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23 de fevereiro de 2018, 15h11

Reflexos da intervenção: Exército “ficha” moradores de favela e impede cobertura da imprensa

Habitantes de três comunidades estão sendo fotografados individualmente; depois disso, foto e RG são enviados para um setor de inteligência, que avalia se a pessoa tem anotação criminal

Diferentes pontos de identificação foram montados em uma série de saídas das comunidades – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Os primeiros efeitos da intervenção militar no Rio de Janeiro começam a ser observados. E como era previsto, quem está sofrendo é a comunidade mais carente, habitante de bairros pobres. Moradores de três comunidades da zona oeste estão sendo “fichados” por militares do Exército, durante uma operação realizada nesta sexta-feira (23). As pessoas só podem deixar suas regiões após passarem pelo cadastramento das Forças Armadas. As informações são de Sérgio Rangel e Danilo Verpa, da Folha de S.Paulo.

Diferentes pontos de identificação foram montados em uma série de saídas das comunidades. A foto e o RG dos moradores são enviados por um aplicativo para um setor de inteligência das forças de segurança, que avalia se o identificado tem anotação criminal.

Depois de flagrar o “fichamento” de moradores, a reportagem da Folha foi impedida de seguir no local e encaminhada por homens do Exército a uma distância de 300 metros. Ao justificar a medida, um militar disse que a presença da imprensa estaria “intimidando o trabalho deles”.

O pedreiro Edvan Silva Monteiro, 47, reclamou da abordagem dos militares. Pouco antes do meio-dia, ele voltava para a Vila Kennedy, após ter perdido o dia de trabalho. Monteiro disse que foi obrigado a voltar para sua casa pelos militares já que estava sem documento ao tentar deixar a comunidade pela manhã.

“Estava saindo pro serviço apenas com a marmita, e o pessoal do Exército disse que precisava ver meus documentos. Ao voltar para casa, acabei me atrasando e fui dispensando por meu patrão pelo atraso”, afirmou o pedreiro, acrescentando que foi fotografado com e sem boné pelos soldados do Exército.

Comandante da operação, o militar que se identificou apenas como Roberto disse que somente o RG dos moradores está sendo enviado para o banco de dados dos agentes de segurança. O CML (Comando Militar do Leste) ainda não se pronunciou sobre o motivo de “fichar” os moradores das três comunidades.

Nesta quinta-feira (22), o presidente da OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, anunciou os integrantes de uma comissão que acompanhará o trabalho dos militares no Rio. Na solenidade, ele disse que a OAB não aceita “a ideia de criminalizar a pobreza dessa cidade” e cobrou que a intervenção “montada às pressas precisa ter conteúdo”.

Desde a madrugada desta sexta (23), 3.200 militares realizam uma operação na Vila Kennedy, Coreia e Vila Aliança. Pelo menos duas pessoas foram presas. A operação tenta prender suspeitos de matarem, na terça-feira (20), o sargento do Exército Bruno Albuquerque Cazuca, durante um arrastão em Campo Grande. Na quarta (21), o subcomandante da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da Vila Keneddy foi morto em Jacarepaguá.

A operação também conta com agentes das polícias Civil e Militar. O Exército é responsável pelo cerco e desobstrução de vias da região. A operação é acompanhada pela cúpula do Exército no Centro Integrado de Comando e Controle (CICC). Nesta semana, o Exército realizou operações em diversas comunidades da capital e de municípios da região metropolitana do Rio.


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