São Paulo

Antes e depois: sem verde e com muito concreto, Vale do Anhangabaú é liberado em São Paulo

O logradouro havia sido inaugurado em julho deste ano, mas ainda com gradil que restringia o acesso; com duração de dois anos, a obra foi muito criticada pelo seu caráter higienista

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A partir desta segunda-feira (6) todos os paulistanos e visitantes da cidade de São Paulo poderão acessar os espaços do Vale do Anhangabaú, que até este domingo ainda tinha gradis em seu entorno que limitava a utilização do espaço.

Localizado no centro de São Paulo, o Vale Anhangabaú passou por uma reforma que durou dois anos e foi muito criticada pelo excesso de concreto em detrimento do verde e de espaços com sombra presentes anteriormente à obra.

O Consórcio Viva o Vale será o responsável pela gestão do espaço nos próximos 10 anos.

O custo total da reforma foi de R$ 105,6 milhões. Em novembro deste ano, o Tribunal de Contas do Município (TCM) indicou quatro irregularidades no contrato de manutenção do espaço. À época, a prefeitura da cidade de São Paulo afirmou que ia averiguar.

Vale do Anhangabaú, em 2018, antes da reforma/Foto: A vida no centro

Vale do Anhangabaú: reforma repleta de críticas

A principal crítica ao novo Vale do Anhangabaú é que, em sua versão anterior, que deixou de existir em 2018, o espaço contava com árvores que faziam sombra e onde as pessoas podiam descansar ou desfrutar do lugar.

Com a finalização da obra, grande parte das áreas verdes foram retiradas e deram lugar a chafarizes, luzes no chão e espaços que devem ser ocupados por lojas.

Uma das principais críticas ao projeto se deve ao fato da manutenção de um espelho d’água intermitente que ocupa o centro do Vale e, cuja execução, levou ao corte de árvores e desfiguração completa do projeto anterior.

Todavia, em defesa do projeto, a prefeitura da cidade de São Paulo garante que entrega um “espetáculo” aos paulistanos e aos visitantes da capital paulista.

Reforma ou higienização?

Outra questão levantada por urbanistas e militantes do direito à cidade é que, como o objetivo de transformar o Vale do Anhangabaú em um “grande boulevard”, esconde-se a estratégia de expulsar moradores de rua e também de gentrificação da região. Tal questionamento foi levantado pelo arquiteto Guido Otero.

“Em apresentação pública online, realizada em junho de 2020, a Prefeitura de São Paulo trouxe como referência para ocupação destas novas frentes comerciais reconhecidos restaurantes voltados para o público de classe alta. Ou seja, se o problema que motivou a obra for de ‘ativação’, o que parece estar em jogo na terceirização da gestão deste espaço é qual será o público do novo Anhangabaú e como serão tratados aqueles que não se enquadrem neste espectro.”

Além disso, Otero lembra o fato de o Vale do Anhangabaú ser famoso pela ocupação democrática de seus espaços: seja pelos transeuntes, seja pelos variados tipos de festivais culturais que por lá já ocorreram.

“Estamos falando de um espaço reconhecidamente público, que guarda inúmeras camadas de memória e referências culturais caras para a cidade. Na história mais recente ele foi palco tanto de uma miríade de eventos culturais voltados para todos os públicos – de shows à exibição dos jogos da Copa do Mundo, nos quais experimentou seu fechamento e controle para o público em geral – quanto espaço de manifestações fundamentais para o estabelecimento da democracia, como o emblemático comício das Diretas Já, que marcou a derrubada da ditadura civil-militar. Se o Vale já foi o espaço da democracia, a sua gestão privada poderá colocar em xeque seu nobre fundamento?”, questiona o pesquisador.

Vale do Anhangabaú, em 2021, depois da reforma/Foto: reprodução nas redes sociais

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Com informações do LabCidade

Este post foi modificado pela última vez em 6 dez 2021 - 15:43 15:43

Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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