Urbanidades

29 de janeiro de 2014, 14h11

Cidades na marca do pênalti

Décadas sem o devido planejamento, sem desenho e sem debate deixaram nossas cidades sem defesa. Perdemos a iniciativa da questão urbana. Enquanto o Brasil melhorava em tanta coisa, as cidades pioravam a olhos vistos.

Em janeiro consegui a proeza de passar 8 dias sem internet, o que foi ótimo para colocar as ideias em ordem. Pensei inevitavelmente no ano que acabou e duas imagens dominaram minhas lembranças: as cenas dos protestos de junho e o pênalti defendido com o pé aos 48 min do segundo tempo que levou meu time, semanas depois, a ganhar a tão sonhada Libertadores.

Protesto em São Paulo, em junho de 2013 (Foto: Mídia Ninja)

Aparentemente estas duas cenas seriam absolutamente desconectas. Mas elas estão muito mais relacionadas do que pensamos e não só porque a Copa das Confederações foi um dos catalizadores dos protestos. As cidades brasileiras é que estão na marca do pênalti, ao final do segundo tempo.

Deixe que eu desenhe para explicar: Tivemos durante o século XX uma expansão gigantesca do processo de urbanização. O país que tinha 21 milhões de habitantes urbanos em 1950 (40% de 51M) virou o século com 136 milhões (80 % de 170M). Estes 110 milhões de habitantes geraram uma demanda por infraestrutura que foi apenas arranhada nos anos 50 e 70. Soma-se a isto a distribuição desigual das obras no espaço e temos a cidade excludente da virada do milênio.

Continuando com a metáfora futebolística (afinal de contas tenho até julho para continuar comemorando minha Libertadores) é como se estivéssemos perdendo de 3 ou 4 a zero neste início de primeiro mandato. O lulômetro de 2002 dizia ser impossível qualquer virada neste jogo e a Carta aos Brasileiros indicava uma retranca de 3 volantes que manteria o placar, na melhor das hipóteses, inalterado.

Eis que no segundo mandato o governo Lula arruma o meio de campo e começa a reagir: gol de crescimento econômico; gol de estabilidade institucional; gol de distribuição de renda; gol de investimento em infraestrutura. O jogo parecia ganho em 2010, à oposição restou cair na área, derrubada por bolinhas de papel.

Mas parece que marcamos o adversário errado. Abandonamos o lateral dos direitos humanos sozinho lá na ponta direita, bem como o zagueiro do movimento ambiental. Nos preocupamos demais com os outros times da conjuntura internacional enquanto no STJD ou no STF as regras iam sendo uma a uma trocadas segundo a conveniência do campeonato.

Entretanto, o problema maior mesmo foi a avenida aberta na defesa do bem estar da população. Enfraquecidas por falta de transporte público; inflamadas pelo excesso de carro (o cigarro do século XXI como alguém tão bem colocou); e estressadas pela gentrificação decorrente da bolha imobiliária; nossas cidades estão perto do colapso. Décadas sem o devido planejamento, sem desenho e sem debate deixaram nossas cidades sem defesa. Perdemos a iniciativa da questão urbana. Enquanto o Brasil melhorava em tanta coisa, as cidades pioravam a olhos vistos.

Agora vem a outra cena principal de 2013. O pênalti, marcado em junho de 2013, foi sim falta feia dentro da área. Aos 48 do segundo tempo, pênalti pro outro time. Não adianta reclamar com o juiz, ele já vetou o aumento do IPTU. Não adianta apelar para o Estatuto do Torcedor, irmão mais novo do Estatuto das Cidades, ambos já foram dominados pelos poderes interessados e entre estes não se inclui o interesse público. Não adianta fazer cera, as cidades não podem mais esperar. Aos 48 do segundo tempo o atacante adversário corre pra bola na marca do pênalti.

As cidades brasileiras contam apenas com o pé (esquerdo diga-se de passagem) do goleiro caído.

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