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31 de outubro de 2019, 14h01

Pesquisador da UFAL aponta desmonte em órgão de monitoramento de vazamento de petróleo por Bolsonaro

Pesquisador também rebateu posicionamento da Marinha e disse que instituição até então não tem nenhuma informação técnica para esclarecer que o óleo não é brasileiro

Óleo em praia próxima à Foz do Rio São Francisco - Foto: Wilfred Gadêlha

O pesquisador Humberto Barbosa, do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), vinculado à Universidade Federal de Alagoas (UFAL), disse em entrevista à Fórum nesta quinta-feira (31) que avalia um aumento de tensão no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) desde que o ex-diretor Ricardo Galvão foi demitido pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) e que isso pode estar contribuindo para uma falha no monitoramento do litoral brasileiro, retardando os procedimentos de prevenção e investigação da tragédia do óleo nas praias do Nordeste.

“Não usaria a palavra omissão, porque não diria que os pesquisadores estão se omitindo. Mas houve uma recomendação baseada nos fatos que foram públicos. A demissão do diretor é pública e as razões eu não entro em mérito. O Ricardo Galvão tem um posicionamento e sofreu consequências por conta desse posicionamento. Isso colocou uma certa tensão no Inpe, funcionários tinham que prestar justificativas quando iam em missões”, contou o pesquisador.

Barbosa é pesquisador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), vinculado à Universidade Federal de Alagoas (UFAL), que detectou nesta segunda-feira (28) um padrão de manchas de óleo no oceano que pode explicar a origem do vazamento no Litoral do Nordeste. Registros sugerem que vazamento está abaixo da superfície do mar e pode ter vindo do Pré-Sal.

As hipóteses levantadas pelo pesquisador batem de frente com a teoria de órgãos do governo, como Marinha, Ibama e Petrobras, que afirmam que o óleo que chegou ao litoral nordestino se trata de petróleo cru com “assinatura” da Venezuela, ou seja, só é extraído naquela parte do mundo. Ainda, essas instituições descartam a relação das imagens obtidas pelo Lapis com as manchas de óleo que poluem as praias do Nordeste.

Apesar disso, especialistas afirmam ser improvável que o óleo tenha vazado diretamente de lá, e a própria Venezuela já afirmou que não tem ligação com a origem do desastre. Barbosa ainda afirma que, pela localização do óleo, trata-se de algo muito maior do que um derramamento acidental ou proposital, a partir de um navio. Na verdade, de acordo com ele, é um vazamento que está abaixo da superfície do mar, decorrente de perfuração. Portanto, a pesquisa aponta que a origem do óleo no litoral Nordestino pode ser um vazamento de algum poço de exploração de petróleo na região, que fica próxima de áreas de exploração da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Barbosa também chama atenção para o fato de que o governo federal até então não utilizou toda a tecnologia disponível para as investigações da tragédia. Ele conta que existe uma câmara setorial em Brasília destinada a parcerias e cooperações com a Europa, sendo um dos projetos o monitoramento de derramamento de óleo através de dados do satélite Sentinel-1A, da Agência Espacial Europeia (ESA). “Nada explica porque o Sentinel não foi utilizado no monitoramento”, afirma o pesquisador.

Este satélite foi utilizado pelo Lapis para aferir as imagens da mancha no Sul da Bahia que, segundo ele, é uma área de grande exploração de petróleo. “Precisamos de um monitoramento rápido e urgente por toda a costa oeste do Brasil. Porque toda a questão do vazamento é normal, se fossem poucos vazamentos, mas não é normal o que está acontecendo. Nesse momento a gente precisa ter rapidez, a gente precisa saber qual é o projeto que o governo está colocando para isso, mas eu não vejo nenhum projeto com clareza operacional até então”, enfatizou.

O pesquisador ainda comentou o posicionamento da Marinha com relação às imagens divulgadas pelo Laboratório do qual faz parte. “Se eu tivesse informações precisas da Marinha, eu não teria nenhum problema de ego, eu descartaria rapidamente [as hipóteses]. Mas até então não tem nenhuma informação técnica que pudesse esclarecer que o óleo não é brasileiro”, completou o pesquisador, que enfatizou a necessidade do governo em dar respostas mais precisas e menos políticas para essa questão.

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