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29 de julho de 2018, 09h35

Intervenção no RJ é projeto político em parceria com lógicas criminosas, diz Jacqueline Muniz

Para Jacquenline Muniz, cientista social da UFF e especialista em Segurança Pública, a intervenção militar no Rio de Janeiro, que em 5 meses não contribuiu em nada para reduzir a violência, não serve à população, mas a um projeto político que consiste em manter as pessoas assustadas: "Abandonou-se a segurança para a produção de teatralidade"

Foto: Alan Santos/PR

Neste mês de julho a intervenção federal no Rio de Janeiro completou cinco meses e os resultados até agora caminham no sentido contrário aos prometidos. Um relatório divulgado esta semana pela Comissão Popular da Verdade, que cruza dados da secretaria de Segurança Pública, do Observatório da Intervenção e do aplicativa Fogo Cruzado, mostra que o número de tiroteios na Região Metropolitana aumentou 37% em relação aos cinco meses anteriores à intervenção e 60% em relação ao mesmo período do ano passado.

O levantamento mostra ainda que, em 5 meses, ocorreram 507 homicídios decorrentes da intervenção policial, 9% a mais que nos cinco meses anteriores à intervenção e 39% a mais que no mesmo período do ano passado. Outro dado que chama a atenção é o que mostra que o número de apreensões de armas pesadas, fuzis e metralhadoras foi reduzido em 39% com a intervenção.

Em uma longa entrevista ao vivo concedida à Fórum no programa Fórum Onze e Meia, a cientista social da Universidade Federal Fluminense (UFF) e especialista em segurança pública, Jacqueline Muniz, explicou o que está por trás desses dados de aumento de criminalidade com a intervenção.

Para Jacqueline, a intervenção não está dando certo para a população e para os policiais, mas está dando certo para “atores políticos que sustentam discursos catártico”. A professora sustenta que a intervenção não produziu os efeitos esperados pela população pois ela atende a um projeto de poder que consiste em manter as pessoas assustadas: “Abandonou-se a segurança para a produção de teatralidade”, pontua.

De acordo com a cientista social, “essa brincadeira de guerra tem um mapa político, geopolítico e eleitoral: que é ampliar o território e influência da milícia”.

“Fabricando temor e sustentando temor, tornando a insegurança a síntese de todos os medos, faz com que a gente não perceba o medo de perder o emprego, o medo de não ter mais um sistema previdenciário, o medo de não ter mais garantias e direitos sociais, tudo isso está embutido em um medo generalizado da insegurança”, analisa.

Comissão de inspetores do Gabinete de Intervenção Federal (GIF) no Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, na zona sul da cidade (Tania Rego Agência Brasil)

Apesar da violência em escalada, Jacqueline fez questão de chamar a atenção para algo que ela já enxerga em gestação no estado: a formação de uma espécie de novo “Tratado de Tordesilhas”, entre facções criminosas e milícias, que passará uma falsa sensação de paz. “Vamos ver um silenciamento, que tem a ver com a censura de um lado e a gestação de monopólios políticos criminosos aqui. Espero que isso não aconteça como aconteceu no México e em outros lugares do mundo. Aí vai todo mundo achar que tem segurança. Mas não tem, o que há é um efeito de segurança, ocultando projetos de poder”, alerta.

Confira, abaixo, a íntegra da entrevista em texto e, na sequência, em vídeo.

Fórum – Qual o balanço que faz desses primeiros cinco meses de intervenção federal no Rio de Janeiro?

