Indígenas denunciam assassinatos e perseguição na aldeia de Serrinha (RS)

Segundo moradores, cacique Marciano Claudino seria responsável pela morte de cinco pessoas; organizações repudiam violência causada pelo arrendamento de terras para o agronegócio

Indígenas da aldeia de Serrinha, no Rio Grande do Sul (RS), denunciam a violência sofrida pelas famílias e a omissão do governo federal sobre as práticas criminosas de arrendamento cometidas em terras do povo Kaingang. Em vídeo publicado nas redes sociais, Vãngri Kaigang alertou sobre assassinatos e expulsões por parte de outros indígenas.

Ela acusa o cacique da aldeia, Marciano Claudino, de ser o responsável pela morte de cinco pessoas. Segundo o relato de Vãngri, um grupo de famílias expulsas recentemente da aldeia estava reunido num local conhecido como Recanto do Inácio, quando Claudino e outros homens armados, muitos deles não-indígenas, chegaram em automóveis atirando para matar.

“Caminhonetes cheia de outros índios para matar os indígenas que não queriam sair, que queriam lutar pelas suas casas”, contou Vãngri.

A advogada Fernanda Kaingang disse, em vídeo publicado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), que a polícia se recusou a entrar na terra e que pessoas foram presas dentro do ginásio de esportes do Alto Recreio.

“A Justiça Federal sabia, os órgãos de Direitos Humanos sabiam, as organizações pró-indígenas sabiam. E o genocídio continua para que soja seja plantada, para que as terras indígenas continuem privatizadas para o agronegócio”, afirmou.

Uma das principais discórdias existentes em Serrinha está no arrendamento de terras da aldeia para produtores de soja. Em nota divulgada pelo Conselho de Anciãos no final de setembro, a acusação é de que 59% da população da aldeia não tem terras, enquanto o cacique Marciano Claudino e sua liderança arrendam toda a área agricultável.

Em entrevista ao repórter Luciano Velleda, do Sul21, o cacique negou que tenha sido o responsável pelos ataques. Segundo Claudino, ele passava pela estrada em sua camionete Hylux, acompanhado de três pessoas, quando sofreu uma “emboscada”, com muitos tiros alvejando o veículo.

Apesar dos disparos, contou que ninguém ficou ferido. O cacique disse, ainda, ter fugido do local, enquanto outros membros da comunidade que o apoiam teriam então começado o revide.

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Organizações repudiam violência causada pelo arrendamento

Em nota, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e a Articulação dos Povos Indígenas do Sul (Arpinsul) também denunciaram a omissão do governo federal sobre as práticas criminosas de arrendamento cometidas nas terras Kaingang.

“Um processo que coopta e corrompe lideranças colocando indígenas contra indígenas em uma política de violência incentivada pelo atual governo, fomentada pelo agronegócio e que gera mortes”, escreveram.

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Segundo os movimentos, pessoas estariam sendo expulsas de suas casas para alimentar a violência causada pelo agronegócio, que quer arrendar parte da terra indígena de Serrinha para o plantio de soja.

“Alertamos sobre a necessidade das instituições de controle e fiscalização do Estado agirem imediatamente para impedir o avanço da violência nas TIs do Rio Grande do Sul. Basta de abandono do Estado, conivência com o roubo de terras e basta de mortes”, dizem no texto.

A Organização Indígena Instituto Kaingang (INKA) também foi a público repudiar veementemente “todo e qualquer ato de violência física, cárcere privado, intimidações, tortura, morte e toda a forma de opressão contra velhos, crianças, mulheres e homens indígenas do povo Kaingang”, moradores de Serrinha, onde a sede do INKA está localizada e atua pacificamente com educação e cultura indígena na região há quase 20 anos.

“O INKA não compactua com nenhuma forma de mal e vem buscando durante sua caminhada a revitalização, o fortalecimento e a valorização da cultura Kaingang, onde nessa base encontra-se o respeito aos nossos velhos, onde reside a sabedoria do povo Kaingang”, escreveu.

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Carolina Fortes

Repórter colaborativa no site Emerge Mag e antiga editora-assistente no site da Jovem Pan. Ex-repórter no site Elástica. Formada em jornalismo e faz a segunda graduação em Letras na Universidade de São Paulo (USP). Acredita no jornalismo como forma de impacto social e defende maior inclusão e representatividade.