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21 de março de 2019, 06h00

O adeus a Fernando de Brito

Foi para seguir a palavra que acreditava que lutou contra a ditadura militar brasileira junto aos seus companheiros. Preso em 1969, foi torturado e massacrado moralmente por um regime que tirou a vida de tantos companheiros seus, como Frei Tito.

Por Luisa Dias*

Frei Fernando de Brito é personagem da história recente do Brasil, mas para mim, era para além disso meu padrinho, conselheiro em tempos de rebeldia de adolescência e um ouvinte atento às necessidades de uma família forjada no exílio e sem tantas condições para se estabelecer em um estado ruralista e nem sempre acolhedor. Viemos da Bélgica para Goiás, eu, pai e mãe no começo da década de 1980, após o exílio deles por causa da ditadura militar brasileira.

O profeta sorridente, como tão bem o definiu um dos seus amigos durante o seu velório em Goiânia, era amoroso e divertido, justo e sábio e tinha alma de criança. Era como eu o via desde que o conheci, na primeira infância. Como missionário em um mundo onde a vida não era e não é justa, se fazia presente na luta pela reforma agrária, por justiça no campo, pelo fim da fome e da miséria em nosso país. Depois, mais adiante, lutou pelo respeito à diversidade religiosa, seu legado mais recente em Sítio do Conde, no interior da Bahia.

Não era um padre no sentido novelesco da palavra. Andava de bermuda, regata e chinelos, fios de contas e anel de coco, sacolinha de algodão pendurada no ombro, arrastando os pés e rindo rouco. Quando pronto, gostava de uma bata bordada, feita à mão, com detalhes nos quais ele enxergava o sagrado do trabalho e da arte. Não era comedido em palavras, mas sua simplicidade cativava o povo, em especial, as crianças. Era um menino quando se deliciava nos encontros com os amigos e se via à frente de uma mesa posta. Dizia, sem a parcimônia nem a formalidade de um religioso, que era um banquete. Abençoava as refeições com seu amor à vida.

Fernando era mineiro de nascimento, mas viveu aqui e acolá, tendo grande legado em Goiás e na Bahia, seu último domicílio. Partiu numa sexta-feira, 15 de março, em Goiânia, silencioso em suas dores, procurando com o olhar os nomes dos seus afetos e deixando aos 82 anos a memória de um homem que seguiu os ensinamentos de Cristo, como escolheu ainda muito jovem.

Foi para seguir a palavra que acreditava que lutou contra a ditadura militar brasileira junto aos seus companheiros. Preso em 1969, foi torturado e massacrado moralmente por um regime que tirou a vida de tantos companheiros seus, como Frei Tito. Visitou os porões do Dops e depois cumpriu pena durante quatro anos no Presídio de Tiradentes. A acusação era de estar aliado aos revolucionários, em especial Marighela, que teve sua morte ligada à tortura sofrida pelos dominicanos. Mas a verdade é que no Convento de Perdizes, em São Paulo, os dominicanos receberam e organizaram o acolhimento e a fuga de vários militantes, resistentes à ditadura naquele momento.

Fernando era crente em seu povo. Não cessou nem na cela, nem no pesadelo, de imaginar um mundo onde a justiça e a liberdade fossem imperativos comuns. Escreveu em letras minúsculas e papel de seda o retrato dos anos de chumbo. Escritos que vieram a ser conhecidos pelo mundo em 2009, no livro Diário de Fernando (Editora Rocco), pelo registro de Frei Betto, seu companheiro de prisão, responsável por organizar os documentos guardados por quatro décadas.

Dele ouvi o primeiro relato, quando ainda não contava 13 anos, sobre o que era tortura e o que os presos, como ele, meus pais e meu tio sofreram na prisão durante os anos de chumbo. O personagem de Batismo de Sangue (Editora Rocco) – o livro de Frei Betto que se tornou filme -, era para mim encarnado na figura de um homem branco, ainda tinha alguns cabelos pretos, óculos no rosto, sentado na beirada da cama da minha mãe, me olhando fundo nos olhos para que eu pudesse crescer. Foi assim que eu soube de parte das atrocidades cometidas nos porões da ditadura, em forma de eletrochoque e pau de arara.

Após conquistar a “liberdade”, Fernando veio fazer trabalho de base em Goiás, onde atuou na Comissão Pastoral da Terra. Era companheiro de Dom Tomás Balduíno e do meu tio Airton, que também era frei dominicano, operários da Teologia da Libertação. Eu era uma menina quando o conheci, na década de 1980, no retorno dos meus pais ao Brasil, ao lado da minha madrinha, Luisella Ancis, sua amiga e companheira de batalhas. Sempre achei que o escolhendo padrinho, eu teria a bênção de ter a sua coragem. Quando me batizou, não disse as formalidades de um sacramento, mas fez um compromisso comigo e com minha existência que durou pela vida afora.

Fernando tinha amor e carinho pelas irmãs e sobrinhos, de quem sempre contava histórias recheadas de admiração. Mas, como Cristo, fez família onde estava, sendo responsável e presente nos lares e nos conflitos que o exigiam. Nos últimos anos, suas visitas a Goiás eram recheadas da doçura de seus relatos sobre o candomblé e as experiências ecumênicas vividas harmoniosamente na Bahia, sobre o neto Kaíque, sobre a brisa do mar que lhe molhava o corpo enquanto balançava a rede, sobre os DVDs que se acabavam nas lojas e já não seriam mais possíveis de se encontrar, sobre os companheiros que aqui e ali se despediam da vida, sobre o melhor sorvete do Cerrado.

Até que foi a sua vez de seguir. Fernando foi embora deixando sua memória viva em uma despedida que lembrou as romarias da terra e os gritos dos excluídos pelo tempo, pela miséria e pelo medo. Na sua missa de corpo presente, na São Judas Tadeu, em Goiânia, com uma chuva que lavou as escadarias da igreja e nossas lembranças obscurecidas, o chamado era para fazê-lo presente em nosso compromisso com a verdade e com os mais pobres, com um mundo onde as cantigas de ninar falem de uma terra de leite e de mel, abençoada por um pai ou uma mãe que reúne seu povo para partilhar e para vê-lo feliz.

Segue em paz, Fernando.

*Luisa Dias é jornalista.


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