Jacqueline Muniz – Na verdade, o balanço não é positivo. Essa intervenção exerce uma função de governo, temos o governo militar no comando da segurança. Comandar a segurança é diferente de governar. Isso a gente tem que ter claro. O que posso dizer é que aquelas questões que levantei em fevereiro, na semana da intervenção, já apontando que não seria possível produzir os resultados prometidos, estão se confirmando. Uma profecia negativa que eu preferiria que não tivesse se cumprido. No Rio de Janeiro não se mudou a lógica de atuação. Nós vivemos aqui no Rio já há bastante tempo um regime de exceção, um regime de excepcionalidade, onde se substituiu as práticas convencionais de policiamento que permitem cobertura ostensiva para a população, controle e regulação de território e população, por operações policiais como eu chamei à época de “síndrome do cabrito”, que faz os “espantas baratas”. Operação policial, sobretudo sem foco, sem missão clara, sem objetivo, é o caro, que quando funciona sai mais caro ainda, e quando não funciona produz as aberrações que estamos assistindo. Exemplo: segundo o mapeamento do Observatório da Intervenção nós tivemos até agora 280 operações, operações de cerco, que na verdade criam transtornos no trânsito, maximizam uma insegurança e risco do cidadão e não garantem o cotidiano do ir e vir. Ao contrário. Nós tivemos uma apreensão de 260 armas, isso corresponde a uma arma para 406 agentes. Ou seja, é como se um batalhão da PM apreendesse apenas uma arma. Então, os resultados são pífios de um lado, do ponto de vista da produtividade policial, e de outro maximizaram risco e insegurança. Tivemos um aumento de 37% dos tiroteios. E esse é o principal problema que acerta a população do Rio. Quando se faz pesquisas, as pessoas têm medo de ficar na linha de tiro, medo de morrer vítima de uma bala perdida ou bala achada. Então, na verdade, é como se nós tivéssemos vivendo uma espécie de comercial macabro de equipamentos militares. Abandonou-se a segurança para a produção de teatralidade. Tem que lembrar que cercos não produzem a redução e o controle da criminalidade ordinária na esquina. Nós seguimos expostos à assalto a ônibus, à vitimizações de toda sorte. Por isso os números da violência seguem crescendo, a população segue exposta aos crimes de rua, maximizou-se a vitimização de civis nesses confrontos. Na verdade, é um convite ao confronto. Deixou de ser uma segurança provocada pela população para atender à demanda para ser uma segurança provocativa. Então, não se controlou as armas, não se apreendeu mais armas, não se retirou drogas do mercado. Portanto, a droga não ficou mais cara no Rio, o armamento não ficou mais caro, não se gerou escassez disso, ao contrário, expôs a população ao risco. Isso porque a lógica segue sendo a mesa. O que faz a segurança pública são os policiamentos cotidianos. A excepcionalidade da intervenção só abre espaço para que todo mundo tenha peito de pombo, que todo mundo tenha síndrome da pequena autoridade, maximizando na esquina o desgoverno e o descontrole. Finge-se que se manda, fingi-se que obedece.

 

Abandonou-se a segurança para a produção de teatralidade

 

É bom lembrar que há uma tensão constitutiva entre a concepção militar do Exército e a concepção militar da Polícia Militar. É muito interessante a gente lembrar que as várias vezes que o governo militar e as Forças Armadas atuaram no Rio você não teve uma integração, ou uma articulação ou uma subordinação. Pois há doutrinas, filosofias militares distintas. Normalmente quem colabora mais, quando se tem presença de militares controlando a segurança pública, e não é de agora, é a Polícia Civil. Tem que lembrar que a segurança pública deixou de ter militares em seu comando no governo Brizola. Nós passamos quase 180 anos com atores militares chefiando a PM do Rio de Janeiro ou ocupando a secretaria de Segurança Pública. Se tem uma novidade é o comando civil das polícias do Rio de Janeiro a partir de 1982, 1983. É bom lembrar que nesses períodos que tinha general no comando quem mais obedecia era a Polícia Civil. Quem tinha mais a ganhar com recursos extras era a Polícia Civil. Essa se mostrava mais obediente e mais aliada que propriamente a PM, que sofre de disfunção militar. Ela sequer tem hoje uma estrutura de comando e controle militar. O que reflete o que estamos vendo. A operação da Maré, aquele ‘tiro, porrada e bomba’, com mais de 160 tiros, uma exuberância, um gasto excessivo de munição, desnecessário, razão munição X taxa de acerto, de tiro defensivo, é nula, o que mostra incapacidades e incompetências. Foi feito por quem? Quem tem praticado o caveirão voador? Não tem sido a Polícia Militar. A PM já aprendeu, desde a queda do helicóptero no Morro dos Macacos, que não existe plataforma de tiro móvel em segurança pública. Isso maximiza temor, insegurança, acidente e incidente na gestão da segurança, na redução dos riscos. Quem tem feito isso é a Polícia Civil. Então, olha bem como é interessante o que se passa aqui. Você tem uma disputa. Quem disse que bater continência quer dizer obedecer? A polícia trabalha com uma lógica tático-operacional, e o Exército com o inverso. Portanto há conflitos deliberados, que fazem com que a PM cruze os braços e aguarde o espetáculo feito por outros.

