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12 de fevereiro de 2019, 06h50

Professora repudia assédio moral promovido por Carlos Bolsonaro a mestrando da FURG

"Como emitir juízos de valores sem conhecer o conteúdo de uma pesquisa e mais grave, pautar o que deve e o que não deve ser pesquisado?", indaga a professora, que orienta a pesquisa

Carlos Bolsonaro e as críticas ao pesquisador (Reprodução)

A professora Susana Maria Veleda da Silva, do Programa de Pós-graduação em Geografia (PPGeo) do Instituto de Ciências Humanas e da Informação da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), no Rio Grande do Sul, emitiu nota nesta segunda-feira (11) repudiando o “assédio moral” que o mestrando Diego Miranda Nunes, orientado por ela, após as ironias publicadas por Carlos Bolsonaro (PSC/RJ) em seu Twitter.

Frequentador assíduo do Twitter, onde promove polêmicas rotineiramente, o filho de Jair Bolsonaro (PSL), ironizou a pesquisa conduzida pelo mestrando da FURG, que tem como tema: “A produção das masculinidades e socioespacialidades de homens que buscam parceiros do mesmo sexo no aplicativo Tinder em Rio Grande – RS”.

“Meu Deus! Isso é uma *dissertação de mestrado! Este senhor recebeu dos cofres públicos, nos últimos 2 anos, uma bolsa de R$1.500, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Nota-se porque o Brasil está no nível de educação que está. Tire suas conclusões”, tuitou Carlos.

Na nota, Susana Maria Veleda afirma que o as manifestações “que constrangeram Diego, configurando-se num assédio moral, num momento tenso na vida de qualquer acadêmico: a defesa de sua pesquisa”.

“Como emitir juízos de valores sem conhecer o conteúdo de uma pesquisa e mais grave, pautar o que deve e o que não deve ser pesquisado, em um país com sólida estrutura de avaliação pelo pares e ampla divulgação científica?”, afirma a professora, ressaltando que, “nos países democráticos, outras posturas estão distantes da produção do conhecimento científico”.

Leia a nota na íntegra.

Nota de Esclarecimento

A dissertação orientada por mim, está em processo de avaliação por uma banca qualificada academicamente e oficializada no PPGeo e na FURG. Em primeiro lugar, repudio todas as manifestações, que constrangeram Diego, configurando-se num assédio moral, num momento tenso na vida de qualquer acadêmico: a defesa de sua pesquisa. Segundo, trata-se de uma pesquisa realizada com os rigores e rituais da produção científica reconhecidos não apenas em diversos campos do conhecimento nas academias dentro e fora do país, mas em ambientes extra campus. Entre os rigores dos rituais acadêmicos, está a leitura prévia do texto completo pela banca de avaliação, a sua apresentação pelo autor em data e ambiente compatível, a arguição e o debate entre os docentes avaliadores e o responsável pelo trabalho. Portanto, apenas e tão somente os membros da banca e o autor dispõem do texto integral. O texto integral é resultado de um conjunto de atividades regulares realizadas no programa e de uma pesquisa qualificada em duas ocasiões: no Seminário do PPGeo e na qualificação realizada em 2018, sendo indicada, pelos membros das bancas, como uma pesquisa com todas as condições acadêmicas de ser apresentada como uma Dissertação de Mestrado em Geografia. O processo baseia-se em um dos princípios da Ciência e em especial das Ciência humanas e da Geografia: estudar as diferentes dimensões e tensões da realidade (offline ou online), do mundo, do planeta e das relações sócio-espaciais de poder. Categorias de análise como gênero e sexualidades, entre outras, já fazem parte do repertório teórico e metodológico da Geografia há mais de trinta anos, constituindo-se em conceitos basilares das Geografias feministas. No século XXI, a pesquisa acadêmica deve ousar na produção de metodologias para compreender as potencialidades, os limites e as tênues fronteiras entre o que se apresenta como off-line ou online. Daí, uma diferença essencial entre a Ciência e senso comum que, em tempos passados, criminalizou estudiosos que possibilitaram conquistas para a humanidade. Portanto, como emitir juízos de valores sem conhecer o conteúdo de uma pesquisa e mais grave, pautar o que deve e o que não deve ser pesquisado, em um país com sólida estrutura de avaliação pelo pares e ampla divulgação científica? Entendo que, nos países democráticos, outras posturas estão distantes da produção do conhecimento científico. No plano das ideias científicas, de argumentos baseados na realidade e no acúmulo de produção acadêmica, informo que a Dissertação de Diego Miranda Nunes tem todas as condições de ser apresentada conforme os ritos acadêmicos de qualquer Instituição de Ensino Superior (IES) nacional e internacional. Atenciosamente,

Susana Maria Veleda da Silva

(Professora do PPGeo/ ICHI/FURG)

11/02/2019

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