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23 de janeiro de 2020, 20h55

Serra Talhada, terra de Lampião, a capital do Cangaço

No segundo capítulo da reportagem especial sobre os 80 anos do fim do cangaço, o professor e colaborador da Fórum, Henrique Rodrigues, relata sua passagem por Serra Talhada (PE), cidade onde nasceu o Rei do Cangaço

Entrada do Sítio Passagem das Pedras, zona rural de Serra Talhada (PE) - Foto: Henrique Rodrigues

Por Henrique Rodrigues*

Ao chegar a Serra Talhada (PE), cidade onde nasceu Lampião, já se nota o quanto o cangaceiro é onipresente. Há praça, rua, hotel e até uma fundação com seu nome. Por aqui, o cangaço permanece bem vivo aos olhos de todos.

Esta é a segunda parte de uma reportagem especial que será publicada em quatro capítulos. Confira a primeira aqui

A cidade, que é a segunda maior do sertão pernambucano, apenas superada por Petrolina, é uma mistura confusa de passado e futuro, de rusticidade e sofisticação.

Pelas ruas, os precários serviços de moto-táxi estão por todos os lados com seus coletes coloridos e nomes criativos, assim como alguns cachorros, gatos e galinhas que perambulam sem pressa, dóceis, contrastando com as modernas picapes e com os automóveis mais luxuosos.

Há também muita comida boa de rua, simples e cheirosa, espalhada pelas calçadas, em frente a mercadinhos que parecem saídos de um romance de Graciliano Ramos. E quem disse que não é possível degustar um vin de France, Bordeaux, no centro nervoso do sertão do Pajeú?

Oui, c’est possible!

Num garboso supermercado inaugurado há pouco tempo, quitutes para os paladares mais finos também são encontrados e a preços bem convidativos.

Certamente tudo isso era bem diferente nos dias em que Lampião esteve por aqui, reinando debaixo do sol inclemente.

Como a tônica do cangaço era a violência, num dos primeiros contatos na cidade, converso com o construtor Fabiano Bezerra de Souza sobre o crescimento da violência na região, tão alardeado pela imprensa nos últimos anos. O serra-talhadense explica que no município a percepção que ele tem é outra: “Aqui é uma cidade tranquila. A gente vê coisas do tipo em outras cidades da região, mas em Serra Talhada anda tudo calmo… Você sai na rua à noite, ou em qualquer outro horário, e é isso aí ó… Tudo tranquilo… Não tem cangaço, não”, brinca.

Chibarrada descansa à sombra de uma árvore frondosa, no caminho para o sítio onde nasceu Lampião, zona rural de Serra Talhada (PE) – Foto: Henrique Rodrigues

A versão também seria corroborada dias depois numa cidade vizinha, já no Estado da Paraíba.

Numa praça com ares cenográficos, na cidadezinha de Princesa Isabel, um homem idoso repousa sentado à sombra de uma gameleira, como se estivesse numa espera infinita, enquanto três meninos brincam com um chicote colorido, que estrala como bombinha de São João, ecoando pelos becos vazios da cidade. João Ferreira Santos diz não saber sua idade exata, denotando uma simplicidade tão grande quanto sua tranquilidade. Começamos a falar sobre o cangaço e o homem, que aparenta pouco mais de 70 anos, revela histórias sobre o tema que todo sertanejo de sua faixa etária carrega, fruto da contação de ‘causos’ de seus pais e avós, e estabelece uma relação com o cenário de hoje: “Meu pai, que era daqui também, falava muito de um homem que teve os dedos cortados pelos cangaceiros. Parece que era um sujeito que não queria ajudar. Não queria colaborar com o bando, né… Ainda bem que isso acabou, agora é tudo muito calmo nesse sertão.”

Um lugar simbólico 

Fui recebido no Sítio Passagem das Pedras por Cleonice Maria dos Santos, presidente da Fundação Cabras de Lampião, depois de alguns quilômetros intermináveis de estrada de chão num calor insuportável. Com ela estava Anildomá Willans de Souza, historiador e pesquisador da vida do temido cangaceiro, autor de cinco livros sobre o tema. A propriedade fica numa estrada vicinal que parte da PE-390, rodovia que liga Serra Talhada a Floresta.

PE-390, entre Serra Talhada e Floresta (PE) – Foto: Henrique Rodrigues

Precisei de um guia para chegar até lá. Carlos vai parando pelo caminho e narrando as principais passagens históricas que ocorreram em meio à caatinga.

Depois de uma água gelada e de ser apresentado ao lugar onde Lampião veio ao mundo, começo perguntando a Cleonice se falar sobre o Rei do Cangaço ainda é difícil na atualidade. “Ainda hoje encontramos resistência em relação a esse tema. Sim, muita resistência. Mas não se trata de cultuar o cangaço, ou a figura de Lampião. A questão é registrar uma etapa da história da vida nordestina que marcou uma época. Lampião exerceu domínio numa área que abrangia sete Estados do Nordeste.”, explica.

O historiador Anildomá faz um adendo à fala de Cleonice e argumenta que a tal divisão gerada pela figura de Lampião não é, na prática, exatamente como se fala. “Não é muito correto afirmar que Lampião ‘divide’ a opinião das pessoas. A percepção que nós temos, hoje e também há trinta anos quando realizamos o plebiscito, é que a parcela que tem simpatia e admiração por Lampião é bem maior, sobretudo nas áreas rurais e bairros mais pobres, enquanto aqueles que reprovam sua figura estão concentrados nas áreas mais nobres… Ou são grandes proprietários rurais, além de invariavelmente serem pessoas de famílias historicamente ligadas à aristocracia da nossa região… O problema é que aqueles que não gostam fazem muito estardalhaço, muito barulho.”

O plebiscito a que Anildomá refere-se foi uma consulta popular ocorrida em 1991, que perguntava à população o que pensavam sobre a construção de uma estátua gigantesca de Lampião no alto da serra que dá nome ao município.

Mais de 76% dos votantes aprovaram a ideia, embora o monumento nunca tenha sido erguido.

Inevitavelmente traço um paralelo com a atual divisão política da sociedade brasileira e indago Anildomá sobre um possível alinhamento ideológico de Lampião com correntes políticas. Ele responde, não sem antes dizer que a pergunta é complicada. “É muito difícil dizer que Lampião agia com uma visão política, com uma orientação ideológica. Claro que ele não tinha noção teórica… Aliás, essa é uma forma de encarar as coisas bem eurocêntrica, de valorizar o conhecimento acadêmico. Não era necessário ter lido Marx para ter uma percepção das injustiças sociais que existiam ali”, pontua.

Já que o assunto é a polarização provocada pela imagem do cangaceiro, pergunto se a atual divisão de nossa sociedade depois da última eleição também se reflete neste tema e se há desdobramentos no campo da cultura, já que a Fundação Cabras de Lampião é o órgão que mais fomenta iniciativas culturais nessa região do sertão pernambucano. Cleonice resolve responder em tom de desabafo. “Eu penso que mudou algo, sim. A gente sente que tudo se tornou mais complicado. Há um desmonte de todos os setores ligados à história, à cultura, às artes e vivemos numa aparente ameaça constante. Não se trata de fazer oposição ou críticas ao governo atual, mas é fato que esses setores vêm sendo destruídos, extinguidos… E quem faz isso, porque já odiava tudo relacionado aos temas, agora se sente totalmente legitimado para fazê-lo.”

*Henrique Rodrigues é professor de Literatura Brasileira e jornalista 

Esta é a segunda parte de uma reportagem especial que será publicada em quatro capítulos. Confira a primeira aqui

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