Fórum – Dados da Comissão Popular da Verdade mostram que o número de tiroteios e mortes causadas por intervenção policial aumentou desde o início da intervenção. Um outro dado interessante é que, com a intervenção, se diminuiu em 39% a apreensão de armas, fuzis e metralhadores. O que estes dados significam, na sua opinião?

A cientista social Jacqueline Muniz (Divulgação)

Jacqueline Muniz – O que as práticas da intervenção tem produzido? Já tem se abandonado o cotidiano do policiamento, que é o policiamento ostensivo, a pronta resposta à emergência e à população, atividade continuada de investigação e inteligência em favor de operações pontuais. Essas operações pontuais, ainda que integradas ou não, elas consomem 105 mil agentes, segundo dados levantados até agora. Só que é o seguinte: toda ação repressiva é pontual e provisória em seu resultado. O que faz com que uma ação repressiva produza efeitos para além do imediato, de seu espetáculo e sua ação, são outras atuações, esse cotidiano, esse arroz com feijão. Você ir pra rua, olhar na esquina e ver um carro da PM. Hoje os carros da PM em boa medida estão parados não porque eles estão fazendo policiamento ostensivo, mas porque não têm gasolina. Então eles ficam feito carcaças espalhadas em alguns pontos da cidade para dar um impressão que existe polícia. Mas a polícia não está policiando. Abandonou-se a lógica dos policiamentos, tanto civil quanto militar, em favor dessa espetacularização que tem rendimentos políticos, econômicos, inclusive para a economia criminosa. Ninguém está dando prejuízo para a economia criminosa aqui, não. Então, o que você observa? Quando você mobiliza esses recursos você gera escassez de recursos policiais. Por que você precisa mobilizar 5 mil pessoas para fazer o cerco, para incomodar o cidadão no trânsito. Como você não tem inteligência, não tem capacidade de proatividade, não sabe quem vai parar. Para todo mundo, fecha o trânsito. Por exemplo, semana passada, os ônibus que estavam indo pro interior do estado, que demoram em torno de 5 horas para chegar, demoraram 10 horas. Por que estava tudo parado no pedágio por conta de uma operação policial de um cerco sem objetivo e sem propósito. E isso rebate nesses resultados. Baixa apreensão de armas. Como a gente sabe se uma ação repressiva tá dando certo? Encareceu a droga? O cidadão está tendo mais dificuldade de comprar droga? A arma ficou mais cara? Diminuiu o acesso a armas no Rio de Janeiro? Diminuiu o conjunto de crimes que ocorrem nas ruas derivados do uso da arma de fogo? Por que arma de fogo é alugada. Você aluga uma arma, vai ali, faz o seu troco e paga a arma. Essa economia político-criminosa teve algum impacto? Não, não teve. O que estamos vendo é que sai um traficante de estimação e entra outro, para que possa contribuir com recursos eleitorais. Então o que acontece quando você gera ações continuadas? Você produz escassez de policiamento Você mobilizou um conjunto de recursos repressivos que não estão mais na rua policiando. Enquanto isso o cidadão segue disponível para ser assaltado, ser agredido. E mais, como a lógica é provocativa, e não proativa, você maximiza a perspectiva do confronto. Ou seja, você maximiza o risco, a incerteza e o perigo. Para que serve um helicóptero como plataforma móvel de observação? Para reduzir risco e incerteza e perigo, seja para o policial, seja para o companheiro de guarnição, seja para a população ou para aqueles indivíduos suspeitos. Ou seja, a ideia de fazer operações especiais é para atuar em situações de elevado risco reduzindo as chances de letalidade, tanto da população quanto do policial. Para que se usa blindados? Para reduzir a escalada de força, e não para maximizar a escalada de força, porque isso dá vantagem prática à polícia. Então, pode jogar pedra num blindado que a polícia não vai responder com um tiro de canhão. É para isso que serve a blindagem. A blindagem é usada como uma logística para reduzir o emprego desproporcional de força, e garantir o resultado superior. Baixa zero, prisões, apreensões. Agora, para isso, tem que ter trabalho de investigação, inteligência. Como ninguém sabe o que está indo fazer lá, é um comercial macabro de produtos militares. Que custa caro. É 1 milhão e meio de reais que se torra aqui por dia sem sem produzir resultados.

