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04 de agosto de 2019, 09h39

Padre que esteve preso em Altamira relata horrores do cárcere

Religioso que sucedeu a missionária Dorothy Stang, assassinada em 2005, esteve preso por 52 dias do mesmo presídio em que 58 detentos foram massacrados na última semana

Foto: Bruno Cecin/Agência Pará

Sucessor da missionária americana Dorothy Stang, assassinada em 2005 no Pará, o padre José Amaro Lopes passou 52 dias preso no Centro de Recuperação Regional de Altamira, cenário da tragédia que deixou 58 presos mortos na última segunda-feira (29). Em relato ao repórteres Fabiano Maisonnave e Danilo Verpam, da Folha de São Paulo, o religioso narra os horrores que viveu ao se deparar com o sistema carcerário brasileiro. “No dia de domingo, eles só servem café e almoço, não tem janta. Quem não tinha visita, ficava sem comida. Muitos pediam comida tarde da noite, aquilo não é humano”, conta Lopes, que poderia ter sido mais uma vítima do massacre caso não tivesse sido solto após um habeas corpus concedido por unanimidade pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

“O que a cadeia oferece é sair mais revoltado. Ali não ressocializa ninguém. A Igreja Católica e os evangélicos vão lá, as pessoas são bem receptivas para falar de Deus, mas não é tudo. Até mesmo porque muitas pessoas que deveriam estar fora continuam ali. A Defensoria Pública tem só uma pessoa para atender a todos”, denuncia Lopes, traçando um quadro dramático onde faltam médicos (“um para atender a todas aquelas pessoas”), o dentista só aparece para arrancar dentes e a escola não funciona.

Matador de Dorothy como vizinho de cela

O padre é acusado por fazendeiros de crimes como extorsão em processo denunciado como fraudulento criticado pela Igreja Católica e por entidades de direitos humanos. No preso em que esteve preso, chegou a ser vizinho de cela de Regivaldo Pereira Galvão, fazendeiro conhecido como Taradão, condenado a 25 anos pelo assassinato da missionária americana. “Ele me dava bom dia, boa tarde e me disse três vezes que ele e eu éramos inocentes e que isso era uma armação que fizeram comigo. Deu feliz Páscoa, fez a política das boas maneiras. Só isso. Não desenvolvi a conversa, não”, recorda.

O desrespeito aos mais elementares princípios dos direitos humanos foi justamente com o que Lopes se deparou no período em que esteve encarcerado. Logo em seu primeiro dia, foi encaminhado a um cubículo que deveria ser individual. “Eles me colocaram em uma cela pequena para pessoas de curso superior, 4 metros por 4 metros. É para apenas uma pessoa, mas, quando cheguei, éramos quatro”, disse, comprovando na prática a superlotação nos presídios.

Em vez de ser um local para promover a ressocialização dos presos, o Centro de Recuperação Regional de Altamira reúne tudo que pode existir de pior em termos de insalubridade e de insegurança. O religioso revelou que lá existem pelo menos três contêineres usados como celas. “Os agentes entravam lá rapidinho pra fazer a tranca e saíam pingando de suor. É só uma janelinha”, narra Lopes, acrescentando que os detentos que eram mantidos nesses espaços cheiravam a “couro velho”.

Lopes disse não ter presenciado violência mas pode perceber a rivalidade entre as facções existentes no presídio cujos membros eram identificados por tatuagens. “Uma noite chegou um jovem na enfermaria que havia sido furado no lado, na costela. Fizeram os procedimentos. Perfuraram o intestino dele”, lembra. O rapaz sobreviceu. Até quando não se sabe. Leia do relato completo do padre aqui.


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