sábado, 19 set 2020
Publicidade

Trocamos educação por óleo

Somos um país que decidiu desprezar a educação. Enquanto que na Europa reduzir a dependência de petróleo é um objetivo, aqui o pouco investimento em educação será canalizado para o diesel.

Nunca aconteceu o oposto, e talvez nunca acontecerá. Reduzir os gastos em diesel para investir em educação… Utopia… Muitos irão dizer que o diesel é melhor porque sem ele tudo para. A greve dos caminhoneiros não servirá para pensarmos em caminhos mais sustentáveis para a nossa economia, apenas fortalecerá a indústria do petróleo (não pela perspectiva do trabalho, mas pela do capital) prestes a ser privatizada.

O governo gastará o nosso dinheiro para comprar mais e mais combustíveis das multinacionais americanas, norueguesas, chinesas etc.. Enquanto eles investem cada vez mais em educação para produzir riquezas e desenvolver tecnologias sustentáveis, nós “desinvestimos” porque a ordem é permanecer com os métodos tradicionais, estagnados.

É da natureza de quem tem muito ser poluente. EUA, China, e da América Latina é o Brasil. Em vez destes países de imensas terras a disposição pensarem em produzir em prol de um melhoramento da vida, pensam em tudo piorar. Em vez de usarem suas terras para abrigar, desabrigam.

Os países europeus, por seu turno, por terem um território menor, preocupam-se mais com o ambiente, contudo, parecem não ter receio de aplicar as mais draconianas medidas poluentes nos territórios que exploram.

O Brasil parece adotar esse método draconiano, não por escolha de seu povo, mas pelas “exigências” do mercado. Imita o modelo predatório norte-americano, não para se desenvolver mas para continuar retardatário e a servir o Império.

Em relação ao Velho Mundo, o meio ambiente será cada vez menos degradado, enquanto o nosso permanecerá castigado pelas empresas alemãs e nórdicas. A mão de obra de lá será cada vez menos precarizada (pois investem em educação), enquanto a nossa ocorrerá o oposto, já que decidimos rejeitar o principal pilar do progresso: a educação.

Entendemos como base da economia a malha rodoviária, não o progresso social em relação a conquistas humanas, e jamais a extensão dos direitos a um número cada vez maior de pessoas. Aprendemos que o que move a economia é o mercado e não os interesses dos que dele possuem a maior parte. Resolvemos desumanizar as relações humanas, para encará-las imparcialmente. É mais fácil provocar fome por meio de números na bolsa de valores que tirar pessoalmente a comida da boca de uma criança.

Fomos educados por uma educação autofágica que despreza a si mesma, pois procura valorizar mais e mais a indústria como base do desenvolvimento humano que a sapiência.

O candidato que lidera as pesquisas não tem nenhuma proposta para a educação. O projeto “escola sem partido” que defende, busca tirar mais humanidade das escolas. As reformas na educação do governo atual segue a mesma linha de raciocínio, priorizando o técnico, vilipendiando o humano.

Para além dessa questão, o nosso governo resolveu se aproximar das igrejas evangélicas. Temer afirmou que foi “iluminado” por deus para acabar com a crise dos caminhões. E enquanto que na Espanha o novo presidente nega-se a jurar sobre a Bíblia, por aqui o nosso candidato que lidera as pesquisas se diz cristão e se auto intitula “messias”.

O progresso capitalista é assim. Enquanto em um lugar existem leis rígidas para agrotóxicos, emissão de poluentes, assistência social, saúde e educação, no outro reina a precariedade, a alienação, a confusão entre política e religião (refiro-me aqui apenas aos países de maioria cristã).

A crise no Brasil contribuiu para o progresso dos grandes rentistas ligados ao capital externo e ao petróleo de um modo geral. A greve dos caminhoneiros trouxe mais desvantagens que vantagens para o futuro do Brasil, embora tenha alegrado aos que vendem combustível e aos que lucram com a circulação precária das mercadorias desumanizadas.

Uma sociedade que prioriza mais o combustível que a educação nunca irá avançar. Uma sociedade que tem fé no axioma interesseiro que assegura ser o mundo mais dependente de óleo que de educação jamais atingirá a prosperidade de seu povo.

Raphael Silva Fagundes
Raphael Silva Fagundes
Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.