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03 de agosto de 2017, 21h12

Política de desenvolvimento da Petrobras: Liderança tecnológica em risco

Embora a Petrobras e o Brasil possam se consolidar em posições de liderança tecnológica em termos mundiais no setor de petróleo e gás, esse futuro promissor está ameaçado, pois as políticas de desinvestimento da estatal realizadas pela gestão atual afetam negativamente o desenvolvimento de novas tecnologias. Abandonar esta atividade é comprometer o futuro da empresa

Por Paola Azevedo*

A descoberta do Pré-Sal traz grandes desafios tecnológicos ao setor de petróleo e gás, como, por exemplo, questões relativas à dinâmica dos reservatórios, que só a continuidade da produção e os testes de variadas tecnologias poderão solucionar. Trata-se de um momento ímpar na história do Brasil, no qual a Petrobras ganha destaque, em virtude de sua condição de liderança na produção de petróleo e gás no país e de investidora na área de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).

Conforme apontado pelo IPEA (2013), as oportunidades em relação ao Pré-Sal vão além das fronteiras brasileiras, uma vez que, com a descoberta da presença de petróleo e gás natural em condições geológicas semelhantes em outros países, o Brasil passará a ser um laboratório com potencialidades em nível mundial para cientistas, governos e empresas. Em consonância com esse contexto, e considerando a existência dos reservatórios no Pré-Sal, o país pode se tornar uma potência energética nessa área e, para tanto, precisa investir fortemente em P&D a fim de ampliar os conhecimentos tecnológicos, desenvolver inovação e aproveitar seu pioneirismo na exploração de petróleo e gás natural no Pré-Sal para que se torne, também, um fornecedor dos serviços e tecnologias para a exploração dessas reservas.

Historicamente, a Petrobras tem realizado vultosos investimentos em P&D em parceria com Universidades e institutos de pesquisa para o desenvolvimento tecnológico e inovativo. Aliada aos resultados das operações internas da empresa, essas parcerias têm propiciado ao longo dos anos uma série de avanços tecnológicos, inclusive voltados ao Pré-Sal, e contribuíram para que a empresa recebesse por três vezes (1992, 2001, 2015) o Distinguished Achievement Award da Offshore Technology Conferente (OTC), que se configura como prêmio mais importante do setor petrolífero offshore mundial. A Petrobras recebeu este prêmio pelo fato de ter sido a empresa com maior contribuição para o desenvolvimento tecnológico da indústria offshore, e especificamente no ano de 2015 como reconhecimento às tecnologias de ponta desenvolvidas para a produção da camada Pré-Sal.

Embora a Petrobras e o Brasil possam se consolidar em posições de liderança tecnológica em termos mundiais no setor de petróleo e gás, esse futuro promissor está ameaçado, pois as políticas de desinvestimento da estatal realizadas pela gestão atual afetam negativamente também o investimento em P&D e o desenvolvimento de novas tecnologias, sejam elas decorrentes do aprendizado interno à organização, ou mesmo, a integração e absorção de tecnologias de ponta, ambas vinculadas ao próprio processo produtivo da operadora e que exigem P&D. Abandonar esta atividade é comprometer o futuro da empresa. De acordo com os Relatórios de Sustentabilidade da Petrobras, os investimentos em P&D totalizaram R$ 2 bilhões em 2015 e 1,8 bilhão em 2016. Aliada à redução de 9,78% em P&D, houve também um decréscimo do investimento nas interações com Universidades e institutos de pesquisa, de R$ 700 milhões para R$ 548,5 milhões.

Aproveitando-se desse cenário de redução do investimento em P&D por parte da Petrobras, que vai em direção oposta às estratégias do setor, outras empresas e países tem buscado ocupar este espaço do Pré-Sal no período recente. Uma destas empresas é a anglo-holandesa Shell, cujo chefe executivo Ben van Beurden anunciou ainda em 2016, em visita ao Brasil, detalhes acerca dos US$ 10 bilhões que a multinacional planeja investir no país de 2017 a 2020, com prioridade voltada a projetos vinculados ao Pré-Sal. Em maio deste ano a Shell assinou também um acordo de cooperação com o Senai para projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Um dos objetivos da parceira é que o Senai atue como um agente facilitador para a Shell disseminar sua presença no mercado brasileiro.

Outra empresa significativa no cenário brasileiro na área de petróleo e gás, que aumenta gradativamente os investimentos em P&D para exploração do Pré-Sal, é a empresa norueguesa Statoil Brasil Óleo e Gás. Esta criou em 2011 o Research Center Rio (RCR), e recentemente fechou acordo com a FAPESP para a criação do Engineering Research Center in Reservoir and Production Management, que terá atividades voltadas para pesquisa, disseminação e transferência de conhecimento. A Statoil já investiu mais de US$10 bilhões no país, e planeja se consolidar como única operadora da descoberta de Carcará, na Bacia de Santos, a qual se situa entre as maiores do mundo, para tanto, pretende mais do que triplicar sua produção no Brasil até 2030 segundo o presidente das operações da estatal norueguesa no país.

Ao contrário da Petrobras, essas empresas tem se aproveitado das possibilidades de forte desenvolvimento da cadeia produtiva de petróleo e gás, provenientes da descoberta do Pré-Sal, para fortalecer sua atuação no Brasil, principalmente nos setores de P&D e inovação. Portanto, enquanto muitos países de expressão no setor energético seguem na realização de estratégias de longo prazo, fortalecendo e qualificando sua indústria nacional em nível mundial, investindo de forma progressiva em P&D em parcerias com Universidades e Institutos de pesquisa, o Brasil adota direção contrária, pondo em risco a liderança tecnológica da Petrobras e, sobretudo, a soberania energética do país.

*Paola Azevedo é Doutora em Administração (UFSC); Membro do Grupo de Estudos Estratégicos e Propostas (GEEP) da FUP


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