 

O que estamos vendo é que sai um traficante de estimação e entra outro, para que possa contribuir com recursos eleitorais

 

Queria chamar atenção que na Maré, por exemplo, quando as Forças Armadas estiveram lá por um ano, estimou-se em torno de R$650 milhões. Os dados do Ministério da Defesa dizem que foi R$450 milhões. Vamos tomar esse número. Um ano para servir de sentinela de condomínio popular, guarda de guarita. Por que essa é a experiência que eles tem, é ficar na guarita. Por isso eles fazem cerco. Como o crime é itinerante, o policiamento tem que ser dinâmico. Ele vai estar onde tem mais fluxo de população, acompanhar circulação e deslocamento das pessoas, é isso que reduz o crime da esquina que todo cidadão está exposto. O cidadão está amedrontado, assustado, você anda pela rua você vê cercos sem qualquer lógica. Você está sempre sob tensão. E manter as pessoas assustadas, sob tensão e inseguras, tem rendimento político. Por que faz com que a gente não consiga se mobilizar em torno de uma agenda construtiva de direitos para os policiais e para a cidadania. Voltando ao caso da Maré, olha que interessante: você gastou R$450 milhões e não se produziu resultado algum, melhora nos indicadores de segurança pública. Por que não se está fazendo segurança pública. É uma propaganda para dizer: olha como é legal fazer guerra, olha como é legal fazer bico na segurança. As pessoas complementam seus orçamentos. As Forças Armadas complementam fazendo esse bico sem gerar qualquer resultado. Não há doutrina para isso. Vai gerar espetacularização do medo, do temor, que retroalimenta discursos autoritários e catárticos. Não melhorou as condições das apreensões e nem prisões.

 

Manter as pessoas assustadas, sob tensão e inseguras, tem rendimento político. Por que faz com que a gente não consiga se mobilizar em torno de uma agenda construtiva de direitos para os policiais e para a cidadania

 

