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06 de junho de 2018, 14h27

Saúde da Família: como andam as adaptações nas escolas de medicina

Resolução que converge formação das escolas de medicina para a Estratégia de Saúde da Família, baseada no SUS, tem que ser implementada por completo até dezembro de 2018, mas profissionais ainda resistem em atuar na área

Foto: Arquivo/EBC

Por Ana Clara Giovani*

Em junho de 2014, a partir da resolução nº3, foram implementadas novas diretrizes para os cursos de medicina em todo o Brasil. O objetivo da resolução é convergir a formação médica para a Estratégia de Saúde da Família, a base do Sistema Único de Saúde (SUS). As escolas têm até o final deste ano (2018) para implementar as mudanças necessárias. Apesar de bem desenvolvidas e aplicadas pelas universidades, as mudanças parecem não ter impacto relevante para a população já que são poucos os profissionais que se especializam na área da medicina familiar.

Cursos estruturados a partir da resolução, como é o caso da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul, já são atualizados e construídos inteiramente a partir das novas diretrizes. A estudante Luiza Meireles, do quarto ano do curso de medicina da UEMS, em Campo Grande, conta que desde o primeiro ano o aluno aprende a ver o doente e não a doença. O curso é composto por dois pilares que se cruzam durante toda a formação: a metodologia ativa – que deixa de lado a tradicional relação professor-aluno e desafia o aluno a construir o próprio conhecimento – e a inserção precoce na prática – que expõe o aluno, desde o primeiro ano, a procedimentos práticos da profissão.

Ainda no primeiro semestre, durante o módulo de Abrangências em Ação de Saúde, toda a proposta e funcionamento do SUS é estudado – desde a legislação até a organização dos cargos. Simultaneamente, o módulo Interação, Ensino, Serviço e Comunidade (IESC) possibilita aos alunos trabalharem semanalmente nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). O IESC é um módulo longitudinal, que se repete anualmente até o quarto ano do curso, o que dá aos alunos a oportunidade de prática constante.

Teoria e prática em constante relação formam médicos mais humanos. O estágio obrigatório no SUS e 30% da carga horário do internato dedicadas ao sistema são exigências decretadas pela resolução de 2014. “No primeiro ano a gente ainda não sabe diagnosticar, mas por ter tanto contato com os pacientes, aprendemos a conversar, entender quem são aquelas pessoas que estão na nossa frente e isso nos humaniza”, conta Luiza. Além disso, os alunos passam a ser referência também para os médicos, enfermeiros e agentes comunitários da UBS, porque estão sempre estudando e se atualizando sobre o sistema.

Diferentemente do curso da UEMS que foi inaugurado em 2015, a escola de medicina de Pinheiros da Universidade de São Paulo é uma das mais tradicionais da cidade e também teve que passar por mudanças. As disciplinas teóricas são distribuídas pelos quatro primeiros anos de curso enquanto os trabalhos nas UBS só são desenvolvidos nos dois anos de internato. A USP é responsável pelo projeto Zona Oeste, que assiste à 6 Unidades básicas de saúde da região.

Para David Braga Junior, médico do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo e fiel defensor do Sistema Unificado de Saúde, as universidades brasileiras formam, sim, médicos da família. Apesar de todo o estímulo construído durante a formação, somente 0,2% dos profissionais, no entanto, atuam como médicos da família. A coordenadora da Universidade Federal de Juiz de Fora, Ivana Damásio, aponta a precariedade do serviço público como fonte do problema: “O motivo pela baixa procura por residência de MFC deve ser pela baixa remuneração e baixa qualidade de trabalho oferecida nas Unidades de Saúde de todo o país, onde não raro faltam pias para lavagem de mãos, insumos, medicamentos e rede eficaz de serviços secundários e terciários de cuidados aos pacientes.”

Uma outra justificativa é que a residência em medicina familiar não é imprescindível para atuar nas UBS. Para Maristela Freire, estudante do sexto ano de medicina da USP, o médico de família também é desvalorizado pela população brasileira. Devido a boa formação médica no Brasil, faz-se presente uma cultura de medicina especializada e de pronto socorro: os pacientes só confiam e querem consultar os médicos que são especializados quando as patologias já estão em casos de serviços secundários e terciários. Esse fenômeno não reconhece a capacidade do médico de família de desenvolver um acompanhamento a longo prazo nos atendimentos primários, que são 90% dos casos.

*Ana Clara Giovani é estudante de jornalismo no curso “Repórter do Futuro”, da Oboré


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