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01 de março de 2018, 22h04

Tentativa de censura de Mendonça faz a 9ª universidade anunciar disciplina sobre o golpe

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte também vai oferecer uma disciplina sobre o golpe de 2016 e a democracia, seguindo o movimento da UnB

Divulgação

Por Agência Saiba Mais

As universidades públicas do país decidiram reagir em bloco aos ataques à democracia institucional do Brasil. Depois que a UnB divulgou a criação da disciplina “O golpe de 2016 e a democracia no Brasil”, pelo menos mais oito instituições federais ou estaduais seguiram a ideia. Até a conclusão desta reportagem, Campinas (Unicamp), São Paulo (USP), Amazonas (UFAM), Bahia (UFBA), Ceará (UFC), Paraíba (UEPB), Rio Grande do Sul (UFRGS) e Rio Grande do Norte (UFRN) também já confirmaram as aulas. O que muda, geralmente de uma instituição para outra, é o nome da disciplina, mas o conteúdo é basicamente o mesmo. Universidades de Santa Catarina (UFSC), Sergipe (UFSE), Juiz de Fora (UFJF) e São João Del Rey (UFSJ) demonstraram interesse e estão avaliando a possibilidade.

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) cadastrou a disciplina “Seminário Temático II: o golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil” pelo curso de pós-graduação em Ciências Sociais e também vai oferecer um curso de extensão para receber a comunidade de fora da universidade em razão da demanda. A disciplina terá quatro créditos com um total de 60 horas e será ministrada por quatro professores: Homero Costa, Alex Galeno, Orivaldo Lopes Jr. e Gabriel Vitulo. Cada professor terá 15 horas. As aulas serão às sextas-feiras no período da tarde, na sala G-4 do setor II. O início da disciplina será divulgado em breve.

A disciplina e o curso de extensão ocorrerão simultaneamente com a presença de professores de outros Estados, alguns já convidados. Já estão confirmadas aulas ministradas pelos professores Luís Felipe Miguel, idealizador da disciplina na UnB, Rodrigo Freire (UFPB), José Geraldo Vasconcelos (UFC) e Gonzalo Adrián Rojas (UFCG).

De acordo com o professor da UFRN Alex Galeno, a ideia de debater as consequências do golpe de 2016 e o futuro da democracia surgiu nos fóruns de discussão de Ciências Sociais. Após o suicídio do reitor da UFSC Luiz Carlos Cancellier de Olivo, preso pela Polícia Federal e execrado publicamente sob acusação de obstruir as investigações de um esquema de corrupção na universidade, fato até hoje não comprovado pela Justiça, cientistas sociais espalhados pelas universidades do país começaram a discutir meios de reagir aos ataques sistemáticos do Judiciário e do Governo Temer contra as instituições públicas federais e estaduais de ensino:

– A ideia é fortalecer esse movimento, por isso pensamos numa pós que pudesse nos ajudar a refletir sobre a realidade brasileira, tendo o cuidado de fazer essa reflexão acadêmica. Em outubro do ano passado, num encontro das Ciências Sociais em Caxambu, decidimos que seria preciso resistir e reagir de alguma forma. A criação dessas disciplinas sobre o golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil é consequência dos tentáculos desse estado de exceção do país, seja pelo Judiciário, pelo Governo ou outras instituições. É a concretização de um sintoma do golpe, que não foi dado pela violência física tradicional, mas como uma câmera de gás invisível, a partir do poder do Estado e das instituições repressivas.  

Galeno chama a atenção para a repercussão negativa na imprensa tradicional logo que surgiu a notícia da criação da disciplina na Universidade de Brasília. Para ele, a concepção das críticas passa pelo debate sobre o movimento Escola Sem Partido, que defende a imposição de uma única ideologia

– O debate sobre a Escola sem Partido tentou contaminar o movimento que nasceu nas Ciências Sociais. Veja que na entrada da UFRN foi instalado há pouco tempo um outdoor da UFRN sem Partido tentando chamar a atenção da sociedade.

A disciplina oferecida no curso de pós-graduação da UFRN vão trabalhar o histórico dos golpes no país, com foco no impeachment que afastou a ex-presidenta Dilma Rousseff. Os professores responsáveis pelas aulas vão definir nos próximos dias a ementa da disciplina.

– Vamos trabalhar esse histórico, falando do que houve em 2016, mas dizer que o Brasil tem um histórico tradicional de golpes. O objetivo é refletir sobre essa realidade brasileira, a partir de autores. O próprio professor Luiz Fernando Miguel, um dos grandes estudiosos do país sobre essa questão. Os detalhes mesmo vamos definir amanhã (sexta-feira). Além da aula normal, faremos um curso de extensão para que as pessoas de fora da universidade também possam participar. Então serão aulas e palestras, acontecendo em conjunto.

O presidente da ADURN-Sindicato Wellington Duarte destacou a importância do movimento, tanto em nível nacional como local, e espera que outras iniciativas semelhantes também aconteçam na universidade:

– Toda e qualquer forma de construir um espaço de resistência ao Golpe deve ser incentivado. Esperamos que novas ações sejam feitas pelos professores, servidores e alunos da UFRN.

A Agência Saiba Mais entrou em contato com a assessoria de comunicação da UFRN para ouvir a reitora Ângela Paiva sobre a criação da nova disciplina e do curso de extensão sobre o golpe de 2016 e o futuro da democracia. No entanto, até o fechamento desta matéria as respostas não haviam chegado. Assim que os questionamentos forem respondidos, publicaremos as respostas.


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