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18 de maio de 2018, 17h42

Colômbia vai às urnas para escolher novo presidente: saiba o que está em jogo

À Fórum, o advogado colombiano Pietro Alarcón destacou que as duas principais candidaturas à presidência representam projetos completamente antagônicos: um reacionário, neoliberal e contrário ao acordo de paz, liderado por Ívan Duque; e um popular, inclusivo e favorável ao acordo, liderado pelo ex-guerrilheiro Gustavo Petro. Saiba mais

Foto: Agência Prensa Rural
Os colombianos vão às urnas no próximo dia 27 de maio para escolher seu novo presidente. Trata-se da primeira eleição presidencial do país após o histórico acordo de paz do governo com as Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia (Farc), que começou a por fim a mais de meio século de violência e que rendeu, ao atual presidente, Juan Manuel Santos, um prêmio Nobel da Paz. Apesar do acordo, nem tudo são flores na Colômbia pré-eleições. O Exército de Libertação Nacional (ELN) segue em plena atividade de guerrilha e anunciou uma trégua apenas para a semana da votação. No campo político,...

Os colombianos vão às urnas no próximo dia 27 de maio para escolher seu novo presidente. Trata-se da primeira eleição presidencial do país após o histórico acordo de paz do governo com as Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia (Farc), que começou a por fim a mais de meio século de violência e que rendeu, ao atual presidente, Juan Manuel Santos, um prêmio Nobel da Paz.

Apesar do acordo, nem tudo são flores na Colômbia pré-eleições. O Exército de Libertação Nacional (ELN) segue em plena atividade de guerrilha e anunciou uma trégua apenas para a semana da votação. No campo político, o grupo – de direita – que é contra o acordo de paz tem maioria no Congresso colombiano e lidera as pesquisas eleitorais para a presidência.

Esse grupo, na corrida presidencial, é representado por Ívan Duque (Centro Democrático), o candidato do ex-presidente Álvaro Uribe. De acordo com o advogado colombiano Pietro Alarcón, que é professor na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), este campo político é contra o acordo de paz pois ele “surge de maneira emergente em função do grande capital monumental do negócio do narcotráfico”.

“Ívan Duque representa pessoas que durante muitos anos se enriqueceram às custas dos deslocamentos dos camponeses, às custas dos sacrifícios dos colombianos, em função do panorama de guerra e de degeneração que se estendeu durante o período de governo de Uribe e se estendeu ao povo colombiano praticamente na sua integralidade”, explica Alarcón.

O advogado colombiano, professor da PUC-SP, Pietro Alarcón (Reprodução)

Em entrevista à Fórum, Alarcón fez uma análise do atual cenário político colombiano e explicou o que significa as candidaturas que lideram as pesquisas. Ívan Duque, que tem em torno de 40% das intenções de voto de acordo com os últimos levantamentos, representa, para o cientista político, “o que há de mais reacionário, mais atrasado que nós temos em termos de política”. Contrário ao acordo de paz, uma eleição de Duque, para Alcarón, significaria um retrocesso com relação à própria implementação do acordo, que envolve pontos como a reforma agrária e, mais do que isso, segue uma agenda neoliberal que vem sendo imposta através de uma onda conservadora em vigor por toda a América Latina.

“Duque significa o reforço dessa tendência que há na América Latina atualmente de consolidar o neoliberalismo, não apenas como um projeto, mas como um sistema econômico ancorado no extrativismo e, no caso colombiano, ancorado no extrativismo e nas vantagens para esse latifúndio improdutivo ou produtivo sobre a base da servidão dos camponeses. Duque implicaria, dentro dos marcos de seu projeto, a implementação de uma contrarreforma agrária e de uma contrarreforma trabalhista”, disse Alarcón.

Por outro lado, o segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto, Gustavo Petro (Movimento Colômbia Humana), ex-guerrilheiro do Movimento 19 de Abril (M-19) e ex-prefeito de Bogotá, representa, com sua candidatura, um projeto completamente antagônico ao de Duque: defende a implementação e o avanço do acordo de paz, com todas as reformas previstas, encampa um discurso de um governo popular e inclusivo com relação às minorias vulneráveis e carrega consigo a unidade de movimentos de trabalhadores, tanto do campo quanto da cidade.

