CIÊNCIA

Gelo mais antigo já descoberto desvenda mistérios da vida na Terra há milhões de anos

Esta descoberta incrível pode ajudar os cientistas a entender como as mudanças climáticas afetaram a Terra

Geleira na AntárticaCréditos: Santiago Cañedo/Wikimedia Commons
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Um grupo internacional de cientistas anunciou a descoberta de um bloco de gelo com mais de 6 milhões de anos na Antártica, o mais antigo já identificado na Terra. O achado, descrito como excepcionalmente preservado, foi encontrado a uma profundidade entre 100 e 200 metros e pode oferecer pistas inéditas sobre o clima do planeta no passado remoto. O estudo, publicado em 28 de outubro na revista científica PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences), indica que o gelo é duas vezes mais antigo que as amostras mais velhas conhecidas anteriormente, datadas de cerca de 2,7 milhões de anos.

O gelo foi formado durante o período Mioceno, época em que as temperaturas globais eram significativamente mais altas e o nível do mar mais elevado do que os atuais. Estima-se que, há 6 milhões de anos, a Terra era habitada por espécies muito diferentes das atuais — entre elas, mastodontes primitivos, tigres-dentes-de-sabre, preguiças-gigantes, rinocerontes ancestrais e golfinhos de água doce que viviam em regiões hoje áridas. Os homo sapiens ainda estavam muito distantes de surgir — a espécie humana moderna só apareceria cerca de 5,8 milhões de anos depois.

A equipe liderada por John C. Shackleton, da Universidade Estadual do Oregon, localizou o gelo recordista na área de gelo azul de Allan Hills, na Antártica Oriental, entre 2019 e 2023. O campo de Allan Hills, situado a cerca de 2.000 metros acima do nível do mar, é conhecido por conservar antigas camadas de gelo que emergem lentamente à superfície devido ao movimento dos ventos e à erosão glacial. Para datar as amostras, os pesquisadores mediram o decaimento radioativo dos isótopos de argônio presentes nas bolhas de ar aprisionadas. A análise dos isótopos de oxigênio também revelou que a região passou por um resfriamento gradual de cerca de 12 °C ao longo dos últimos 6 milhões de anos.

As bolhas de ar preservadas dentro do gelo funcionam como cápsulas do tempo atmosféricas, permitindo aos cientistas reconstruir os níveis de gases de efeito estufa e a temperatura dos oceanos no passado. Segundo os pesquisadores, esses dados podem ajudar a entender melhor os ciclos naturais de aquecimento e resfriamento da Terra, além de fornecer referências valiosas sobre o impacto das atividades humanas no clima moderno. Desde o Mioceno, o planeta vem passando por um processo natural de resfriamento, que culminou nas glaciações. No entanto, a partir da Revolução Industrial, a temperatura média global voltou a subir rapidamente, impulsionada pela emissão de gases de efeito estufa resultantes da ação humana.

Os cientistas ainda não sabem exatamente como o gelo de 6 milhões de anos permaneceu intacto por tanto tempo. A principal hipótese aponta para uma combinação de fatores ambientais — incluindo a topografia da região, ventos catabáticos intensos e temperaturas extremamente baixas — que podem ter impedido o derretimento e protegido as camadas mais antigas.

Para a comunidade científica, a descoberta abre uma nova janela para o estudo da história climática da Terra e oferece uma rara oportunidade de compreender como o planeta reagiu a períodos de aquecimento natural no passado, o que pode ajudar a prever cenários futuros de mudanças climáticas.

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