No caso da Maré, se gastou esses R$450 milhões. Digamos que você quisesse fazer um programa de redução de riscos de juventude em vulnerabilidade, já que jovens são aqueles mais expostos a praticar violência e serem vítimas de violência. Digamos que situação é: quero fazer algo para além do imediato, para além do espetáculo do visível. Se você fazer um projeto, um programa de empreendedorismo, seja cultural, seja de esportes, ‘meu filho, começa aqui a fazer alguma coisa da sua vida’, com CPF individual de cada jovem. Editais assim. Se quisesse fazer isso para 10 mil jovens da Maré, o que é muito mais do que precisa, você gastaria R$100 milhões, por um ano. Se você quisesse abrir as ruas, criar mobilidade, porque para que você possa prover segurança a ambulância tem que chegar, o Correio, assim como a viatura da polícia. Quer dizer, acessibilidade, mobilidade urbana. Como a gente mede que tem segurança? Quando tem circulação de ir e vir. Se quisesse fazer um programa de abrir ruas, tirar as comunidades populares de seu confinamento, integrá-las à cidade: na Maré, com R$50 milhões você abria. Não estou falando nem de urbanizar, estou falando de abrir. Não é ficar tirando barricada de manhã para ela voltar a noite. É isso que eles estão fazendo aqui, brincando. Brincando de virilidade. Aqui no Rio nós temos uma política dos 3 “s”: primeiro você dá um susto na população, depois cria um surto de insegurança, e depois produz soluços de operações. São soluços, são espasmos. Se quisesse investir em inteligência, com mais R$10 ou R$15 milhões você resolvia. Se gastasse R$150 milhões dos R$400 que foram gastos, teria feito alguma diferença. O problema não é do dinheiro ou preparo e competência. O problema é de prioridade política. O Rio de Janeiro vive esse espetáculo, tanto é que os tiroteios aumentaram, as chacinas aumentaram. Todo mundo fica nervoso. Aí as pessoas pedem mais repressão. A repressão é um fim em si mesma. E quando ela dá certo ela é cara, e quando dá errado, quando é burra, é mais cara ainda. E é sempre escassa. Por isso você fica morrendo na praia e enxugando gelo. Essa é a razão de ser das operações. Elas não controlam território, elas não controlam população, fluxos. É essa teatralidade que é um comercial macabro que não serve ao cidadão, não serve ao policial que tem um armamento vagabundo. Serve a quem? Quem está ganhando com esses recursos licitatórios aqui? O plano é sempre custeio e aquisição. É sempre isso. Vou ali faço um bico, uma faxina, em compensação ganho mais um troco para complementar minha renda orçamentária. É propaganda de uma guerra? Qual guerra? Alguém aqui decretou independência? O Comando Vermelho decretou independência, soberania sobre território? Há recrutamento para montar um exército rival? O crime não precisa disso, o crime corrompe. É só pagar propina.

 

O problema é de prioridade política

 

Um outro dado: aqui no Rio de Janeiro essa brincadeira de guerra tem um mapa político, geopolítico, eleitoral. Que é ampliar o o território e influência da milícia. A milícia hoje é o principal problema no Rio de Janeiro. Por que ela é o crime dentro do Estado. Ela tinha um percentual pequeno de territórios no Rio, hoje ela está chegando na metade. Então, estamos falando de uma unidade criminosa que financia campanhas eleitorais. Estão usando o Exército de bobo, as Forças Armadas de bobo, estão se expondo ao ridículo, porque não conseguirão produzir resultado. Não diminuirão o crime.

 

Aqui no Rio de Janeiro essa brincadeira de guerra tem um mapa político, geopolítico, eleitoral. Que é ampliar o o território e influência da milícia

Estamos falando de uma unidade criminosa que financia campanhas eleitorais

 

Fórum – Você acredita que esse clima de insegurança e medo, como você falou, criados intencionalmente, como projeto político, terão reflexos eleitorais?

Jacqueline Muniz – É possível. O medo é um péssimo conselheiro. Diante do medo e do agravamento do temor nós abrimos mão dos nossas garantias individuais e coletivas em favor do fortão da esquina que venha resolver de imediato nossos problemas. Por que segurança e medo não se adiam. Não dá para dizer que vai sentir medo só daqui a três meses, medo se sente no aqui e agora. O problema é que o miliciano simpático, o traficante gente boa, e todos os outros fortões de ocasião, são os libertadores de hoje e os tiranos de amanhã. Ou seja, eles vão cobrar taxas. Custa caro ficar brincando de chefe de disciplina. Nós aqui temos mal hábito de achar que nossa igualdade e liberdade é como um playground, você fica ali até a hora que chega um chefe de disciplina que desliga os brinquedos e diz que ninguém mais vai brincar de democracia. O problema é que dar golpe custa caro. E tem uma coisa, a fantasia do poder moderador no Brasil, que é dado a dois atores, as Forças Armadas e aos meios de comunicação. Eles aprenderam que não é necessário gastar arma, por que o recurso coercitivo é escasso. Por isso que fazem operações que eu chamo de soluços. O programa dos três “s”. Por que isso? Por que fabricando temor e sustentando temor, tornando a insegurança a síntese de todos os medos, faz com que a gente não perceba o medo de perder o emprego, o medo de não ter mais um sistema previdenciário, o medo de não ter mais garantias e direitos sociais, tudo isso está embutido em um medo generalizado da insegurança. A população não está errada em pedir segurança. É que aqui já se abandonou a segurança há muito tempo em favor da fabricação de temor, e do agravamento desse temor. Isso é construído e administrado pelo governo. Por que soluções de segurança pública são mais baratas que a farra da gastança licitatória. O que é segurança pública no cotidiano? Monótono, por que quando dá certo a gente não vê. Aqui tem que ser barulhento. Polícia ostentação. Crime ostentação. É uma incompetência de todos os lados. Por que na verdade quanto mais ostentação criminosa você faz mais você tem que fechar o seu negócio. Imagina, você tem uma boca de fumo que precisa dar dinheiro, isso é um negócio. Todo dia você dá tiro para cá e tiro para lá? Seu cliente não vai lá. Da mesma maneira uma polícia barulhenta gera medo, gera insegurança, maximiza o risco dela mesma. São todos polícia do depois. A expectativa é que, maximizando o medo e insegurança, as pessoas escolham um protetor de ocasião. O problema é que a teatralidade excessiva, o espetáculo quando é de mau gosto, a gente espectador observa que a coisa não está indo bem. Então aqui o remédio amargo da intervenção gerou exceção. Para fazer um omelete, tem que quebrar um ovo. Parabéns, quero saber quem vai ceder os ovos? Por que até agora os ovos são os filhos dos pobres, são os pretos pobres que moram longe. Eu quero saber quem vai entregar seus filhos? São os pobres, de onde saem as polícias. A polícia no Rio de Janeiro não é branca, em sua maioria mora na periferia. Quem são os matáveis? Os policiais e as comunidades populares. O que há aqui é uma economia politica do clima que visa uma ambição, gerar monopólios ou quase monopólios. O problema aqui é que nossas facções são muito barulhentas, desorganizadas. Elas tem unidade tática mas não unidade política. De um lado o PCC e de outro a milícia. Uma espécie de novo Tratado de Tordesilhas político. Vai diminuir tiroteio, vai ficar invisível, todo mundo ganhando na farra da corrupção e da violência, e na invisibilidade.

Fabricando temor e sustentando temor, tornando a insegurança a síntese de todos os medos, faz com que a gente não perceba o medo de perder o emprego, o medo de não ter mais um sistema previdenciário, o medo de não ter mais garantias e direitos sociais, tudo isso está embutido em um medo generalizado da insegurança

 