“A candidatura de Petro tem conquistado almas e corações daqueles que pretendem manter não somente vivo o acordo, mas o cumprimento e a implementação dos vários pontos que há no acordo. Por exemplo, a reforma agrária integral, retorno dos deslocados às suas terras, e isso significa uma confrontação direta ao latifúndio extensivo na Colômbia. Além disso, ele defende uma política de inclusão de minorias e grupos vulneráveis (…) A candidatura de Petro é uma candidatura que em alguma medida representa a ascensão da luta popular e da resistência popular colombiana com relação a um governo que negociou mas que neste momento demonstrou uma fragilidade enorme para poder implementar o acordo de paz. Me parece que uma vitória de Gustavo Petro seria importantíssima porque isto, obviamente, teria uma repercussão no Brasil e na Argentina, países que de alguma maneira se projetaram na década passada, com ritmos diferentes, digamos, de consolidação de seus processos anti-neoliberais”, pontua.

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Confira, abaixo, a íntegra da entrevista.

Fórum – Qual o perfil dos principais candidatos e o que, exatamente, representa cada candidatura?

Pietro Alarcón – Eu poderia dizer de maneira sumária que são duas candidaturas completamente antagônicas em termos de perfil e em termos de programa. Me parece que, em primeiro lugar, há de se levar em conta que Ívan Duque é o candidato que representa, e isso não é nenhum segredo na Colômbia, as intenções políticas do setor chamado Centro Democrático, que tem com caudilho o ex-presidente Álvaro Uribe. Com você deve lembrar, o presidente Uribe, do ponto de vista da composição da classe dominante colombiana, não faz parte daquilo que podemos chamar de oligarquia tradicional do país. O presidente Uribe faz parte de um segmento da parte dominante que surge de maneira emergente em função do grande capital monumental do negócio do narcotráfico. Uribe, portanto, tem uma proposta, desde antes de se eleger presidente, completamente contrária à paz. A problemática social e o conflito que há no país passa, pela perspectiva de Uribe, por uma saída militar. Segundo a concepção transportada hoje a Duque, é preciso criticar acordo de paz. E, na verdade, este setor que Duque representa, e o setor de Uribe, o Centro Democrático,  representa essas pessoas que durante muitos anos se enriqueceram às custas dos deslocamentos dos camponeses, às custas dos sacrifícios dos colombianos, em função do panorama de guerra e da degeneração da guerra que se estendeu durante o período de governo de Uribe e se estendeu ao povo colombiano praticamente na sua integralidade. Por isso, para ninguém é um segredo, reitero, que a candidatura de Ívan Duque representa o que há de mais reacionário, mais atrasado que nós temos em termos de política como forma e como arte de trabalhar pelo bem comum.

Já a candidatura de Gustavo Petro é uma candidatura que constitui o resultado de um conjunto de expectativas do povo colombiano, e especialmente daqueles setores vinculados à necessidade de respeitar o acordo de paz. A maior parte dos analistas políticos colombianos, bem como muitos analistas internacionais, já têm reconhecido que Petro é um autêntico fenômeno político, que sua candidatura tem conquistado almas e corações daqueles que pretendem manter vivo não somente o acordo, mas o cumprimento e a implementação dos vários pontos que há no acordo. Por exemplo, a reforma agrária integral, retorno dos deslocados as suas terras – e isso significa uma confrontação direta ao latifúndio extensivo na Colômbia -, uma política de inclusão de minorias e grupos vulneráveis… E a linguagem de Petro é muito sedutora, ele tem conseguido aproximar vários movimentos que tem trabalhado na perspectiva histórica de alcançar a paz.

São candidaturas completamente diferentes. Agora, há outras candidaturas também. Logicamente cada uma com propostas. Se houver segundo turno, provavelmente haverá um realinhamento daquilo que neste momento temos no programa político.

 

Ívan Duque, o candidato do Centro Democrático que lidera as pesquisas. (Foto: Confidencial Colombia)

Fórum – Apesar do favoritismo de Ívan Duque, acredita que há, então, força na candidatura de Gustavo Petro para levar o pleito ao segundo turno?

