Um grupo interdisciplinar de cientistas da Flinders University, na Austrália, desenvolveu um método inovador para extrair ouro de minérios e do crescente estoque global de lixo eletrônico sem o uso de mercúrio ou cianeto — duas das substâncias mais tóxicas empregadas pela mineração tradicional.
O processo, detalhado na revista Nature Sustainability, utiliza um reagente comum em desinfecção de piscinas, água salgada, luz UV e um polímero reciclável capaz de capturar ouro com alta seletividade.
A descoberta pode representar um ponto de inflexão tanto para a mineração artesanal — responsável por cerca de 37% da poluição global por mercúrio — quanto para o setor de reciclagem de e-waste, que hoje recupera apenas 22,3% dos resíduos produzidos mundialmente.
Justin Chalker, professor de Química e líder do projeto, afirma que o objetivo central é oferecer uma alternativa viável e ambientalmente segura às práticas atuais. “O estudo apresenta uma série de inovações, incluindo um novo reagente de lixiviação derivado de um composto usado para desinfetar água”, explicou o pesquisador, destacando que a equipe também desenvolveu um método inteiramente novo para produzir o polímero sorvente, ativado apenas por luz UV.
O processo começa com o uso de tricloroisocianurato — substância barata e de baixo risco, amplamente utilizada na sanitização de piscinas — ativado em água salgada. Esse reagente é capaz de dissolver ouro presente em minérios, placas de circuito e até mesmo em resíduos científicos.
Em seguida, o metal dissolvido é capturado por um polímero rico em enxofre, criado pela equipe da Flinders University. O material age como uma “armadilha seletiva”, isolando o ouro mesmo em misturas extremamente complexas com outros metais.
A etapa final é considerada uma das mais impressionantes: o polímero pode ser “desfeito” sob comando, liberando o ouro puro e retornando ao seu estado original — o que permite seu reuso contínuo em novos ciclos de extração.
“Com a crescente demanda tecnológica e industrial por ouro, é cada vez mais importante desenvolver métodos seguros e versáteis de purificação”, afirmou a pesquisadora Lynn Lisboa, uma das autoras do estudo.
Os cientistas testaram a técnica em múltiplos cenários, incluindo placas-mãe, módulos de RAM, minérios complexos e resíduos industriais com quantidades ínfimas de ouro. Em todos os casos, a eficiência foi considerada alta, com recuperação de ouro de pureza significativa.
“Entramos em uma montanha de lixo eletrônico e saímos com um bloco de ouro”, disse o pesquisador Harshal Patel sobre os testes realizados com e-waste. “Espero que isso inspire soluções práticas para desafios ambientais urgentes.