Quilombo

por Dennis de Oliveira

08 de fevereiro de 2017, 20h56

Bruna Sena na Medicina da USP: mídia tenta convencer pelo discurso da superação

Bruna Sena defende as cotas raciais e ações afirmativas

Bruna Sena defende as cotas raciais e ações afirmativas

A repercussão da aprovação da estudante Bruna Sena, 17 anos, em primeiro lugar no curso de Medicina da USP – campus Ribeirão Preto, ganhou destaque em diversos jornais e portais de notícia da mídia hegemônica.

Quase todos destacaram que ela veio da rede pública, é negra e da periferia. Tentaram passar a ideia que o “esforço pessoal” é suficiente para superar as barreiras. Este mesmo discurso vem sendo repisado nos produtos midiáticos da Globo quando tratam do racismo – os poucos negros e negras que aparecem enfrentam as barreiras do racismo pelo “esforço pessoal”.

Ficam simpáticos como Davis derrotando Golias.

Há um ditado clássico no jornalismo que diz o seguinte: quando um cachorro morde uma pessoa não é notícia; quando uma pessoa morde um cachorro, é notícia. Notícia é, segundo este ditado, aquilo que sai do transcurso normal dos acontecimentos. É a excepcionalidade.

Brancos e remediados que entraram em medicina não são notícia. Bruna Sena é notícia. Porque a sua aprovação sai do transcurso normal dos acontecimentos. É a excepcionalidade.

E o que as classes hegemônicas desejam é que as oportunidades para negras, negros e pobres em geral sejam fruto de excepcionalidades. Para virar notícias nos jornais e portais. E para reforçar a ideia de que “se esforçando muito se consegue, sigam este exemplo”.

Interessante que poucas reportagens foram feitas com os alunos que ingressaram nas universidades públicas por conta das ações afirmativas. Uma única reportagem, da revista Isto É, fez este balanço. Os demais órgãos silenciaram.

A favor das cotas

A jovem foi taxativa em dizer que defende as cotas e ações afirmativas e que a “Casa Grande surta quando a senzala vira médica”. Uma cacetada em quem tentou usá-la para ser um exemplo de superação pelo esforço pessoal.

E aí não faltaram reações. Patéticas. Como a de um tal de Leandro Larnoch que, no dia 8 de fevereiro, na Folha de S. Paulo, mencionou que esta visão de ricos maus não existe nem em “novelas mexicanas das mais marxistas” (não sei onde ele viu novelas mexicanas marxistas, aliás nem sabia que a Televisa e as suas “Usurpadoras” disseminavam o marxismo mundo afora) e que os ricos que vão a Paris não ficam mostrando fotos da miséria brasileira – e a conclusão, típica de um raciocínio obtuso, é que os ricos não tem orgulho da pobreza brasileira.

Mas ninguém falou em orgulho. Quando Bruna diz que a “Casa Grande surta quando a senzala vira médica” é que os membros desta Casa Grande simplesmente consideram que todo o espaço de excelência e oportunidades (inclusive visitar a Torre Eiffel em Paris) é exclusividade deles.

Não mostram a miséria porque simplesmente a ignoram. Não querem ver. E por isto ficam incomodados quando tem que dividir espaços com o pessoal do “andar de baixo” (usando uma metáfora de Elio Gáspari).

Parabéns, Bruna Sena. Uma pena que esta sua vitória que dependeu exclusivamente do super-esforço seu a colocará em um lugar que se sentirá como estrangeira. Porque, independente de esforço, ainda o Brasil está dividido entre Casa Grande e Senzala.

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