Pietro Alarcón – Bom, eu acho que as pesquisas demonstram que Duque está à frente, mas não o indicam necessariamente como favorito. Ele está à frente nas pesquisas e na última Ívan Duque tinha em torno de 41%. Agora, se você observar o povo nas ruas da Colômbia e até os colombianos no exterior, você constata muito otimismo com a candidatura da Colômbia Humana encabeçada por Gustavo Petro. Me lembro que no começo de março as pesquisas davam Petro com 21% das intenções de voto. Já no final de março Petro tinha subido a 26%. Em 3 de abril caiu um pouco, estava em 22%, e em maio há uma retomada em que ele chega a 31%, 32% das intenções. Acho que a perspectiva é grande de que exista um segundo turno.

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Agora, você deve levar em conta que a Colômbia é um país cujo os vícios eleitorais e as possibilidades de fraude do processo eleitoral são muito grandes, muito amplas. Há vários mecanismos que permitiriam nessa frágil democracia que qualquer questão pudesse acontecer.

O ex-guerrilheiro e ex-prefeito Gustavo Petro, segundo lugar nas pesquisas (Foto: Telesur)

Fórum – Nas eleições legislativas de março a direita, grupo de Duque, obteve uma considerável vitória, tendo conseguido a maioria das cadeiras do parlamento. A que o senhor credita essa vitória? Seria à crítica que o Centro Democrático faz ao acordo de paz?

Pietro Alarcón – Na verdade, não. Eu acho que são momentos diferentes. Quem faz uma análise pormenorizada da Colômbia, da evolução dos acontecimentos, observará que uma coisa é a decisão dos colombianos com relação ao plebiscito no ano de 2016, outra coisa é o plebiscito realizado no mês de outubro do ano passado, em que muitos colombianos foram enganados, como foi reconhecido posteriormente, e foi dito ao mundo por parte daqueles que agenciaram nesse engano. Muitas pessoas foram votar achando que o processo de paz e os acordos de paz diziam uma coisa e na verdade diziam outra. E agora que  há uma pedagogia de paz muito mais consistente. É um momento que as organizações sociais iniciaram um processo de apropriação daqueles acordos, o que não podia ser feito da noite para o dia. Naquele tempo, quando se colocou o plebiscito, os acordos tinham acabado de se concluir e sequer havia condições naquele momento de lançar ao mundo um processo pedagógico de projeção desses acordos à comunidade, nem na Colômbia e nem internacionalmente. Isso precisava de um certo tempo. Então, o que aconteceu? A candidatura de Petro é uma candidatura que em alguma medida representa a ascensão da luta popular e da resistência popular colombiana com relação a um governo que negociou, mas que nesse momento demonstrou uma fragilidade enorme para poder implementar o acordo de paz.

O setor encabeçado por Uribe, o Centro Democrático, tem 19 senadores e, nas últimas eleições, de fato, junto com o Câmbio Radical, são os partidos que têm a maioria: somam 35 de um total de 102 senadores. São realmente uma força. Mas qual a explicação para isso? Primeiro, o altíssimo volume de recursos econômicos da campanha do Centro Democrático. Ou seja, estamos falando do capital colombiano e da oligarquia colombiana emergente que mobiliza uma grande quantidade de recursos. Em segundo lugar, esses governos de Uribe foram caracterizados por uma repressão enorme e por um controle paramilitar de muitos postos de votação, de muitas regiões nas quais aconteceu aquela virada, por assim dizer. Em regiões onde havia uma grande presença do setor popular, em função da presença paramilitar, houve uma estratégia de medo, de intimidação, como é frequente na política colombiana. E por outro lado, obviamente, também esses setores se opõem ao processo de paz. Há uma mistura disso na Colômbia. Não posso dizer que há uma unanimidade quanto ao processo de paz, há inimigos, e o primeiro inimigo é Uribe. Então, o capital vai dirigir precisamente a intimidação, o reforço dos grupos paramilitares que começam a ocupar as regiões que antes eram ocupadas militarmente pelas guerrilhas, particularmente a guerrilha das FARC. Existem vários fatores que explicam essa mobilização eleitoral.

Há outra questão que tem que ser levada em conta que é o clientelismo. Há muitas pessoas que se encontram vinculadas tanto à administração pública quanto a diversos setores da economia que foram dominados por candidatos tanto do Centro Democrático quanto do Câmbio Radical sob pena de perderem empregos, perderem vantagens, prerrogativas das quais muitas vezes depende o seu sustento.

Fórum – Uma possível vitória de Ívan Duque representaria um risco de retrocesso com relação aos avanços conquistados com o acordo de paz? Qual seria o impacto de sua eleição?

