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10 de fevereiro de 2019, 12h20

Morreram na contramão atrapalhando o sábado

Tadeu Porto: A gestão do Clube de Regatas Flamengo precisa responder, urgentemente, pelas mortes que ocorreram no Centro de Treinamento do Clube. Não se pode ter no local de trabalho o sangue de 10 crianças e tratar como mera fatalidade

Reprodução/TV Globo

Por Tadeu Porto, no Cafezinho 

Quero deixar claro que minha crítica não é ao Flamengo enquanto patrimônio cultural (Alô alô Realengo, aquele abraço). Um fenômeno popular como o futebol precisa ser discutido com carinho, afinal algo que mobilize tanto a maioria do povo no tempo presente tem sempre relevância para a construção cultural de um país. E destruir patrimônio histórico é loucura.

Agora, a gestão do Clube de Regatas Flamengo precisa responder, urgentemente, pelas mortes que ocorreram no Centro de Treinamento do Clube. Não se pode ter no local de trabalho o sangue de 10 crianças e tratar como mera fatalidade.

Primeiramente, preciso fazer justiça aqui e deixar o tweet da Luara Ramos, assessora de comunicação do movimento sindical dos correios. Ela atentou para a necessidade de lembrarmos que a tragédia é, além de tudo, um acidente do trabalho. Só depois de lê-la, reconheci que realmente era mais um crime do trabalho. Até então, estava um pouco cego pela comoção que o futebol causa.

Destaque para: “[Essa tragédia] é o retrato de um país que trata a classe trabalhadora como inimiga.” Essa é uma das grandes verdade que vamos ler por muito e muito tempo, até resolvermos isso.

O Brasil precisa, urgentemente, conversar sobre sobre a maneira que tem tratado os trabalhadores e trabalhadoras nos últimos anos.

Imaginem, por exemplo, se numa plataforma de petróleo – tipo aquelas que o Cauã Reymond anda trabalhando – alguns quartos pegassem fogo e,com isso, 10 trabalhadores viessem a óbito. A empresa responsável pelo local de trabalho seria imediatamente responsabilizada: tanto pelos órgãos públicos, quanto pela própria sociedade. Guardada as devidas proporções, é o que ocorreu com a Vale em Brumadinho.

A realidade é que temos que debater muito seriamente as relações de trabalho no país. Há anos que a conversa pra cima do proletariado é somente corte, corte e mais corte, enquanto empresas de diversas áreas ganham isenções fiscais num momento delicadíssimo de déficit nas contas públicas, por exemplo.

Infelizmente, nos acostumamos a escutar que o trabalhador ou a trabalhadora irão precisar se acostumar com perda de direitos para ter mais emprego. Contudo, quem conhece o mundo do trabalho sabe que esses direitos envolvem diretamente, na maioria esmagadora dos casos, a saúde e segurança dos trabalhadores e trabalhadoras.

A CLT não se resume somente a 13º salário, férias ou FGTS. O direito do trabalho não se resume só a entrar na justiça para ganhar horas extras trabalhadas e não pagas. Há diversas proteções ao trabalhador, desde Normas Regulamentadoras de segurança, passando por órgãos de fiscalização no local de trabalho e direito a liberdade de organização, ou seja, liberdade sindical.

As crianças não estavam em casa. Estavam fazendo o que muitos garotos sonham, obviamente, mas isso não pode ser desculpa para mascarar a falha da gestão flamenguista. Vale lembrar, ainda, que um clube que tem força e grana para tirar na marra jogador do time adversário, precisa obrigatoriamente investir num alojamento que não ofereça perigo as vidas que ali habitam.

Não consigo deixar de imaginar se a diretoria do Flamengo não deveria ter focado seu esforços  para dar melhor condições a seus atletas futuros, seus empregados, ao invés de gastar tanta energia para contratar um meio campo destaque de outro clube brasileiro.

Rodolpho Landim, presidente atual do Flamengo, também é acionista controlador de uma empresa de óleo e gás que está se apresentando para produzir petróleo na Bacia de Campos, substituindo a Petrobrás, líder mundial nesse tipo de trabalho.

Sendo assim, o mínimo de questionamento que se deve fazer é se, por um acaso, os trabalhadores ou trabalhadoras da Ouro Preto Óleo e Gás vão dormir, no meio do mar, em locais susceptíveis a incêndios fatais como era o Ninho do Urubu.

Afinal, estamos falando de vidas. De sonhos de crianças e de famílias que, certamente, nunca mais viverão do mesmo jeito. Se isso não for capaz de nos indignar a ponto de aprender com essa fatalidade, aí banalizamos a própria morte e voltamos à idade média.

E as mortes futuras (Brumadinho não foi apenas um Dejá Vu de Mariana)  vão continuar, apenas, atrapalhado o tráfego, o público ou o sábado de futebol.

 


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