Queria lembrar um ponto que falei na minha entrevista em fevereiro, que teríamos censura, uma defasagem no acesso aos dados. É o que está acontecendo. A gente não sabe os custos dessa operação, a gente estima os custos a partir das anteriores que o Ministério Defesa teve que prestar contas. Um gasto absurdo, os resultados políticos são, sim, perigosos, porque fabrica-se esses fantoches, ventríloquos, que prometem o santo graal, o fim do pecado da humanidade. Por isso mesmo eles não podem ser testados, nenhum deles fez nada de objetivo e concreto pela segurança pública, vivem de discursos catárticos. Por que morte de cidadão e morte de policial é palanque eleitoral. Cada policial morto dá um velório, cada velório permite que um ventríloquo irresponsável diga que precisa agravar a repressão. Só que eles são tão estúpidos, porque repressão é caro e nobre, ela é o recurso necessário em democracias, cara e nobre. Mas se você aplica ela toda hora você vai gerando escassez, e inviabilidade de sustentar o efeito repressivo. Por isso que as operações aqui tem prazo de validade. Igual remédio velho. Não tem como sustentar nem aqui e nem lugar nenhum do mundo. Só serve para atender a um projeto de poder. Um projeto político que é produzir insegurança, maximizar medo, deixar todos feito barata tonta e criar a síndrome da pequena autoridade na esquina. Agora está todo mundo para predar, porque não há governabilidade. Quem pensa que o general dá um soco na mesa e na esquina se obedece, está enganado. Está cada um tirando o seu, cada cabeça uma sentença. Você anda pelo Rio de Janeiro e é bom ter passaporte com bastante vistos. Se você parou por um policial também vai ser parado pela milícia, tem que dar satisfação por sair de casa. Essa é a realidade.

 

Só serve para atender a um projeto de poder. Um projeto político que é produzir insegurança, maximizar medo, deixar todos feito barata tonta e criar a síndrome da pequena autoridade na esquina

 

Quero lembrar que a experiência de jovens soldados com rua é sentinela e guarita de ponto turístico. Se você for no Forte de Copacabana, que é das Forças Armadas, você vai ver o soldadinho de chumbo parado. É o máximo que ele pode fazer. Não que sejam incompetentes, eles não são qualificados para tomar decisões em tempo real como a polícia. Então vemos cercos e espetáculos, só que isso agrava temor. E torna todo mundo mais abusado. O policial fica mais abusado e o criminoso também. Resumo: mais chacinas, mais predação e mais gasto de dinheiro público.

Fórum – O ministro da Segurança Pública anunciou recentemente que estuda estender o período da intervenção. Enquanto o interventor diz que não. Por que acha que há esse interesse no governo em continuar esse projeto? E se há esse interesse, acredita que há riscos de essa lógica se expandir em outros locais, de modo a expandir esse projeto político?

Jacqueline Muniz – As Forças Armadas não têm pernas nem condições de ficar brincando de síndrome do cabrito em todo o território nacional. Quanto mais se gasta em recursos repressivos, mas se limita. Por que é escasso? Pois mobiliza muita gente. As Forças Armadas são níveis de prontidão, formas de espera para a ação. Não tem como amanhã, se o ministro resolver brincar de John Wayne, de Charles Bronson, de colocar Forças Armadas em todo lugar, não há nem diesel para isso. Sequer conseguem cumprir a missão de defesa nacional. As Forças Armadas hoje ficam topando esse mico da segurança para ver se ganham um caraminguá e recompletam seus recursos, porque na hora que o Brasil precisar de defesa em suas fronteiras, nos estamos despreparados., apesar de ter tido um alto investimento nos governos Lula e Dilma. Outra coisa óbvia é que não estão entregando o que prometeram. Não tem como reduzir a corrupção dando soco na mesa, ou na lógica do eu mando você obedece. Afinal, a disciplina militar não produz controle da ação da polícia. Por que eu posso ser disciplinado para praticar delito. O que produz controle de polícia não é disciplina militar, disciplina militar serve para produzir um ethos militar, mas não produz controle nem aqui e nem em lugar nenhum. Para produzir controle de polícia são outras coisas que a gente precisa, controlar o uso potencial e concreto de força. E a qualidade decisória, a chamada workmanship de polícia. Obviamente que ninguém governa nada aqui. Qual foi o plano proposto? Para melhorar a comida na rua, eu mudo os eletrodomésticos da minha cozinha. Isso não tem impacto. As atividades propostas no plano da intervenção todas são atividades meio, não têm nenhuma correlação com a dinâmica criminal. Se fabricam Godzillas poderosos, que são fabricados por esse discurso para dizer: ‘olha como é difícil enfrentar um monte de moleque magrelo com arma na mão’. Arma cedida pelo mesmo consultor macabro. Aqueles que armam o crime são aqueles que vendem arma vagabunda para a polícia. Então há uma economia criminosa que opera em rede. Você pode por 20 leões rugindo que os ratos vão passar entre as pernas dos leões. O combate a criminalidade é feito no cotidiano, e não com esse espetáculo. Quantos contêineres de arma que chegam no Galeão foram apreendidos pela intervenção? Qual foi o dinheiro recuperado no crime que tesá investido em entidades religiosas? Ou com advogados pombos correio? Vemos algum impacto? Não. A razão de ser de um soldado é obedecer. Quem comanda e manda é quem tem voto. É assim no mundo democrático para a espada não ficar uma espada louca de Highlander. Por isso é que Forças Armadas profissionais tem comando civil. O ministro está blefando. Ele fica jogando dos dois lados porque se beneficia desse discurso. No Rio de Janeiro não está clara a candidatura, o partido do governo está em frangalhos, afinal, uma das bases criminosas desse partido estava aqui. E o Rio de Janeiro repercute internacionalmente. Tem que criar uma dificuldade para vender e negociar facilidades eleitorais nos bastidores. E com isso, torna a polícia trouxa, a PM faz papel de boba, a Polícia Civil faz papel de boba, e o Exército de biruta de boneco de posto. As Forças Armadas sabem disso.

