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29 de outubro de 2019, 14h56

“Vai levar mais de 10 anos para o ambiente se recuperar”, diz professor da UFPE sobre óleo em manguezais

Especialista em Oceanografia também alega que é quase impossível limpar os manguezais, pois tal ação pode acabar piorando o já fragilizado ecossistema

Foto: Clemente Coelho Júnior/Divulgação

O manguezal é um ecossistema complexo, rico em biodiversidade e um dos mais produtivos do mundo. Esses ambientes, no entanto, agora sofrem uma grave ameaça: o óleo que atinge há quase dois meses o litoral nordestino chegou aos mangues, “sufocando” sua fauna e flora. Especialista alerta para a impossibilidade de limpar essas regiões e já calcula o longo período que o ecossistema pode levar para se recuperar.

“Os manguezais são ambientes muito ricos que servem como berçário natural para diversas espécies de recursos vivos. É uma situação bastante complexa. As raízes que ficam pra fora do segmento ficam expostas, e o óleo penetra entre essas raízes e é muito difícil limpar”, explicou o professor de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Givan Yogui.

“Se botar um monte de gente no manguezal, pra ficar pisoteando e limpando isso, pode acabar até sendo pior do que o impacto já causado pelo óleo. É uma situação bem complicada”, completou.

No rastro do crime ambiental nas praias do Nordeste: Ajude a Revista Fórum a mergulhar na realidade dessa grande tragédia

O Brasil tem 25 mil quilômetros quadrados de áreas de manguezais, segundo o Departamento de Ecologia Aquática da USP. Desses, 25 mil quilômetros ficam em Pernambuco, o estado onde mais recolheram óleo das praias.

Também professor da UFPE, Clemente Coelho Júnior disse em entrevista à BBC News que, ao entrar em contato com o óleo, as plantas dos manguezais enfrentam um “hipóxia”, falta de oxigênio que impede que a planta respire, além de estresse por calor, já que o petróleo impede a transpiração da planta para diminuir sua temperatura. Cobertas, as árvores também podem deixar de executar a fotossíntese e morrer.

Dez anos

Questionado sobre o tempo que poderia levar para que o óleo desaparecesse do litoral nordestino, Gilvan conta que o cálculo é diferente para cada região.

“Nas praias, com as ondas batendo o tempo todo, é capaz que seja mais rápido. Agora, os estuários e os manguezais, dependendo da quantidade de óleo, vai levar eu diria mais de 10 anos pro ambiente se recuperar. Porque são ambientes onde têm uma renovação de água muito baixa, e o óleo acaba impregnando na lama, então ele pode ficar ali durante muito tempo”, contou.

Ainda, é provável que novas levas de óleo voltem a atormentar o litoral do Nordeste, ao contrário do que o governo de Jair Bolsonaro (PSL) explicitou nos últimos dias. De acordo com Gilvan, parte do óleo já está muito denso, o que faz com que a substância vá parar no fundo do oceano. Com o tempo, as correntes marinhas do fundo do oceano podem empurrar esses fragmentos de óleo, fazendo com que o mesmo volte para as praias durante um bom tempo.

Governo

Uma das problemáticas levantadas desde que as primeiras manchas de óleo começaram a surgir no litoral foi a inação do Ministério do Meio Ambiente para investigar as causas do vazamento e estipular diretrizes sobre como agir perante a tragédia.

Para Yogui, que acompanhou de perto os desdobramentos dessa crise ambiental, houve pouca coordenação nacional entre os estados. “Os governos atuais e as prefeituras estão atuando nesse problema, o Ibama e Marinha também, mas existe pouca coordenação nacional entre os estados, principalmente no início. Isso deveria ter sido coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente”, disse.

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