Pietro Alarcón – Não somente há o risco. Mais que isso. Trata-se de algo que já é anunciado pelo Ívan Duque. Não se trata de um risco, em processos eleitorais não se trabalha com risco. Me parece que os programas são claramente antagônicos e o que teremos, por exemplo, é: se ganha Petro, ganha a certeza da construção de pontes para que a América Latina consiga transmitir da Colômbia uma mensagem de otimismo para os povos do mundo com relação à luta pelos direitos. Me parece que uma vitória de Petro seria importantíssima porque isto, obviamente, teria uma repercussão no Brasil e na Argentina, países que de alguma maneira se projetaram na década passada, com ritmos diferentes, digamos, de consolidação de seus processos anti-neoliberais. São processos completamente diferentes e pode até haver críticas com relação a eles, mas são processos que não adotaram o neoliberalismo como sua fórmula para o desenvolvimento de suas nações.

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Já uma vitória de Duque significa o reforço dessa tendência que há na América Latina atualmente de consolidar o neoliberalismo, não apenas como um projeto, mas como um sistema econômico ancorado no extrativismo, e no caso colombiano, ancorado no extrativismo e nas vantagens para esse latifúndio improdutivo ou produtivo sobre a base da servidão dos camponeses. Duque implicaria, dentro dos marcos de seu projeto, a implementação de uma contrarreforma agrária, de uma contrarreforma trabalhista, que já começou inclusive dentro do governo Santos. Ele reafirmaria essa contrarreforma e isso significaria um atentado à previdência, que é uma das propostas desse setor. Então, acho que se houver segundo turno seria extremamente importante porque gera uma expectativa enorme sobre como esses setores, de alguma forma, teriam que chegar a acordos para viabilizar algum dos dois projetos de país. Um que condena e outro que se enche de esperanças, que é a proposta da Colômbia Humana, de Gustavo Petro. Isso em um país com democracia restrita há muitos anos, milhões de deslocados e 230 assassinatos depois do processo de paz. Ou seja, o conflito ainda está vivo em alguma regiões. A vitória de Petro significa também a implementação do acordo, continuar com esse diálogo com o ELN e fomentar a paz no país, que é o que tanto fere a Uribe e a Duque. Paz é uma coisa que eles não gostam de escutar. Há interesses muito fortes.

Ívan Duque (à esquerda) e Gustavo Petro (à direita) em debate televisionado (Foto: Reprodução)

Fórum – O senhor citou as “pontes” para a América Latina que seriam construídas com uma vitória de Petro. Acredita que a candidatura de Duque que, como falou, representa o que há de mais reacionário, faça parte, em uma visão mais global, da onda conservadora que atinge o continente latino-americano como um todo?

Pietro Alarcón – Sem dúvidas. É uma questão que nós estamos observando com muita preocupação no mundo. Esses ventos fascistas e neofascistas são oriundos do centro da Europa e representam o avanço da direita mais conservadora que, aqui no Brasil, por exemplo, tem como eixo a candidatura torpe e irresponsável de Bolsonaro, para além daquelas candidaturas que hoje pretendem se apresentar como centro, mas que na verdade são uma direita que, diante de Bolsonaro, pretendem se apresentar como polidas. Na verdade não há nenhum centro, é a direita de sempre.

Acho que o setor de Ívan Duque representa também esses interesses que têm um discurso e uma linguagem bastante excludente. Praticamente, pretende nos fazer retornar a uma Colômbia do século 19, com uma democracia ainda mais restringida e com cerceamento de liberdades. Faz parte, sim, de um processo, uma onda internacional social extremamente negativa.

Os golpes brandos, os golpes que vêm sendo dados na América Latina, que começou com Honduras, se estendeu ao Paraguai, chega ao Brasil e vai fomentando um clima de, digamos, de cerceamento das liberdades e, o pior, me parece, é o fato de que o movimento popular continua anestesiado, ainda não tem sido dada uma resposta à altura.

Neste sentido, dentro de um processo de acumulação de forças, me parece importante destacar a presença efetiva dos trabalhadores colombianos na campanha de Gustavo Petro. Se analisarmos continentalmente, me parece que a estratégia de Petro de procurar um respaldo constante no povo organizado, que trabalha com um projeto na mão que é um acordo de paz, é muito importante.

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