 

Há uma economia criminosa que opera em rede

 

Agora, as Forças Armadas, de uma maneira geral, dizem que não gostam de políticos, mas nunca saíram da política. Eles sabem comandar, mas não sabem governar. Por isso dá trabalho dar golpe. O golpe político, policial-jurídico, tem mais rendimento a baixo custo e produz efeito. Não precisa hoje dar golpe militar, isso gasta. Não tem como sustentar. Estamos falando de um projeto político em parceria com lógicas criminosas. As pessoas ficam cheirando pó de mármore, as pessoas têm onda cheirando maisena.. Você acha mesmo que a estrutura do crime, a dinâmica criminosa no Rio de Janeiro é por conta de droga? Isso é um cinismo. O que está em jogo aqui é a venda de banda larga, é o arrendamento de territórios que o Estado faz para o crime, é a arrecadação a partir da prestação de serviços essenciais à população que é terceirizada para o crime. Temos governos autônomos aqui, por isso tem que ter passaporte. Quem vai te pedir documento? É a polícia? Por que tem várias. Tem polícia do bem e a polícia dos bens. Como o comando não é burro, em alguns territórios você vê até inscrições bíblicas que o comando usa para dizer ‘aqui começa meu território’. E nenhum crime gera governo autônomo se não tiver chancela do estado. Então, quem administra esse espetáculo, essas mortes, são atores de dentro do Estado. E quando falo Estado, não falo governo, falo atores do parlamento, do Executivo… Isso tem rendimento político. Está dando errado para a população, para o policial. Mas está dando certo para atores políticos que sustentam discursos catárticos. Por isso é legal essa repressão burra. Na verdade é um discurso legal, catártico, que esses malucos fazem porque sabem que não pode ser demonstrado na esquina. Então, fica sempre como uma promessa, ninguém pode cobrar. É um pouco essa lógica aqui.

 

Estamos falando de um projeto político em parceria com lógicas criminosas

 

Quero acrescentar que daqui a pouco o Rio de Janeiro vai ter um novo Tratado de Tordesilhas. Vamos ver um silenciamento, que tem a ver com a censura de um lado e a gestação de monopólios políticos criminosos aqui. Espero que isso não aconteça como aconteceu no México e em outros lugares do mundo. Aí vai todo mundo achar que tem segurança. Mas não tem, o que há é um efeito de segurança, ocultando projetos de poder. É importante que a gente preste atenção nisso.


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