A mudança de planos ocorreu quando conheceu a arquiteta e urbanista Lota de Macedo Soares. As duas se apaixonaram e tiveram um relacionamento no Rio de Janeiro.

Apesar da longa estadia no Brasil, de acordo com o poeta e ensaísta Antonio Carlos Secchin, da Academia Brasileira de Letras, Bishop falava “mal de praticamente todos os brasileiros” e “reduziu a quase nada a poesia de Manuel Bandeira, além da de toda a América do Sul”. Informação é de Jan Niklas, Maria Fortuna e Ruan de Sousa Gabriel, do jornal O Globo.

Tal colocação está presente em muitas das cartas assinadas por Bishop e que foram publicadas postumamente. Em uma delas, endereçada ao poeta americano Robert Lowell, a autora escreveu, três dias depois do golpe de 64, que ele “foi uma revolução rápida e bonita”.

Em uma outra correspondência, a escritora afirmou que “a suspensão dos direitos, a cassação de boa parte Congresso, etc., tinha de ser feita, por mais sinistro que pareça”. Segundo ela, caso isso não tivesse acontecido, a queda de João Goulart teria ocorrido por meio de uma deposição, e não uma “revolução”.

Bishop também dizia que os “comunistas” que eram contrários ao golpe de 64 eram todos “jovens mimados de classe média alta”.

Homenageados

A Flip começou em 2003 e, até agora, escolheu um autor brasileiro para ser o homenageado do ano. Dos 17 homenageados da Flip até então, apenas três eram mulheres, todas elas brancas.

Confira os nomes, por ordem cronológica desde o início do evento: Vinicius de Moraes, João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Jorge Amado, Nelson Rodrigues, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Millôr Fernandes, Mário de Andrade, Ana Cristina Cesar, Lima Barreto, Hilda Hilst e Euclides da Cunha.


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