O que o brasileiro pensa?
26 de março de 2019, 06h00

Youtuber sofre ameaças de morte após divulgar vídeo sobre fóruns anônimos na internet

A partir do atentado de Suzano, o autor do canal Normose resolveu fazer um vídeo explicativo sobre o mundo dos fóruns anônimos, conhecidos como chans, e o radicalismo compartilhado nesses ambientes; agora, youtuber passou a ser alvo dos participantes desses fóruns, que teriam, inclusive, descoberto o seu endereço e de seus familiares

Reprodução

Os riscos do radicalismo de jovens em grupos anônimos na internet convencional e também na chamada deep web e dark web são cada vez mais eminentes e vêm colocando mais e mais pessoas em risco no Brasil. O atentado em uma escola pública de Suzano (SP) que culminou em 10 mortes no início do mês reacendeu a discussão sobre o discurso de ódio que prevalece nesses ambientes e requer uma análise delicada de quais fatores levam um jovem, normalmente branco e “privilegiado”, a agir pelo radicalismo contra pessoas que são colocadas como inimigos, como mulheres, negros e LGBTIs.

Foi neste sentido que o autor do canal Normose, no Youtube, divulgou no último dia 20 o primeiro vídeo de uma série sobre chans (termo utilizado para se referir aos fóruns anônimos na internet) e incels (termo que remete, em inglês, à “celibato involuntário”, se referindo a homens virgens involuntariamente que desenvolvem ódio por pessoas do sexo oposto).

Com mais de 63 mil inscrições, o canal é famoso por tratar de forma didática temas que envolvem as áreas de história, filosofia, sociologia e política e, no primeiro vídeo sobre os fóruns anônimos, se propunha a, a partir do atentado de Suzano, explicar como funcionam os ambientes onde normalmente esses ataques de ódio são planejados e desmistificar a ideia de que todos aqueles que frequentam os fóruns seriam doentes ou psicopatas. E ainda tinha como objetivo fazer uma análise mais profunda do perfil desses jovens e qual o contexto social que os levam a determinadas condutas.

Leia também
Atiradores de Suzano teriam articulado plano em grupo de ódio, que comemorou ação na deep web

“Ao contrário do que a mídia tradicional tem feito, de demonizar, misturar as coisas, propus uma análise mais sociológica do fato, entender como essas pessoas chegam nisso e como elas vão virando tóxicas ao longo do tempo. Meu olhar é muito mais para a exclusão e o afeto (…). É uma análise bastante ponderada no sentido de dizer que não é todo mundo que está ali [nos chans] que é doente, que têm as mesmas intenções, é muito plural”, disse à Fórum o autor do canal, que não terá a identidade revelada nesta reportagem para preservar seu anonimato nas redes.

Ele contou ainda à reportagem que resolveu fazer o vídeo a partir do depoimento de um ex-participante de um desses grupos que, estarrecido pelo ocorrido em Suzano, resolveu abrir o que conhecia sobre esses ambientes. O youtuber, então, se debruçou durante algum tempo sob o tema para produzir o vídeo e enriquecer a discussão.

“Quando dizemos que eles são os vilões, jogamos o jogo deles. A autodepreciação é positiva, só reforça a vontade de ficar ainda mais rebeldes. É preciso mostrar as fragilidades mentais, emocionais, expor que eles sofrem como qualquer um e se acham os tais. Mexer nessa ferida é a saída para eles e para nós. Essa bomba só tem uma solução: desativar os afetos. Trabalhar com a saúde mental. Entender quem é doente e quem é ideólogo”, diz o youtuber, de maneira ponderada, em um dos trechos do vídeo.

Apesar de não ter encampado nenhum ataque frontal contra os participantes de fóruns anônimos na internet, o autor do canal Normose, que se propôs a explicar o fenômeno, passou a ser alvo dos próprios destiladores de ódio desses ambientes, com ameaças explícitas de morte e intimidação contra sua família, como seus país e irmã.

“Eles têm muita dificuldade com a crítica, então, por mais que tenha sido leve, eles levaram como um puta ataque”, disse.

De acordo com o dono do canal, as ameaças começaram a ser compartilhadas em um desses fóruns anônimos e ele ficou sabendo, pois, um amigo seu tem acesso a esse chan. As ameaças são dos mais variados tipos, mas já se revelam de alta periculosidade uma vez que os participantes do fórum já teriam descoberto o endereço do youtuber.

“Há ameaças de todo tipo. Uma delas é aquela coisa de mandar pizza, mandar prostituta, coisas para minha casa. Como eles não tem certeza se eu moro aqui e não sabem se vai ser efetivo, falaram que vão ameaçar minha família. Acharam o perfil da minha irmã nas redes”, contou. Ele revelou ainda que até mesmo um indivíduo que se classificou como um “ex-participante” desse fórum conseguiu o telefone da casa de seus pais, que são leigos em internet, oferecendo “ajuda”.

“Já rolaram ameaças reais, com gente postando foto de arma e dizendo que já tem um serviço na cidade onde moro”, completou.

Coincidência ou não, o fato é que as ameaças ao youtuber não são isoladas. Os ataques contra o autor do canal Normose começaram no mesmo dia que, em outros grupos parecidos, foram identificadas ameaças de ataques contra mulheres na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e em outras universidades. Apreensivo, o jovem está há alguns dias afastado das redes sociais e retirou do ar o vídeo que motivou os ataques.

“Estou bastante apreensivo, mais pelos meus pais do que por mim”, revelou.

O youtuber já registrou um boletim de ocorrência e o caso está sendo investigado pela Polícia Civil.

“É importante as pessoas saberem pois é uma realidade que está acontecendo. Hoje é comigo, ontem foi com a Lola [Aronovovich]. Quanto mais a gente puder deixar isso em evidência, melhor”, pontuou.

Leia também
Após atentado em Suzano, Lola recebeu mensagem de membro de grupo de ódio frequentado por atiradores

Na última quinta-feira (21), apenas um dia após o canal Normose postar o vídeo sobre os fóruns e passar a ser alvo de ameaças, o canal Nada Se Cria divulgou um vídeo em que fala sobre o assunto.O autor também teria passado a ser alvo de ataques dentro desses ambientes anônimos.

Assista abaixo.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum